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Transcendendo: Religiões

Edição 346 -Julho 2001
  Dalai Lama
Ensinando como lidar com a raiva

Situações frustrantes e desagradáveis, tão comuns em nosso cotidiano, despertam raiva e aborrecimentos. O dalai lama mostra aqui, em um debate com outras cinco personalidades, como transformar emoções negativas em positivas.

Por Daniel Goleman
O texto aqui apresentado é um excerto do capítulo 3 de Mundos em Harmonia – Diálogos Sobre a Prática da Compaixão, uma série de debates com o dalai lama, tendo Daniel Goleman como mediador. Lançado recentemente pela Editora Claridade, o livro foi traduzido por Rosangela Chorwat e Victor Hugo Vidal Antunes.

Pedro Agilson/Prensa Três
Ilustrações: Christiane S. Messias

Pergunta do público: Algumas vezes eu preciso trabalhar com pessoas que realmente me aborrecem. Como posso aceitá-las e aproveitar a oportunidade para crescimento pessoal?

Dalai lama: Você deve tratar cada caso de forma individual. Observe a pessoa que o aborrece, e, se perceber que pode lidar com ela, aproveite a oportunidade para enfrentar a sua própria raiva e cultivar a compaixão. Mas, se o aborrecimento é tão poderoso, pode ser melhor procurar pela saída! Aqui está o princípio: é melhor não evitar eventos ou pessoas que o aborreçam, que despertem a irritação, se sua raiva não for muito forte. Mas, se o encontro não for possível, trabalhe sobre você mesmo. No contexto budista, em relação a alterações mentais, especialmente hostilidade e raiva, é prática-padrão refletir repentinamente em suas desvantagens e na natureza destrutiva, e, fazendo assim, a aflição mental diminuirá gradativamente.

Eu entendo que na psicoterapia ocidental é dito que reprimir essas aflições mentais tem efeitos muito ruins sobre o corpo e a mente. Tenho ouvido algumas pessoas dizerem: “Você deve expressar a hostilidade quando ela aparecer.” Não há algumas práticas na psicoterapia ocidental que, além de não evitar a repressão, acabam refletindo na desvantagem da raiva? Para poder dissipá-la, devemos refletir sobre as desvantagens da raiva, e não apenas quando ela surge. Em geral, você acha que é melhor sentir raiva contínua por outra pessoa, ou é melhor não sentir? Se realmente acha que é melhor não sentir raiva, então não seria vantajoso encontrar métodos que previnam, em primeiro lugar, seu surgimento? Se você acha que é melhor reduzir a raiva, o que ajuda na sua redução: expressá-la quando aparece ou não a expressar?

Daniel Goleman: Sua Santidade, não há uma resposta. Existem mais de 200 métodos diferentes de psicoterapia, e cada um tem sua própria resposta à sua pergunta, abrangendo desde a expressão completa até a não-expressão.

Existe um corpo de evidências que vem da pesquisa, não da prática clínica, que mostra que as pessoas que expressam sua raiva abertamente simplesmente aprendem a expressá-la abertamente. Quer dizer, quanto mais você faz isso, mais facilmente isso vem. Isso é um fato, algo determinado. Outro corpo de pesquisa mostra que quanto mais prontamente você expressa a raiva, mais propenso será a todo tipo de doença. Esses são dois argumentos para não expressar a raiva. Porém, dentro da psicoterapia, existem muitos pontos de vista.

Jean Shinoda Bolen: Minha experiência é específica de acordo com as pessoas que tenho trabalhado. Existe um princípio inicial que é saber o que você sente. Com muita freqüência, em certos tipos de famílias, crianças aprendem a reprimir seus sentimentos e crescem entorpecidas, sem saber o que sentem. É importante descobrir os sentimentos e realmente ser capaz de explorá-los e expressá-los.

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