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Edição 347

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Gerenciamento Consciente

Mão na massa

Prensa Três
Manuseio na pecuária: tarefa progressivamente substituída por máquinas.

Ora, se manter é basicamente evitar a decadência, então a manutenção muda o gradiente de energia. A ciência fala de negentropia, uma energia livre, que pode “erguer-se” acima da força aleatória da desintegração entrópica. Desse ponto de vista, a manutenção, enquanto equivalente da consciência, se torna um fator tão criativo quanto a produção, não mais apenas seu lado sombrio, parte do “custo” da produção. Além disso, quando olhamos de novo para a origem das palavras, lembramos que “economia” deriva da palavra grega usada para designar os serviços domésticos – oikos (casa) e nomos (ordem costumeira). Seguindo a implicação da palavra, a manutenção se torna o interesse básico do pensamento econômico, enquanto a baixa manutenção significa simplesmente a negligência que leva à decadência, à desintegração e à morte.

Indo mais longe ainda: além das questões econômicas, ambientais, cosmológicas e físicas, nosso tópico pode ser considerado do ponto de vista estético. E a estética da manutenção aparece quando rastreamos também esta palavra à sua raiz latina – manutentione é, literalmente, a ação de segurar com a mão.

Prensa Três
Uso das mãos para sentir a textura dos objetos: prazer perdido com o avanço da instrumentação.

Existem dois “tipos” de mãos, assim como existem dois hemisférios no cérebro. Uma mão segura as rédeas e gira o volante. Esse é o pulso do controle e o dedo que aponta a direção. Tais características pertencem à mão que maneja, gerencia. A outra mão tem de se manter em contato, afagar e apalpar o trabalho. Afagar e apalpar são ações que se referem à palma da mão. A administração participante, que põe a “mão na massa”, exige tanto o pulso quanto a palma, e a atenção para a manutenção será parte integrante de uma administração bimanual.

Na era pré-industrial e nas sociedades não automatizadas, as mãos detinham um enorme valor nos assuntos humanos, não apenas como implementos para “fazer rodar” equipamentos que poupavam mão-de-obra (um eufemismo para pressa maquinal), mas principalmente para o contato com as coisas elementares. Manejar um problema significa, literalmente, tocar em água, madeira, brasas, cinzas, terra, plantas, animais, alimentos, lixo e sujeira. Mãos com as palmas levantadas para os deuses, ou entrelaçadas na oração, enfatizam o lugar delas na ordem das coisas. A vida de uma pessoa estava nas suas mãos, nas linhas em que seu caráter podia ser lido pelo quiromante. (A própria palavra “caráter” deriva da palavra grega para linhas gravadas.) Nas mãos havia uma mágica procriativa, de modo que o simples toque da pessoa certa, e da maneira certa, abençoava, curava, selava uma aliança até a morte ou levava alguém de uma situação inferior para uma mais alta. O poder era transmitido pelas mãos.

O prazer sensual retornava para aquele cujas mãos estavam nas coisas – as dobras do tecido, o equilíbrio de uma pedra, a textura do solo, a maciez da pele de um corpo. Um médico conhecia o estado das coisas pelo que elas revelavam às suas mãos. Com o avanço da instrumentação, deixamos de dar nossas mãos às coisas com as quais vivemos e trabalhamos o dia todo, exceto as extremidades, digitalmente, girando chaves, empurrando alavancas, catando pedaços de papel e sacos plásticos. A produção e o serviço mecanizado substituíram o manuseio na pecuária, na agricultura, no convés do navio; o manuseio de todos os tipos. Engenharia genética, eletrônica do silício, biotecnologia e criogenia, até mesmo diagnósticos e mercados de commodities ocorrem através de telas luminosas ou robôs com mãos protéticas. Apenas nossos hobbies – cuidar do jardim, cozinhar, construir miniaturas, cuidar de animais de estimação, remendar, tecer, bordar e namorar um pouquinho por semana – permitem às nossas mãos recuperar seu pleno emprego. Mas esses são momentos de lazer; não fazem parte do mundo dos negócios. Haverá um único item do novo equipamento de comunicações que você gostaria de conservar ao longo dos anos porque gosta dele, mesmo sabendo que seu valor de troca irá caindo à medida que equipamentos de última geração forem entrando no mercado?

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