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Casamento de Almas

Quando o Amor Vira Guerra Santa

Quando entendemos nossos conflitos como “combates sagrados” para a libertação da alma, conseguimos ver o casamento e todas as nossas relações afetivas como caminhos que possibilitam o crescimento espiritual.

Por Luis Pellegrini
O texto a seguir foi originalmente publicado em Planeta Nova Era nº 5.

Dahner/Sipa-Press

Certa tarde, conta uma antiga história sufi, Nasrudin tomava chá e conversava com um amigo sobre a vida e o amor. “Por que você nunca se casou, Nasrudin?”, perguntou o amigo. “Bem”, respondeu Nasrudin, “para dizer a verdade, passei toda a minha juventude a procurar a mulher perfeita. No Cairo, conheci uma moça linda e inteligente, com olhos que pareciam olivas pretas, mas ela não era muito cortês. Depois, em Bagdá, conheci uma mulher de alma generosa e amiga, mas não tínhamos muitos interesses em comum. Muitas mulheres passaram pela minha vida, mas em cada uma delas faltava alguma coisa, ou alguma coisa estava demais. Então, um dia, eu a conheci. Era linda, inteligente, generosa e bem-educada. Tínhamos tudo em comum. Na verdade, ela era perfeita”. “E então”, replicou o amigo de Nasrudin, “o que aconteceu? Por que você não se casou com ela?” Pensativo, Nasrudin sorveu mais um gole de chá e concluiu: “Infelizmente, parece que ela estava à procura do homem perfeito.”

Como Nasrudin, quase todos nós queremos encontrar a perfeição fora de nós mesmos. Criamos em nossa cabeça a imagem ideal da mulher ou do homem que buscamos, projetamos essa imagem em cima da namorada ou namorado, da esposa ou do marido, e queremos que ela ou ele corresponda a essa imagem. Ao alimentar essa expectativa utópica, perdemos a capacidade de entender e gostar do ser humano real ao qual nos ligamos. E, muitas vezes, como ela ou ele não podem corresponder a essa expectativa – pelo simples fato de que ela é produto da nossa idealização e dos nossos desejos fantasiosos –, acabamos, frustrados, por rejeitar a pessoa com quem nos relacionamos, quase sempre sem ter sequer “conhecido” essa pessoa.

Jean Blondin/Sipa-Press
União amorosa verdadeira: maior sonho de todo ser humano.

Com uma amiga minha aconteceu algo desse tipo. Passou cinco ou seis anos casada, e deixou o marido quando percebeu que ele não se encaixava no modelo de príncipe encantado que ela cultivara desde a infância. Ele se casou novamente com outra mulher. Tempos depois, ao ouvir a nova esposa do seu ex-marido falar da vida feliz que levava com ele, e de todas as boas qualidades que faziam dele um esposo excepcional, minha amiga – ainda solitária – ficou perplexa: “Parecia que ela falava de uma pessoa que eu nunca conhecera.”

Certo. Ela nunca o conhecera de fato, porque cada vez que olhara para ele, era capaz de enxergá-lo, mas não de vê-lo. Ao esperar que ele correspondesse ao modelo idealizado de homem que ela cultivara na sua cabeça – e que só existia “dentro” dela –, perdera contato com a realidade do homem com quem se casara. Uma realidade que, possivelmente, podia ser até muito melhor do que a do modelo sonhado. Porém diferente.

Em todo casamento, de vez em quando aflora a pergunta: “Será que todo esse esforço realmente vale a pena?”

A dificuldade ou incapacidade que muitos têm de ver e aceitar a realidade do parceiro é uma das maiores causas de conflitos que podem levar a separações. Tais deficiências quase sempre são de mão dupla: quem não tem visão do outro em geral também não consegue ver com nitidez a si próprio. Vive um personagem fictício em relação à sua própria pessoa, e um outro personagem fictício projetado sobre a companheira ou companheiro. Essa relação entre dois seres imaginários transforma-se rapidamente num teatro do absurdo que se desenrola no interior da própria pessoa, levando-a a um permanente estado de frustração e sofrimento. Porque teatro tem hora. Qualquer teatro pode refletir aspectos da vida, mas nunca é a própria vida.

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