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Mal-estar na Civilização
Pobre Mundo Rico

Depois de lutar por uma vida cômoda e repleta de bens materiais, profissionais bem-sucedidos descobrem-se pobres interiormente e sem tempo para as coisas realmente importantes.

Por Jacob Needleman
O texto a seguir é um excerto do capítulo 2 do livro O Dinheiro e o Significado da Vida, de Jacob Needleman, publicado no Brasil pela Editora Cultrix. Tradução: Gilson César Cardoso de Sousa.

João Primo/Prensa Três

Anos atrás, comecei a notar que quase todos os meus conhecidos tinham a mesma queixa. Eles diziam algo assim: “Estou numa situação péssima.” Ou, a propósito de outra pessoa: “Ela está atravessando uma fase ruim.” Mas logo percebi que esses “períodos difíceis” ocorriam com freqüência excessiva; na verdade, tinham-se tornado um aspecto permanente da vida das pessoas. Elas, porém, continuavam a falar como se se tratasse de algo passageiro e logo fossem navegar por águas mais calmas.

Passei a me interessar profundamente por esse fenômeno. Aquelas eram pessoas talentosas e maduras – médicos, executivos, editores, cientistas, engenheiros, professores, artistas. Muitas residiam em belas casas, tinham automóveis caros e até barcos. Pareciam mesmo gente que “havia vencido”.

Quase todas reconheciam estar em situação melhor que antes: ganhavam mais dinheiro, moravam em casas mais confortáveis, tinham carros mais luxuosos, roupas mais finas... No entanto, quase sem exceção, estavam passando por um “período difícil”.

Só depois de muito tempo e como resultado de constantes observações desse tipo é que a questão da riqueza de nossa sociedade associou-se, em meu espírito, ao fato da crescente infelicidade das pessoas. Eu tinha, diante de mim, uma tremenda contradição. Parecia óbvio que, num sentido profundo, essencial, não éramos absolutamente ricos, mas na verdade paupérrimos.

Como é ser pobre? Qual é o sofrimento psicológico normalmente associado à pobreza? Para mim, a pobreza estava sempre ligada ao medo e à ansiedade pelo futuro, ao temor do abandono, da solidão, dos danos físicos. Via os pobres como pessoas presas, tensas, ladinas, grosseiras. Via-os entediados, desesperançados ou consumidos por fantasias absurdas, e drogando-se com algum veneno que destruía seus corpos oferecendo apenas alívio de um esquecimento passageiro. A vida deles era a própria imagem do inferno.

Sipa-Press
Ânsia desmedida pelo prazer sexual: um dos maiores vícios da modernidade.

A vida no inferno – Tenhamos em mente as imagens do inferno apresentadas, ao longo dos séculos, pelos grandes sábios do mundo. Comecemos pelo símbolo mais óbvio e corriqueiro, o fogo eterno. Não é difícil perceber que isso significa a tortura provocada pelos próprios desejos. Uma palavra mais moderna para essa condição é neurose – um quadro em que a pessoa se vê presa a um esquema recorrente de sofrimento emocional, em que a obtenção do pretenso objeto de desejo só serve para intensificar o desejo em si. Recentemente, e de maneira mais interessante, o termo vício passou a ser usado para descrever esse insidioso sofrimento psicológico. Assim como a pessoa pode viciar-se num narcótico como o ópio ou a heroína, todos temos um anseio vicioso por sexo, reconhecimento, comida, roupas, vitórias ou uma das incontáveis coisas e experiências que formam o objeto daquilo que chamamos emoções.

Temos de entender que, quando os grandes pensadores do passado nos advertem sobre os males do desejo, estão falando disso. Estão falando de vício. Nenhum sábio – nem Cristo, nem Moisés ou Sócrates – jamais condenou o desejo pelo desejo. Não, o que tentaram mostrar é que nós permitimos que os desejos definam o nosso senso de identidade. Alimentamos os desejos com uma energia psíquica preciosa, que deveria desempenhar uma função muito superior em nossas vidas. Alimentados por essa energia, os desejos se transformam em ânsias, vícios; e não há melhor representação desse estado de coisas do que a imagem do fogo eterno.

Na primeira parte da Divina Comédia, de Dante, o autor desce ao inferno, e logo se compadece dos homens e mulheres que lá são atormentados. Mas o seu guia, o grande poeta Virgílio, censura-o. Não sinta piedade deles, explica. Estão tendo exatamente o que desejam. O inferno é o estado em que somos impedidos de ter o que realmente nos é necessário porque damos valor ao que apenas desejamos. É uma condição de privação absoluta, isto é, de pobreza.

Em seu prestigioso livro The Affluent Society, John Kenneth Galbraith afirma que a atual estrutura econômica da sociedade norte-americana baseia-se não na satisfação, mas na criação de desejos. Esse aspecto de nossa ordem econômica é um dos principais fatores que a distinguem das economias de quase todas as outras culturas da história. Na seguinte passagem de The Affluent Society, Galbraith resume sua análise da dinâmica da produção de bens de consumo em nossa sociedade. Com poucas e insignificantes modificações, o trecho poderia passar por uma descrição budista tradicional do inferno:

“Não podemos dizer que a produção satisfaz desejos se ela própria os cria.

Se um homem, de manhã, fosse assaltado por uma caterva de demônios que lhe instilassem a paixão, ora por camisas de seda, ora por eletrodomésticos, ora por urinóis, ora por espremedores de laranja, haveria razão para aplaudir o esforço de possuir os bens, esquisitos embora, que atiçam essa chama. Mas se essa paixão for o resultado de seu ato inicial de cultivar os demônios e se seu esforço para quitá-los induz os demônios a um afã cada vez maior, bem poderíamos questionar a racionalidade dessa solução. Exceto se sopeado por atitudes convencionais, o homem poderia perguntar qual seria a solução: mais bens ou menos demônios?

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