| |
Maha
Kumbh Mella
O
Grande Festival Hindu
No
início deste ano, Daniel Braga esteve na Índia para participar
do Maha Kumbh Mella, a maior festa religiosa do planeta. Nas
próximas páginas, ele relata a sua experiência, ricamente
ilustrada por imagens captadas por sua câmera fotográfica.
Texto
e fotos Daniel Braga
Contatos com o autor podem ser feitos pelo
e-mail d2bi@hotmail.com
Os
bancos azuis, dormitórios da segunda classe do
trem indiano, apinhados de gente. O som café-com-pão-café-com-pão
mudou bruscamente; ouvíamos agora um bater de ferros.
A multidão do vagão jogou-se para as janelas
e para as portas; me vi sozinho. Um menino acrobata pulou
cabeças, driblou pernas, enganou torsos e alcançou
a beirada da porta, arremessando uma guirlanda de flores alaranjadas.
Briguei por uma fresta e vi a ponte de ferro fundido por onde
passávamos. Voávamos acima do sagradíssimo
Gangaji, o rio que brota dos cabelos do deus Shiva e que,
pela ignorância dos ingleses colonizadores, foi traduzido
para o mundo ocidental como Ganges. A velocidade diminuída
anunciou minha chegada a Allahabad, cidade-sede do Maha Kumbh
Mella de 2001, a maior festa religiosa do planeta Terra.
O
tempo era o dos deuses. Uma sangrenta guerra assolava a Terra.
Mais uma vez bem e mal disputavam a soberania. Os devas
deuses na tradição hindu estavam enfraquecidos
perante os asuras (demônios). Para recuperar as forças,
Indra, líder dos devas, foi consultar Vishnu, o grande
deus que zelava pela ordem no universo. Ao ouvir Indra, Vishnu
afirmou que a única forma de os devas vencerem os asuras
seria tomando o néctar da imortalidade, chamado ambrosia.
O néctar poderia ser obtido se todas as ervas existentes
fossem misturadas ao oceano de leite. Os devas teriam de utilizar
o enorme Monte Mandara para agitar as águas do oceano,
contando com a ajuda de Vasuki, o Rei das Serpentes, cujo
extenso corpo de cobra seria utilizado como corda, que, enrolada
ao monte, permitiria movimentá-lo. Tal esforço,
porém, necessitaria da ajuda dos demônios.
 |
|
Acampamento
do Kumbh Mella: indianos de todas as partes do país,
das mais diferentes castas e condições econômicas.
|
O
Maha Kumbh Mella começaria no dia 9 de janeiro
e terminaria em 21 de fevereiro. Em meio a tantos dias, o
que mais me interessava era a segunda-feira, 29 de janeiro,
que cálculos astrológicos definiam como o Vasanti
Panchami, uma das três datas especiais para o banho
na confluência das águas barrentas do Rio Ganges
com as águas negras do Rio Yasmina. Os dois rios encontram-se
no limite do grande acampamento organizado para o festival,
onde flui também o mítico Rio Saraswati, existente
apenas no imaginário hindu. Banhar-se na convergência
de águas tão sagradas é o ritual máximo
da festa religiosa. Quando feito nos dias auspiciosos, propicia,
segundo hindus ortodoxos, a limpeza de todas as impurezas
de sua alma e de seus ancestrais, retrocedendo a 88 gerações.
Essa purificação eleva o carma do hindu e pode
libertá-lo do ciclo de renascimento e morte. Tão
intensa é a busca da redenção que cem
milhões de pessoas, segundo o governo indiano, passaram
este ano pelo festival.
Vindos
de todas as partes do país, das mais distintas
origens, castas e condições econômicas,
os indianos ocupavam todos os espaços do Kumbh Mella,
que se repete a cada 12 anos, já que um dia na vida
dos deuses hindus equivale a 12 anos na vida dos mortais.
Mas, desta vez, a posição específica
de algumas constelações definiu a festa como
a mais importante dos últimos 144 anos. A cada três
anos, porém, ocorrem Kumbh Mella menores em Hardwar,
Nashik e Ujjain, cidades abençoadas, como Allahabad,
por um incidente que ocorreu no tempo dos deuses.
Leia
Mais:
O
grande festival
Oceano
de leite
Saddhus
com dreadlocks
|