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Edição 348

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Depoimentos
A visão das religiões - continuação

Budismo Tibetano:
Roque Severino, preside o templo Jardim do Dharma (Cotia-SP) – Fundamentalmente, se a pessoa não autorizou a doação, se não é algo que ela decidiu em plena consciência, então ninguém poderia mexer no seu corpo. Esse é o primeiro passo. O segundo ponto é, se ela decidiu, então a retirada do órgão não pode ser feita imediatamente após a sua morte, como a medicina faz.

Por quê?
Porque, de acordo com a tradição budista, a consciência ainda permanece na pessoa que acabou de morrer; ela pensa que está viva, ou seja, não está oficialmente morta. Nós temos uma ciência um pouco materialista demais, que faz com que a gente pense: “O cérebro parou de funcionar, então a pessoa está oficialmente morta.” Para o budismo, o fato de o cérebro ter parado não indica ainda que ela morreu. Os cientistas pensam que nós somos simplesmente uma máquina, e para o budismo não é bem assim. Somos seres conscientes, e essa consciência permanece além da morte.

Quando a pessoa falece, sua consciência não abandona o corpo imediatamente. E, após um dia e meio, ela retorna ao lugar onde estava trabalhando e à sua casa. Como seus parentes estão tristes, chorando, ela então descobre que morreu. Mas, se por ventura você toca o corpo da pessoa antes desse período, vai estar obrigando-a a ter sentimentos e, na maioria dos casos, muito violentos. Ela se sente molestada e, ao mesmo tempo, não tem como lhe expressar isso. O espírito só se afasta do corpo – e isso depende da vida que a pessoa levou – após ele saber que morreu.

Se vocês não aprovam a retirada dos órgãos antes de 36 horas após a morte, então, a maioria dos transplantes não poderia ser feita, pois muitos órgãos seriam inutilizados...

Sim, a não ser que a pessoa que morreu tenha tido uma prática de generosidade tão grande, foi tão boa que tenha dito: “Não, eu quero que se faça isso.” Mas tem de ser uma decisão muito consciente.

E em relação à pessoa que recebe o órgão?
Ela tem de ser muito agradecida à pessoa que morreu, criando-se aí um laço cármico muito forte. Possivelmente, o defunto vai renascer perto da família dessa pessoa a quem ele doou o órgão.


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