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Transplantes
A Via-Crúcis Pós-Doação - continuação

Por Marília Rodela Oliveira

O nefrologista Agenor Spallini Ferraz, coordenador do Sistema Estadual de Transplantes de São Paulo, desmistifica, entretanto, a imagem de que o brasileiro não gosta de doar órgãos: “De um modo geral, desde que a Central de Transplantes foi instalada aqui no Estado, o número de doadores tem aumentado, e muito. Temos doadores de sobra.” Para atestar o que diz, dr. Agenor recorre aos números do seu computador. Eles não mentem: apenas 30% das famílias se recusam a doar quando abordadas pelos médicos e enfermeiras que assumiram a delicada tarefa de pedir a permissão dos parentes, exigida por lei (a polêmica lei nº 9.434, de fevereiro de 1997, sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, que obrigava as pessoas contrárias à doação a deixar o desejo gravado na Carteira de Identidade ou na de Habilitação Nacional, não vingou). Por isso, o coordenador da Central de São Paulo ressalta: “Se você quer ser doador, deixe sua família convencida disso, pois é ela que vai decidir legalmente sobre o assunto.”

Mesmo com todas as dificuldades, tivemos progressos no Brasil. Em 2000, 6.299 transplantes foram feitos, e, até junho deste ano, a Secretaria de Assistência à Saúde, vinculada ao ministério de José Serra, já tinha registrado 3.242 casos. Ao que tudo indica, o medo da população de ver um familiar ter pedaços de seu corpo roubados por máfias de órgãos diminuiu.

Apenas no primeiro semestre de 2001, o SUS contribuiu com R$ 89.197.035,00 para pagar despesas com cirurgias, medicamentos, transporte, etc. Contando que o Ministério da Saúde tem questões muito mais graves do que aumentar o número de leitos de pacientes transplantados, o que mais dificulta os transplantes são as próprias infra-estruturas hospitalares. Dos 139 doadores saudáveis do Estado de São Paulo entre 1º de janeiro e 16 de agosto de 2001, apenas 29 corações foram transplantados. O motivo? Não há equipes suficientes para suprir a demanda da fila de espera, nem tampouco alas especiais que possam receber números tão elevados de transplantados, fortes candidatos a pegar infecções.

Não podemos esquecer, contudo, que as doações de órgãos, assim como as de sangue, têm altos e baixos. Por não haver campanhas regulares sobre o tema, de tempos em tempos os doadores escasseiam. Somente agora a população começa a tomar consciência de que, a partir de um único corpo, pelo menos 25 pessoas têm possibilidade de um novo alento de vida. Na prática, esse balanço otimista ainda parece uma realidade distante, embora sejamos o segundo país em números totais de transplantes, só perdendo para os Estados Unidos.


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