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Crescimento
Cotidiano
A Psicologia da Família
Principal
núcleo da sociedade, a família sofreu grandes transformações
através da história, mas continua tendo a importante função
de humanizar seus membros.
Por
Vera Lúcia Franco
Contatos com a autora podem ser feitos pelo
telefone (11) 5549-4742.
Meu
pai me chamou Regina porque este era o nome de sua avó
mais querida. Por ter olhos claros, traços delineados,
cabelos loiros e um corpo bem-feito, sou considerada bonita.
Minha
mãe diz que tenho gênio forte e meu irmão,
que sou chata por mexer nas suas coisas. Aliás, papai
acha que não devo brincar com as suas coisas porque
sou menina. Para minha avó, sou a neta mais carinhosa,
e meus primos gostam de brincar comigo porque sempre invento
novas brincadeiras. Mas, acima de qualquer coisa, tenho de
ser boazinha para dar o exemplo, pois sou a primeira neta,
a primeira sobrinha, a primeira filha. Quando crescer, quero
ser uma mãe legal como a minha e ter um marido trabalhador
como papai.
Menina graciosa, voluntariosa, criativa e responsável
esse é o retrato de Regina traçado
por pessoas muito importantes, não só porque
elas lhe deram a vida e a sustentam, mas também porque
lhe esculpem um modo de ser e agir, seja por suas expectativas
seja por espelharem um modelo.
| Edu
Garcia/Famíla brasileira de 1917, coleção M. Leite |
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Retrato
de uma família tradicional: além dos pais e filhos,
tios, primos e avós conviviam mais de perto.
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São
essas pessoas tão importantes em nossa vida, cuja
função é estruturar a base de nossa personalidade,
a quem chamamos família uma instituição
tão antiga quanto o ser humano, que garantiu sua própria
existência por atender às necessidades mais básicas
da vida humana: alimento, segurança e afeto. Sem essas
coisas, o homem não conseguiria sobreviver, tal a fragilidade
com que nasce. Muitos combatem e julgam a família uma
instituição ultrapassada, além de causadora
de muitos males. De fato, num mundo em mudança, certos
padrões que regiam a estrutura familiar precisam ser
modificados para atender às novas exigências.
E é o que vem acontecendo.
Tradicionalmente, era considerada família o pai,
a mãe e os filhos, sendo estes basicamente do mesmo
casal. Os tios, primos e avós conviviam muito mais
proximamente e exerciam também maior influência
sobre o indivíduo. O padrão clássico
familiar era autoritário e repressor; a figura do pai,
o mandante supremo, encarnava a lei. A ele se devia respeito
e obediência. Seu simples olhar determinava aos filhos
como proceder. Tal era o medo reinante confundido com
respeito que ninguém ousava questioná-lo.
Os papéis de pai e de mãe também eram
bem definidos e determinados: ao pai cabia trazer o sustento
para casa e à mãe, cuidar exclusivamente da
educação dos filhos e dos afazeres domésticos.
| George
Ancona |
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Em
tempos modernos, o papel de pai ganhou novos contornos.
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Nas
últimas décadas, esse quadro vem se transformando,
e o crescente número de separações e
divórcios trouxe sua colaboração para
tal mudança. A família moderna abriga agora
não somente os filhos do próprio casal, como
também os de suas outras uniões. Hoje, homossexuais
que têm filhos de uma união heterossexual anterior
os educam junto de seus pares. As produções
independentes, ou seja, solteiros que aceitam ter filhos sem
a convivência do cônjuge, e o crescente número
de jovens mães de 12, 13 anos configuram também
os novos contornos familiares.
A educação, por sua vez, também sofreu
uma transformação. Tornou-se mais permissiva,
aceitando-se que o filho tenha vontade própria. Em
muitos casos, porém, os pais que foram reprimidos perderam
a noção do que é estruturante e do que
é apenas coercitivo. Passaram da repressão extrema
para a liberdade excessiva: vale tudo. Assim, os limites tão
necessários ao desenvolvimento do senso de realidade
e respeito ao outro passaram a ser considerados prejudiciais
ao crescimento.
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