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Edição 346

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Transcendendo: Religiões

Edição 346 -Julho 2001
  Espiritualidade nos Novos Tempos
Diálogo ecumênico
Sipa-Press
Budismo: propagação que reflete uma nova fase da religiosidade.

O papa tem buscado estimular o diálogo ecumênico e inter-religioso. Em maio passado ele visitou a Grécia e pediu desculpas aos cristãos ortodoxos pelos erros cometidos pelo Vaticano durante os últimos mil anos. Em março de 2000, ele havia visitado o Oriente Médio e feito uma autocrítica pelos erros do Vaticano ao perseguir os judeus por séculos e ao apoiar Hitler e o anti-semitismo durante a Segunda Guerra Mundial. Tem buscado também o diálogo com os anglicanos. Esses são tímidos passos preparatórios. Mas há poderosos adversários da transformação dentro do Vaticano. Em setembro de 2000, o cardeal Joseph Ratzinger, da Congregação da Doutrina da Fé (versão atual da antiga Inquisição), publicou um documento em que o Vaticano afirma que as outras igrejas cristãs, como todas as outras religiões, não têm acesso legítimo ao mundo divino. De acordo com essa tese, haveria uma espécie de monopólio divino, e ele pertenceria à burocracia dos cardeais de Roma. A declaração, desatualizada, típica da Idade Média, mereceu uma reação muito negativa por parte das igrejas cristãs. Nos anos 80, Joseph Ratzinger foi o responsável pelos processos de perseguição ao teólogo brasileiro Leonardo Boff.

No final de maio passado, um consistório convocado por João Paulo II reuniu em Roma 155 cardeais de todo o mundo. Foi uma espécie de pré-conclave, onde se avaliaram as possibilidades de escolha do futuro papa e as prioridades católicas. Ficou claro que a força dos setores progressistas da Igreja não pode ser ignorada e que avanços no sentido da democratização serão provavelmente inevitáveis dentro de pouco tempo.

Grzegorz/Sipa-Press
Ratzinger: adversário das transformações.

A América Latina, a África e a Ásia são as novas trincheiras do catolicismo no mundo. Na Europa, o cristianismo passou a ser uma religião amplamente nominal. As igrejas ficam vazias. Em alguns lugares, a igreja cristã só serve para fazer o batismo e o enterro das pessoas. A situação é inteiramente diferente em outras partes do mundo.

Na Índia, o cristianismo se expande especialmente nas classes mais pobres, formadas pelas castas inferiores. Sua mensagem de que todos os homens são iguais perante Deus leva ventos democráticos e renovadores, que ajudam a derrubar os milenares preconceitos indianos de casta. Os párias e pobres percebem que também têm a possibilidade de conversar com Deus e possuem os mesmos direitos que os outros seres humanos. Esse fato mostra um dos contrastes da Índia: ao lado da sua grande tradição de sabedoria, o hinduísmo ortodoxo tem alimentado, também, antigos preconceitos religiosos e injustiças sociais que ainda mantêm o país na miséria.

Na África, novas igrejas cristãs se multiplicam com uma velocidade surpreendente e, mesmo funcionando de maneira precária, substituem aos poucos as velhas estruturas tribais, levando possibilidades culturais mais amplas àquele continente acossado pela miséria, pela violência e pelo atraso. A contradição entre a decadência do catolicismo no Primeiro Mundo e a sua expansão no mundo pobre já faz com que a burocracia teológica do Vaticano volte, lentamente, seus olhos para os países pobres e expanda o seu colégio de cardeais para incluir nele mais alguns representantes dos diversos continentes. Ao mesmo tempo, torna-se impossível ignorar as questões sociais, a luta pela ética na política e pela democratização de todas as estruturas sociais, inclusive das próprias igrejas.


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