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Edição 346 -Julho 2001
 

Crescimento Cotidiano
A Psicologia da Família

Principal núcleo da sociedade, a família sofreu grandes transformações através da história, mas continua tendo a importante função de humanizar seus membros.

Por Vera Lúcia Franco
Contatos com a autora podem ser feitos pelo telefone (11) 5549-4742.

Dilmar Cavalher
Regis Filho

Meu pai me chamou Regina porque este era o nome de sua avó mais querida. Por ter olhos claros, traços delineados, cabelos loiros e um corpo bem-feito, sou considerada bonita.

“Minha mãe diz que tenho gênio forte e meu irmão, que sou chata por mexer nas suas coisas. Aliás, papai acha que não devo brincar com as suas coisas porque sou menina. Para minha avó, sou a neta mais carinhosa, e meus primos gostam de brincar comigo porque sempre invento novas brincadeiras. Mas, acima de qualquer coisa, tenho de ser boazinha para dar o exemplo, pois sou a primeira neta, a primeira sobrinha, a primeira filha. Quando crescer, quero ser uma mãe legal como a minha e ter um marido trabalhador como papai.”

Menina graciosa, voluntariosa, criativa e responsável – esse é o retrato de Regina traçado por pessoas muito importantes, não só porque elas lhe deram a vida e a sustentam, mas também porque lhe esculpem um modo de ser e agir, seja por suas expectativas seja por espelharem um modelo.

Edu Garcia/Famíla brasileira de 1917, coleção M. Leite
Regis Filho
Retrato de uma família tradicional: além dos pais e filhos, tios, primos e avós conviviam mais de perto.

São essas pessoas tão importantes em nossa vida, cuja função é estruturar a base de nossa personalidade, a quem chamamos família – uma instituição tão antiga quanto o ser humano, que garantiu sua própria existência por atender às necessidades mais básicas da vida humana: alimento, segurança e afeto. Sem essas coisas, o homem não conseguiria sobreviver, tal a fragilidade com que nasce. Muitos combatem e julgam a família uma instituição ultrapassada, além de causadora de muitos males. De fato, num mundo em mudança, certos padrões que regiam a estrutura familiar precisam ser modificados para atender às novas exigências. E é o que vem acontecendo.

Tradicionalmente, era considerada família o pai, a mãe e os filhos, sendo estes basicamente do mesmo casal. Os tios, primos e avós conviviam muito mais proximamente e exerciam também maior influência sobre o indivíduo. O padrão clássico familiar era autoritário e repressor; a figura do pai, o mandante supremo, encarnava a lei. A ele se devia respeito e obediência. Seu simples olhar determinava aos filhos como proceder. Tal era o medo reinante – confundido com respeito – que ninguém ousava questioná-lo.

Os papéis de pai e de mãe também eram bem definidos e determinados: ao pai cabia trazer o sustento para casa e à mãe, cuidar exclusivamente da educação dos filhos e dos afazeres domésticos.

George Ancona
Regis Filho
Em tempos modernos, o papel de pai ganhou novos contornos.

Nas últimas décadas, esse quadro vem se transformando, e o crescente número de separações e divórcios trouxe sua colaboração para tal mudança. A família moderna abriga agora não somente os filhos do próprio casal, como também os de suas outras uniões. Hoje, homossexuais que têm filhos de uma união heterossexual anterior os educam junto de seus pares. As produções independentes, ou seja, solteiros que aceitam ter filhos sem a convivência do cônjuge, e o crescente número de jovens mães de 12, 13 anos configuram também os novos contornos familiares.

A educação, por sua vez, também sofreu uma transformação. Tornou-se mais permissiva, aceitando-se que o filho tenha vontade própria. Em muitos casos, porém, os pais que foram reprimidos perderam a noção do que é estruturante e do que é apenas coercitivo. Passaram da repressão extrema para a liberdade excessiva: vale tudo. Assim, os limites tão necessários ao desenvolvimento do senso de realidade e respeito ao outro passaram a ser considerados prejudiciais ao crescimento.


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