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Sabedoria Indígena

E o Sol voltou a Brilhar para Todos

Para ressaltar a grande contribuição que o indígena brasileiro deu à história e à cultura do nosso povo, Leonardo Boff reuniu alguns de seus mitos e de suas lendas no livro O Casamento Entre o Céu e a Terra (Editora Salamandra), do qual selecionamos o relato a seguir.

Por Leonardo Boff
O texto e as imagens aqui apresentados foram extraídos da 1ª parte do livro O Casamento Entre o Céu e a Terra, de Leonardo Boff, lançado pela Salamandra.

 
 
Em todas as grandes culturas, o Sol ocupa, nas várias estórias e tradições, um lugar central. Ele é fonte de vida para todos os seres. E os antigos julgavam que, para que ele continuasse a ser fonte de vida, precisava ser alimentado com vidas. Por isso, eles ofereciam sacrifícios humanos ao Sol. Essas mortes eram rituais, como forma de agradecimento e de súplica. Os que eram sacrificados sentiam-se honrados em morrer, pois se transformavam em raio de luz solar e também julgavam que, com seu sacrifício, garantiam a perpetuidade do Sol e a vida de todos os demais seres vivos.

Em quase todos os mitos, o Sol atual é um entre tantos outros sóis anteriores. Isso significa que a história da natureza e do ser humano não é linear, mas cheia de passagens. Ela conhece muitas retomadas e muitas fases. Os índios jurunas, da Ilha do Bananal, contam, a propósito, a seguinte estória do Sol:

Para garantir sua provisão de vidas, necessárias para viver, o Sol usou o seguinte estratagema: cavou, perto de sua casa, um buraco numa pedra e colocou lá dentro água. Esse buraco fora construído de tal maneira que a pessoa que introduzisse a cabeça, ou a mão, lá dentro não conseguiria mais retirá-las.

 
 

Assim, toda vez que alguém vinha tomar água, ficava preso ali e era, então, sacrificado pelo Sol. Certo dia, um índio juruna, não sabendo da armadilha, passou por lá perto e, vendo aquela água, quis tomá-la. Acabou ficando preso pela mão. Aí se deu conta da armadilha. Inteligente, pensou:

– Quando o Sol vier, vou me fingir de morto, de tal forma que ele não vai logo me devorar. Depois, darei um jeito de escapar e assim continuar a viver.

De fato, ao sentir pelo calor que o Sol se aproximava, fingiu-se de morto. Paralisou a respiração, o movimento dos olhos e até as batidas do coração. O Sol veio, examinou o índio, entreabriu-lhe os olhos, apalpou o coração e constatou que não mais respirava. Parecia haver morrido mesmo. Por segurança, sacudiu um ninho de formigas em cima dele. O índio juruna agüentou todas as picadas e não deu sinal de vida. Então o Sol julgou-o realmente morto e o jogou dentro de um cesto, levando-o para casa. Dependurou-o num galho de árvore que crescia perto da porta.

No dia seguinte, disse ao filho:

– Filho, traga-me para dentro de casa o cesto com o índio juruna morto que prendi ontem!

O filho do Sol foi, mas encontrou o cesto vazio. O juruna aproveitou a noite, quando o Sol dormia, para fugir. Foi então que o Sol, furioso, mandou sua borduna mágica, com a qual sacrificava os seres vivos, correr atrás do juruna. Era só dar ordens e ela, magicamente, já começava a bater e a dar golpes em todas as direções. A borduna saiu velozmente, batendo em todo mundo, para ver se acertava no juruna. Bateu no veado, bateu na anta, bateu no tamanduá e até no gavião-real ela bateu.

 
 

Ao regressar, o Sol disse à borduna:

– Tudo bem que você tenha batido em tantos bichos. Mas nenhum deles era o juruna que eu queria. Tem que continuar batendo até caçar o índio fujão.

A borduna mágica, então, saiu de novo a bater até que chegou a um tronco com um grande oco dentro. Descobriu que lá dentro se escondia o índio fujão. Bateu e bateu no tronco, mas nada de fazer o índio sair. Cortou, então, uma vara longa e afiada de bambu e a enfiou buraco adentro. O juruna ficou todo ferido, mas permaneceu lá dentro da toca. Sobrevindo a noite, a borduna mágica suspendeu sua perseguição. Ao chegar de volta, informou tudo ao Sol, que lhe disse:

– Borduna, foi bom o que você fez. Mas tem que acabar a obra. Coloque uma pedra pesada na boca do buraco e depois volte e acabe de matar o juruna.

De noite, no entanto, o juruna começou a gritar:

– Meus irmãos e minhas irmãs da floresta, socorro! Socorro! Venham me tirar desse buraco, senão o Sol vai me matar.

De repente, de todos os lados, apareceram bichos: anta, porco-caititu, veado, macaco, paca, cutia, tamanduá. Até a onça-pintada veio. Como o índio estava muito ferido, eles deveriam alargar a abertura para que saísse, sem demasiado sofrimento. Os bichos começaram a alargar com os dentes o buraco. Quando quebravam os dentes, vinham outros para substituí-los. A anta trabalhou bem. O buraco aumentou. O juruna pôs a cabeça de fora, mas o corpo não passava. Então entrou em ação a cutia, que abriu ainda mais o buraco. Por fim, veio a paca, que completou o serviço. O juruna pôde sair. Agradeceu a colaboração solidária dos irmãos e das irmãs e se embrenhou na mata.


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