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Xamanismo Tecnológico
Modernos Rituais de Cura
Quando dá entrada no hospital, o doente entrega-se nas mãos
do médico e submete-se a verdadeiros rituais, que acabam ajudando
no processo de cura.
Por
Rüdiger Dahlke
O texto aqui apresentado é um excerto
do capítulo 2 do livro A Doença Como Linguagem
da Alma, de Rüdiger Dahlke, lançado recentemente
pela Editora Cultrix. Tradução: Dante Pignatari.
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Marcus Raichle/Sipa-Press
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Na
Antigüidade, a vida começava com um ritual
de nascimento e terminava com um ritual de morte.
Hoje em dia, ambos foram transferidos em grande parte
para as clínicas, transformando-as assim em refúgios
de ritos inconscientes. Os rituais predominantes na medicina
podem ajudar-nos a entrever o valor geral da ritualística
para os processos de cura, devendo portanto ser considerados
de maneira mais minuciosa.
Com o necessário olhar aguçado, pode-se
encontrar nas clínicas modernas uma desconcertante
quantidade de mágica, à altura de qualquer curandeiro.
Em tempos arcaicos, quando os pacientes se entregavam aos
cuidados dos curandeiros, eles perdiam todos os direitos de
autodeterminação e entregavam-se a Deus e, portanto,
aos xamãs que o representavam. Hoje em dia nós
encenamos um efeito semelhante de maneira ainda mais ostentosa.
O paciente moderno também abdica de seu direito à
autodeterminação, em geral já na recepção.
Esta continua sendo um lugar essencial de qualquer clínica,
guardando o limiar do outro mundo, assim como o faziam antigamente
as portas do templo. Devido à sua invisibilidade e
à temática da doença, sentida por trás
de tudo, o mundo que está além da recepção
provoca angústia. De maneira correspondente, não
é raro que os pacientes se sintam oprimidos por todas
as coisas que vêm até eles e que não compreendem.
Os antigos deviam sentir-se de maneira semelhante ao entrar
em um templo de Esculápio em busca de cura, com a diferença
de que o faziam de forma mais consciente.
Após
serem registrados segundo um esquema rígido, os
pacientes são enviados para a cama o mais rapidamente
possível. Ainda que estejam totalmente sãos
e cheguem na noite anterior a um exame ou uma intervenção,
no hospital os pacientes devem deitar-se. Aqui a cabeça,
que representa o comando central, não pode ser mantida
erguida, devendo por princípio reclinar-se. Dessa maneira
assegura-se também que os pacientes estejam aos pés
dos médicos, ao menos fisicamente, manifestando-se
com clareza que discussões de igual para igual estão
fora de questão. Para eles, não resta muito
para conversar e praticamente nada que possam decidir. Tanto
em relação à forma quanto ao conteúdo,
eles são transformados o mais rapidamente possível
em pacientes.
Faz
parte desse ritual ser colocado na cama por uma enfermeira
tal como se fossem crianças, isso depois de obedecer
à ordem de se despir. Tem início o retrocesso
ao nível de responsabilidade de uma criança.
Na maioria das clínicas, passa-se a maior parte do
tempo no quarto, exatamente como na época da infância.
Isso acarreta ainda o efeito adicional de que a enfermeira
deve decidir quando é hora de dormir, desejando o melhor
para as queridas crianças, naturalmente:
apagar a luz, fechar os olhos! Na manhã seguinte, não
há nada daquilo que os pacientes gostam de comer no
café da manhã. Novamente, são outros
que decidem o que é melhor para eles.
Celebra-se aqui um grandioso ritual com o único
objetivo de transformar seres humanos em pacientes, mais pro-
priamente transformando-os de novo em crianças. Muitos
detalhes concorrem para a consecução desse processo:
caso os pacientes queiram passear, têm de fazê-lo
de pijama, camisola ou roupão de banho, mas nunca como
adultos emancipados normais. Eles não podem estar tão
saudáveis a ponto de não ter de deitar-se na
cama quando o médico os visita, aguardando pacientemente
as manipulações dos semideuses. Estes, de fato,
decidem em grande medida o destino dos pacientes, os quais
são informados apenas dos resultados. Os médicos,
quando discutem entre si, utilizam uma linguagem secreta praticamente
incompreensível.
