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Ikebana
O Caminho das Flores

Criada no Japão por monges zen-budistas, a arte do ikebana segue regras rígidas na elaboração do arranjo floral, trazendo ao praticante benefícios como harmonia, paz e equilíbrio interior.

Por Milton Correia Júnior

Clique nas fotos para vê-las ampliadas
Mine Uchida, uma das maiores autoridades na prática japonesa, aparece nas fotografias mostrando algumas das várias etapas do arranjo floral: lições de paciência, disciplina e harmonia.
 

Quando Satiko Suzuki era criança, adorava ver o avô japonês fazer lindos arranjos com as poucas flores e plantas cultivadas no jardim de sua casa, no interior de São Paulo. Enquanto o pai labutava na roça, o velhinho se encarregava de cuidar da casa e torná-la o mais bonita e aconchegante possível.

Ao mesmo tempo em que preparava o material, ele lhe dizia: “Satiko, a gente não pode pôr tudo no vaso, de qualquer jeito. Tem de haver equilíbrio e harmonia.” Ele estava lhe ensinando os primeiros rudimentos do ikebana, a arte floral japonesa criada pelos monges zen-budistas ao redor do século 6 da nossa era. Literalmente, ikebana significa “dar vida às flores”. Fazer com que as flores continuem vivendo dentro de casa, de uma maneira ainda mais bela e nobre que em seu ambiente natural. Isso significa um profundo respeito pela natureza e, principalmente, pela vida, a própria essência do budismo. O corte das flores terá sido por uma boa causa e elas poderão ser admiradas e reverenciadas pela sua beleza.

Ikebana é o nome popular. Ocultamente, a arte é conhecida pelos iniciados como ka dô, o “caminho da flor”. A flor como uma estrada para se atingir a iluminação. Porque, quando se prepara os arranjos, é preciso silêncio e concentração. A mente se esvazia e se segue apenas a intuição. Ocorre a abstração total, o objetivo da meditação. Ka Dô é um nome poético para se designar algo delicado e cheio de sutilezas e que pode ser definido como “a arte de se fazer poesia com flores”. Ou verdadeiras pinturas.

Hoje Satiko Suzuki é mestra de Ikebana e presidente da Associação Kado Iemoto Ikenobo Nambei-Shibu, fundada em São Paulo com o objetivo de perpetuar essa tradição e difundir os ensinamentos entre os interessados. Ela e outras mestras seguem a mais antiga escola de Ikebana no Japão, a ikenobo, cuja origem se confunde com o surgimento dessa arte e filosofia de vida.

Na verdade, a idéia do ikebana veio da China, onde um nobre japonês serviu como cônsul durante dez anos, a pedido da imperatriz do Japão. Lá, ele observava que os monges budistas tinham o costume de enfeitar os templos com plantas e flores, como uma oferenda. De volta ao seu país, ele decidiu abandonar os privilégios palacianos e a vida mundana e se tornar um monge, morando à beira de um lago. Começou, então, a fazer os próprios arranjos, surgindo uma arte que passaria a ter conceitos próprios e regras restritas. Daí a origem do nome dessa primeira escola, pois ikenobo significa “o velho do lago”, ou melhor, o “bonzo (monge) do lago”.

No seu início – e por muitos séculos – o ikebana era um privilégio dos homens. E não poderia ser de outra forma: era uma arte dos monges, estando restrita somente aos mosteiros. Além disso, exigia grande esforço físico, pois os religiosos faziam imponentes e magníficos arranjos nos quais eram usados até mesmo troncos de árvores.

Depois de 600 anos, e já com normas definidas, o ikebana deixou os templos e ganhou a corte, fascinando nobres e samurais, os legendários guerreiros que, entre uma batalha e outra, esvaziavam a mente e relaxavam fazendo delicados arranjos com flores. As mulheres só passaram a praticar a arte no século 19.

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Serviço

O que há para se ler:
L. Gusty Herrigel, O Zen na Arte da Cerimônia das Flores, Ed. Pensamento, São Paulo, 1979.

A Associação de Arte Floral Kado Iemoto Ikenobo Nambei-Shibu fica na Avenida Liberdade, 486, 12º andar, sala 1.210, CEP 01502-001, São Paulo, SP; telefone: (11) 270-4876.

       


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