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Transcendendo: Religiões

Edição 346 -Julho 2001
  Espiritualidade nos Novos Tempos
O Cristianismo Repensado

Por motivos variados e poderosos, como a mudança da visão que o ser humano tem de si mesmo, a religiosidade vem sofrendo importantes transformações. Nesse sentido, o cristianismo se prepara para uma nova fase da sua história.

Por Carlos Cardoso Aveline

Ilustrações: Christiane S. Messias

A única coisa certa na vida, em qualquer tempo, é a mudança. À medida que passa o tempo, a saúde do papa João Paulo II fica mais frágil e os debates sobre o futuro do cris-tianismo se espalham. Ninguém sabe o que virá. Nas últimas décadas, o conhecimento humano se expandiu radicalmente e a religiosidade experimentou transformações revolucionárias. As surpresas dos próximos 20 anos podem ser ainda maiores que as do passado recente. A religiosidade em geral e o cristianismo em particular vêm mudando por motivos diversos e irresistivelmente poderosos.

De um lado, a consciência dos cidadãos se liberta de todos os dogmas anteriores. A própria visão que o ser humano tem de si alterou-se radicalmente. Descobertas científicas recentes sobre o cérebro têm identificado, com clareza cada vez maior, as áreas cerebrais que fazem o contato místico entre o homem e a totalidade do universo. Está sendo mapeado o modo de funcionamento dos circuitos cerebrais que ativam os sentimentos e a percepção religiosos. Assim, até a ciência convencional sabe, hoje, que o ser humano está perfeitamente equipado para ter contato direto com o mundo divino. A dependência cega de instituições religiosas, com suas práticas autoritárias e esquemas ritualísticos, torna-se desnecessária para quem busca Deus.

Outra transformação significativa é a multiplicação das novas igrejas evangélicas. São instituições pequenas, ágeis, que atendem necessidades específicas do seu público e lhe oferecem uma religiosidade de curto prazo, voltada para os seus interesses imediatos. Com a mensagem básica “Jesus te Ama”, os grupos evangélicos se alastram pelo planeta aumentando a auto-estima e a vontade de vencer de pobres e desesperados em diferentes situações e classes sociais. Algumas dessas igrejas têm evoluído, e é interessante registrar que há algum tempo a Igreja Universal do Reino de Deus vem incorporando a ética na política e a justiça social entre suas bandeiras e preocupações.

João Primo
Ilustrações: Christiane S. Messias
Novos movimentos evangélicos: apoio moral e psicológico a pessoas de camadas sociais menos favorecidas.

Com um esquema referencial simples e fácil de captar por pessoas de baixa escolaridade, o fenômeno religioso das igrejas evangélicas ainda é olhado com desprezo por muitos. Mas essa atitude pode ser conseqüência de uma combinação de preconceito com preguiça mental. Os novos movimentos evangélicos são um fenômeno social profundo. Entre as suas conseqüên-cias positivas estão o combate eficaz de problemas como a criminalidade, o uso de drogas e o analfabetismo. As novas igrejas eliminam o desespero e o sofrimento psicológico das pessoas em camadas sociais que, de outra forma, ficariam abandonadas e sem perspectiva.

Por outro lado, o cristianismo de hoje investe nos meios de comunicação social. Redes de televisão e rádios são usadas em grande escala. Há cerca de 400 rádios religiosas no Brasil, metade das quais católicas. A Igreja católica tem rede própria de TV. A Igreja Universal do Reino de Deus tem conseguido fazer crescer a audiência da sua Rede Record. Outros grupos religiosos têm diversos esquemas de acesso à TV e, em alguns casos, formam redes de estações de rádio.

O caráter fortemente devocional, combinado à flexibilidade e à criatividade dos novos movimentos cristãos, é uma caraterística dos tempos atuais. Há uma decadência acentuada dos grandes esquemas institucionais na sociedade contemporânea. O fenômeno atinge não só as igrejas, mas todas as grandes estruturas de poder no Brasil e no resto do mundo. A força criativa e a vida interior se transferem das grandes estruturas de porte imperial e majestoso para as pequenas estruturas aparentemente despretensiosas, mas dotadas de poder de iniciativa e disposição de agir.

A liberdade e a multiplicidade de idéias e propostas passam a ser a regra. O budismo tibetano, o zen-budismo, a ioga, o taoísmo, a prática da meditação e o ecumenismo se espalham. Práticas medicinais preventivas e hábitos alimentares saudáveis fazem parte da nova religiosidade. O cristianismo, nesse contexto, reaprende a lição da modéstia, passa a conviver mais harmonicamente com outras formas de sentimento religioso e se prepara para uma nova fase da sua história. Nela, ele se apoiará no sentimento comunitário e na solidariedade incondicional, e não mais na prática do autoritarismo.


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Transcendendo

Os veículos para
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