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Biddle/Sipa-Press
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| Enfermeiro
auxilia paciente: rituais que transformam adultos
em crianças. |
As
visitas do médico ao leito do doente regem-se por
regras rituais rígidas. Na maioria das vezes, celebra-se
uma lição de hierarquia. Hierarquia, traduzido
literalmente do grego, que dizer governo do que é
sagrado. Trata-se, portanto, somente de uma conseqüência
quando o chefe, na ponta da hierarquia, governa e deixa governar
como se fosse um sacerdote do Sol. Ele dá a impressão
de saber tudo e não precisa fundamentar nada. Podem
aflorar na mente dos pacientes lembranças de um pai
severo, do chefe de família. Quando não se instalam
por si mesmos, o respeito e a consideração são
impostos com ênfase. Nestes tempos democráticos,
as tentativas de abolir hierarquias encontram resistências
profundamente enraiza- das, especialmente na medicina.
À
medicina, naturalmente, ocorrem diversas razões
para todas essas medidas, embora a palavra ritual jamais seja
utilizada. Um olhar é suficiente para que todas elas
se revelem como racionalizações. Diz-se que
os médicos precisam aprender latim suficiente para
fazer-se entender também internacionalmente. Em 20
anos de estudo e de prática eu jamais encontrei um
médico que tivesse conversado em latim com um colega
ou que pelo menos estivesse em condições de
fazê-lo. Caso alguém tentasse, certamente seria
considerado louco pelos colegas. O latim é suficiente
apenas para poder manter o clube fechado. Isto é, as
palavras decisivas são mantidas fora do alcance dos
pacientes, aos quais, como às crianças, não
se pode dizer toda a verdade.
Algo
semelhante acontece com o branco estéril
usado pelo pessoal clínico, ao qual não pode
haver nenhuma exceção. Razões higiênicas
não falam mais em favor do branco que, digamos, do
amarelo. Por que, então, o branco universal? Será
que isso, talvez, tenha a ver com o fato de o papa usar branco,
tal como de resto a maioria dos gurus? Será que os
semideuses também precisam de roupas para seus rituais
secretos e simplesmente não querem admiti-lo? Será
que a vivência da medicina é impensável
sem o branco porque ele contém em si todas as outras
cores e é, portanto, a cor da integridade e da perfeição?
Muitas coisas, assim como talvez a magia que cerca
a higiene, falam em favor dessas razões mais profundas.
Originalmente, impondo o branco imaculado contra violenta
oposição da arte médica, a higiene criou
para si uma pátria natal na ritualística substitutiva.
Hoje em dia é defendida da maneira igualmente violenta
e, às vezes, irracional, com que foi originalmente
atacada. Tais cargas altamente emocionais são em geral
um sinal de que algo mais se oculta por trás de um
tema. Nesse caso pode-se entrever, brilhando nas profundezas,
prescrições rituais de limpeza e cerimônias
de purificação. Pode-se observar a higienicamente
significativa purificação a que se submetem
os cirurgiões quando se preparam para uma operação.
Eles lavam as mãos por alguns minutos sob água
corrente quente, enquanto as friccionam agressivamente com
sabão líquido e escovas. A duração
dessa lavagem está prescrita com exatidão, sendo
penosamente seguida com o auxílio de cronômetros.
Após esse procedimento, as mãos continuam sujas,
já que finalmente precisam ser outra vez lavadas longamente
com álcool de alta concentração. Em seguida,
em situação ainda extremamente precária
do ponto de vista higiênico, elas devem ser enfiadas
em luvas de borracha esterilizadas. Não há ritual
mais dispendioso para a purificação das mãos
nem mesmo em cultos conscientemente mágicos.
próxima>>
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