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Gerenciamento Consciente
Conservar
para ter
Ideal perseguido pelo homem moderno, a baixa manutenção dos
bens materiais tem gerado sérios problemas ecológicos, econômicos
e sociais para a humanidade.
Por
James Hillman
O texto aqui apresentado é um excerto da parte
1 do livro Tipos de Poder, de James Hillman, lançado
recentemente pela Cultura Editores Associados e Axis Mundi.
Tradução: Sônia Régis.
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Sipa-Press
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Um
uso específico do serviço chama nossa atenção
constantemente: a manutenção. A própria
idéia de manutenção precisa de manutenção,
visto ser facilmente negligenciada quando lidamos com as grandes
idéias de mudança da consciência para
um novo século de gerenciamento organizacional. Contudo,
na realidade orçamentária dos custos operacionais
seja de um imóvel de aluguel, hospital, aeroporto
ou estádio esportivo, seja da construção
de um prédio comercial , o fator manutenção
tem peso considerável. Até mesmo decisivo. A
escolha dos pisos, o modelo das janelas (fixas, de correr
ou basculantes), a textura dos estofamentos, a localização
das luminá-rias, elevadores de serviço, etc.
dependem de custos de manutenção estimados.
A conservação futura determina o projeto do
presente. Tão predominante é esse fator na construção,
tão verdadeira é a máxima de que a forma
segue a função, que parecemos estar desenvolvendo
uma nova escola de arquitetura, a da Faxina, com edifícios
projetados pela equipe de limpeza ou para ela. Um ponto importante
nas batalhas entre a indústria e a EPA (Environmental
Protection Agency) gira em torno dos custos de manutenção,
eliminando a baixa manutenção do passado e impedindo
a baixa manutenção no futuro.
Mesmo assim, a baixa manutenção é
altamente desejável não só no comércio
e na indústria, mas também em todos os aspectos
da nossa vida. Como consumidores individuais, queremos um
gramado imune a ervas daninhas, árvores frutíferas
anãs, arbustos resistentes a pragas, palha artificial
para proteger as raízes, plantas infensas à
seca, tapumes de vinil, algodão que dispensa o ferro
de passar, calças com vinco permanente, louças
refratárias em fornos autolimpantes. A baixa manutenção
é um ideal da nossa vida cotidiana. Sistemas, planos,
construções e bens de consumo que garantam a
menor manutenção parecem oferecer a maior eficiência
isto é, menos tempo e trabalho gastos em tarefas
não produtivas. Nossa atitude geral diante da manutenção
é considerá-la um fardo, não um aperfeiçoamento
com valor agregado. Ela é meramente uma repetitiva
batalha perdida contra a deterioração, tudo
se desgastando e acabando. Daí sentimos que lavar as
janelas, varrer o chão e arrumar a cama consome um
bom tempo, que poderia ser gasto de forma produtiva ou com
atividades de lazer.
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Fernanda
Mayrink
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| Trabalhadores
da manutenção: pouca remuneração por serviços fundamentais
para o bem-estar geral. |
Essa
idéia da manutenção afeta a
hierarquia das categorias de emprego e as faixas salariais.
O pessoal da manutenção é o que ganha
menos. Isso também afeta as políticas gerais
de imigração, intensifica sentimentos de racismo
e até cria temores diante de uma casta de párias:
imagine presidiários recolhendo das ruas as latas que
jogamos fora. O homem da manutenção e a faxineira
do hotel geralmente pertencem àquela categoria não
especializada que é quase sempre formada por imigrantes,
deficientes físicos, analfabetos e pessoas de pele
escura. A manutenção é, portanto, uma
questão econômica, uma questão ecológica,
uma questão sociológica e um problema de justiça
para as pessoas e as coisas.
É
também, detalhe importante, uma questão pertencente
à conservação de energia e às
leis da termodinâmica, princípios básicos
de nossa interpretação física do universo.
Observemos a linguagem utilizada para esses empregos baixos.
Falamos de recolher, lavar, consertar, limpar, arrumar e manter
como se fossem atividades de conservação, no
sentido de evitar a decadência. Mas o que é mantido
se ergue, de modo claro, da desordem para a ordem. A manutenção
desempenha uma função contrária ao caminho
de mão única da entropia, que desce rumo à
dissociação sem significado, sem padrão,
aleatória como a imagem do quarto de hotel na
hora de fechar a conta. A idéia do aumento entrópico
na física tem o sentido de baixar o grau de energia
de um sistema e corresponde ao aumento da desordem. A meta
final é a estase, ausência total de movimento.
Freud relacionou a entropia com o instinto de morte.
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