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Transplantes
A Via-Crúcis Pós-Doação

Depois de a família do doador aprovar a retirada dos órgãos, várias questões práticas podem complicar o processo de transplante. Mesmo assim, o Brasil é o segundo país do mundo em número de transplantados.

Por Marília Rodela Oliveira

Sipa-Press

A decisão da família do titã Marcelo Fromer de doar seus órgãos tocou a opinião pública e colocou na pauta do dia questões pragmáticas sobre a doação de órgãos. Como Fromer afirmou a amigos, mais de uma vez, seu desejo de ser doador, a família acatou o pedido e a mídia fez uma ampla cobertura do fato, comprovando que a opção devolveu a esperança de uma vida melhor a quatro brasileiros. O que não ficou claro foram as dificuldades que surgem depois que a família do morto decide pela doação.

O primeiro obstáculo está diretamente ligado aos hospitais, que nem sempre são cadastrados ao Sistema Único de Saúde (SUS). Apesar de ser obrigatório por lei, algumas equipes médicas preferem não noticiar a morte encefálica à Central de Transplantes Estadual, pois sabem que manter o corpo significa gastos: o coração deve ser mantido por medicamentos, o pulmão funciona com a ajuda de aparelhos e o corpo continua sendo alimentado por via endovenosa. Se a instituição estiver inscrita no SUS, pode receber reembolso nos valores afixados pelo Ministério da Saúde. Caso contrário, nada feito. Por isso, às vezes os funcionários dos hospitais, principalmente os particulares, procuram desestimular a doação.

Se a família insistir, o corpo vai acabar removido em uma ambulância CTI para outro hospital, cadastrado. Lá começa uma investigação detalhada da saúde da pessoa: exames de sangue, observação clínica dos órgãos, etc. Entre a bateria de testes e o transplante em si, o corpo deve ser mantido por, no máximo, 48 horas. O perfil do doador é, então, inserido nos computadores da central, que cruzará os dados e analisará os pacientes da fila de espera mais próximos do tipo sangüíneo, idade, peso e características apresentadas. As prioridades, casos de vida ou morte, também são levadas em conta. Tendo sido dado sinal positivo da Central de Transplantes, as equipes responsáveis pelos pacientes selecionados são chamadas a retirar os órgãos, que, embalados a 0ºC, são levados aos locais em que os transplantes vão ocorrer.

Até aqui algumas perdas já se efetivaram. A primeira acontece quando a Secretaria Estadual de Saúde não fica ciente das mortes encefálicas. Se receber a notificação, um médico ou enfermeiro-chefe de uma das equipes de busca vai in loco verificar o diagnóstico e comprovar se a prova gráfica da morte encefálica foi feita. Por questão de segurança, a doação só acontece após a morte cerebral ter sido checada e, transcorrido um período de seis horas, rechecada. Só a partir daí atinge-se o estágio dos testes. Os órgãos, porém, têm um prazo de validade. Quanto mais sensíveis, mais rapidamente sua qualidade fica comprometida – num corpo mantido por aparelhos, o coração tem vida útil de quatro horas; o fígado, de oito; o rim, de 48. Vinte e dois por cento dos órgãos são renegados porque o corpo é mal mantido; é preciso que uma equipe seja acionada para cuidar dele e, no Brasil, isso é um luxo ao qual nem sempre nos podemos dar. Dos que passam ilesos por este período, alguns são desqualificados nas baterias de exames bioquímicos, 2% são eliminados por serem portadores de alguma doença grave, como HIV e hepatite. Outros 20% são perdidos por causas diversas: falta de equipamentos, aparelhos quebrados e outros detalhes bizarros.

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