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Edição 346

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Reconectando: Jornadas

Edição 346 -Julho 2001
 

Maha Kumbh Mella
O Grande Festival Hindu

No início deste ano, Daniel Braga esteve na Índia para participar do Maha Kumbh Mella, a maior festa religiosa do planeta. Nas próximas páginas, ele relata a sua experiência, ricamente ilustrada por imagens captadas por sua câmera fotográfica.

Texto e fotos Daniel Braga
Contatos com o autor podem ser feitos pelo e-mail d2bi@hotmail.com

Regis Filho

Os bancos azuis, dormitórios da segunda classe do trem indiano, apinhados de gente. O som café-com-pão-café-com-pão mudou bruscamente; ouvíamos agora um bater de ferros. A multidão do vagão jogou-se para as janelas e para as portas; me vi sozinho. Um menino acrobata pulou cabeças, driblou pernas, enganou torsos e alcançou a beirada da porta, arremessando uma guirlanda de flores alaranjadas. Briguei por uma fresta e vi a ponte de ferro fundido por onde passávamos. Voávamos acima do sagradíssimo Gangaji, o rio que brota dos cabelos do deus Shiva e que, pela ignorância dos ingleses colonizadores, foi traduzido para o mundo ocidental como Ganges. A velocidade diminuída anunciou minha chegada a Allahabad, cidade-sede do Maha Kumbh Mella de 2001, a maior festa religiosa do planeta Terra.

O tempo era o dos deuses. Uma sangrenta guerra assolava a Terra. Mais uma vez bem e mal disputavam a soberania. Os devas – deuses na tradição hindu – estavam enfraquecidos perante os asuras (demônios). Para recuperar as forças, Indra, líder dos devas, foi consultar Vishnu, o grande deus que zelava pela ordem no universo. Ao ouvir Indra, Vishnu afirmou que a única forma de os devas vencerem os asuras seria tomando o néctar da imortalidade, chamado ambrosia. O néctar poderia ser obtido se todas as ervas existentes fossem misturadas ao oceano de leite. Os devas teriam de utilizar o enorme Monte Mandara para agitar as águas do oceano, contando com a ajuda de Vasuki, o Rei das Serpentes, cujo extenso corpo de cobra seria utilizado como corda, que, enrolada ao monte, permitiria movimentá-lo. Tal esforço, porém, necessitaria da ajuda dos demônios.

Regis Filho
Acampamento do Kumbh Mella: indianos de todas as partes do país, das mais diferentes castas e condições econômicas.

O Maha Kumbh Mella começaria no dia 9 de janeiro e terminaria em 21 de fevereiro. Em meio a tantos dias, o que mais me interessava era a segunda-feira, 29 de janeiro, que cálculos astrológicos definiam como o Vasanti Panchami, uma das três datas especiais para o banho na confluência das águas barrentas do Rio Ganges com as águas negras do Rio Yasmina. Os dois rios encontram-se no limite do grande acampamento organizado para o festival, onde flui também o mítico Rio Saraswati, existente apenas no imaginário hindu. Banhar-se na convergência de águas tão sagradas é o ritual máximo da festa religiosa. Quando feito nos dias auspiciosos, propicia, segundo hindus ortodoxos, a limpeza de todas as impurezas de sua alma e de seus ancestrais, retrocedendo a 88 gerações. Essa purificação eleva o carma do hindu e pode libertá-lo do ciclo de renascimento e morte. Tão intensa é a busca da redenção que cem milhões de pessoas, segundo o governo indiano, passaram este ano pelo festival.

Vindos de todas as partes do país, das mais distintas origens, castas e condições econômicas, os indianos ocupavam todos os espaços do Kumbh Mella, que se repete a cada 12 anos, já que um dia na vida dos deuses hindus equivale a 12 anos na vida dos mortais. Mas, desta vez, a posição específica de algumas constelações definiu a festa como a mais importante dos últimos 144 anos. A cada três anos, porém, ocorrem Kumbh Mella menores em Hardwar, Nashik e Ujjain, cidades abençoadas, como Allahabad, por um incidente que ocorreu no tempo dos deuses.


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