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Em
todas as grandes culturas, o Sol ocupa, nas
várias estórias e tradições, um lugar central.
Ele é fonte de vida para todos os seres. E
os antigos julgavam que, para que ele continuasse
a ser fonte de vida, precisava ser alimentado
com vidas. Por isso, eles ofereciam sacrifícios
humanos ao Sol. Essas mortes eram rituais,
como forma de agradecimento e de súplica.
Os que eram sacrificados sentiam-se honrados
em morrer, pois se transformavam em raio de
luz solar e também julgavam que, com seu sacrifício,
garantiam a perpetuidade do Sol e a vida de
todos os demais seres vivos.
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Em
quase todos os mitos, o Sol atual é
um entre tantos outros sóis anteriores.
Isso significa que a história da natureza
e do ser humano não é linear, mas cheia
de passagens. Ela conhece muitas retomadas
e muitas fases. Os índios jurunas, da Ilha
do Bananal, contam, a propósito, a seguinte
estória do Sol:
Para
garantir sua provisão de vidas, necessárias
para viver, o Sol usou o seguinte estratagema:
cavou, perto de sua casa, um buraco numa
pedra e colocou lá dentro água.
Esse buraco fora construído de tal
maneira que a pessoa que introduzisse a
cabeça, ou a mão, lá
dentro não conseguiria mais retirá-las.
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Assim,
toda vez que alguém vinha tomar água,
ficava preso ali e era, então, sacrificado
pelo Sol. Certo dia, um índio juruna, não
sabendo da armadilha, passou por lá perto
e, vendo aquela água, quis tomá-la. Acabou
ficando preso pela mão. Aí se deu conta
da armadilha. Inteligente, pensou:
– Quando o Sol vier, vou me fingir de
morto, de tal forma que ele não vai
logo me devorar. Depois, darei um jeito
de escapar e assim continuar a viver.
De
fato, ao sentir pelo calor que o Sol se
aproximava, fingiu-se de morto. Paralisou
a respiração, o movimento dos olhos e até
as batidas do coração. O Sol veio, examinou
o
índio, entreabriu-lhe os olhos, apalpou
o coração e constatou que não mais respirava.
Parecia haver morrido mesmo. Por segurança,
sacudiu um ninho de formigas em cima dele.
O índio juruna agüentou todas as picadas
e não deu sinal de vida. Então o Sol julgou-o
realmente morto e o jogou dentro de um cesto,
levando-o para casa. Dependurou-o num galho
de árvore que crescia perto da porta.
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No
dia seguinte, disse ao filho:
Filho, traga-me para dentro de
casa o cesto com o índio juruna
morto que prendi ontem!
O
filho do Sol foi, mas encontrou
o cesto vazio. O juruna aproveitou
a noite, quando o Sol dormia, para
fugir. Foi então que o Sol,
furioso, mandou sua borduna mágica,
com a qual sacrificava os seres vivos,
correr atrás do juruna. Era
só dar ordens e ela, magicamente,
já começava a bater
e a dar golpes em todas as direções.
A borduna saiu velozmente, batendo
em todo mundo, para ver se acertava
no juruna. Bateu no veado, bateu na
anta, bateu no tamanduá e até
no gavião-real ela bateu.
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Ao
regressar, o Sol disse à borduna:
Tudo bem que você tenha batido em tantos
bichos. Mas nenhum deles era o juruna que eu queria.
Tem que continuar batendo até caçar
o índio fujão.
A
borduna mágica, então, saiu de novo
a bater até que chegou a um tronco
com um grande oco dentro. Descobriu que lá
dentro se escondia o índio fujão.
Bateu e bateu no tronco, mas nada de fazer o índio
sair. Cortou, então, uma vara longa e afiada
de bambu e a enfiou buraco adentro. O juruna ficou
todo ferido, mas permaneceu lá dentro da
toca. Sobrevindo a noite, a borduna mágica
suspendeu sua perseguição. Ao chegar
de volta, informou tudo ao Sol, que lhe disse:
Borduna, foi bom o que você fez.
Mas tem que acabar a obra. Coloque uma pedra
pesada na boca do buraco e depois volte e acabe
de matar o juruna.
De
noite, no entanto, o juruna começou a gritar:
Meus irmãos e minhas irmãs da floresta,
socorro! Socorro! Venham me tirar desse buraco,
senão o Sol vai me matar.
De
repente, de todos os lados, apareceram bichos:
anta, porco-caititu, veado, macaco, paca,
cutia, tamanduá. Até a onça-pintada veio. Como
o índio estava muito ferido, eles deveriam alargar
a abertura para que saísse, sem demasiado sofrimento.
Os bichos começaram a alargar com os dentes o
buraco. Quando quebravam os dentes, vinham outros
para substituí-los. A anta trabalhou bem. O buraco
aumentou. O juruna pôs a cabeça de fora, mas o
corpo não passava. Então entrou em ação a cutia,
que abriu ainda mais o buraco. Por fim, veio a
paca, que completou o serviço. O juruna pôde sair.
Agradeceu a colaboração solidária dos irmãos e
das irmãs e se embrenhou na mata.
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