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Edição 346 -Julho 2001
 

O Futuro das Comunicações
Mais Qualidade, Menos Quantidade

Canais exclusivos de noticiário, Internet, jornais, revistas – as empresas de comunicação oferecem mais informações do que nunca. O homem moderno, porém, precisa aprender a separar o supérfluo do realmente essencial para a sua vida.

Por Carlos Cardoso Aveline
O texto aqui apresentado é um excerto do capítulo 3 do livro A Informação Solidária, de Carlos Cardoso Aveline, publicado recentemente pela Edifurb.

Salvador Dalí, Auto-Retrato Cubista/Museu Nacional Rainha Sofia, Madri
Regis Filho

No final dos anos 70, um dos homens mais poderosos do País – expert na área de inteligência – afirmou que lia jornais com o objetivo principal de “saber o que os outros estão mentindo”. A afirmação irônica continha uma crítica evidente aos meios de comunicação social. Com efeito, ler jornais e assistir a noticiosos de televisão nem sempre é um caminho seguro para a verdade.

Mas a informação inútil ou pseudo-informação não é exclusividade do jornalismo moderno. Em qualquer situação, é preciso talento para perceber onde está a boa informação. O bom senso e o espírito crítico em relação às descrições da realidade que chegam até nós são uma defesa indispensável para que nossa vida possa ser feliz e exitosa.

Uma das definições mais claras do conceito de informação consta de um estudo sobre estratégia militar (Estudos de Estratégia, coordenação do general Obino Lacerda Álvares, Biblioteca do Exército-Editora, 1973, 411 pp. Ver pp. 344-347.): “Informação é o conhecimento de que se necessita para tomar as decisões corretas.” Ou seja, informação é o conhecimento útil para melhorar a qualidade da vida. O resto corre o risco de cair na categoria das inutilidades. Conhecer os detalhes dolorosos de um crime de subúrbio, por exemplo, não é informação, mas pseudo-informação. Aplicando o critério da utilidade prática, chegamos à conclusão de que os modernos jornais das capitais brasileiras contêm relativamente poucas páginas de informações, porque dão escassos elementos para que o leitor possa tomar decisões melhores e mais sábias em sua vida. Os jornais circulam com uma quantidade apreciável de lixo cultural, imagens de violência, pseudo-informação e outros fatores que contribuem para tornar difícil a percepção da vida como um processo. Já que a informação é hoje um produto comercial, cabe ao consumidor estabelecer o controle de qualidade na produção de notí-cias e descrições da realidade humana. O crescimento das colunas do leitor nos grandes jornais e o surgimento de ombudsmen ou ouvidores, cuja função é defender os interesses do leitor, assim como o fortalecimento da imprensa alternativa e voltada para a nova era, demonstram que o progresso nesse sentido já está ganhando velocidade.

Nem tudo que é urgente é importante – A mente humana é um ecossistema amplo, complexo, cheio de vida. Do mesmo modo que as paisagens naturais do mundo físico, a mente necessita de paz e equilíbrio em seus fluxos energéticos. O excesso de informação esmaga a consciência interior e funciona como um hipnotismo que tolhe a autonomia pessoal. Surge, então, a ansiedade de informação. A pessoa sente que precisa saber de tudo e acompanhar todos os acontecimentos externos, porque está momentaneamente desligada do seu centro interior de paz. Em compensação, o sábio percebe que as informações decisivas para a sua qualidade de vida quase nunca são novidades de última hora. O que é importante nem sempre parece ser urgente. O que parece urgente, muitas vezes, não tem importância alguma. O cidadão sábio reúne informação na medida certa para tomar decisões corretas. Não se coloca como um espectador, mas como diretor e ator da sua própria vida. Por isso, ele reúne as informações úteis para a ação, evitando perder tempo ou energia com dados desnecessários ou meros passatempos.

A sociedade de massas, ao contrário, induz o cidadão a renunciar à direção da sua própria consciência. Trata-se de um roubo sutil da nossa capacidade de pensar, que é inseparável dos nossos processos emocionais. Na verdade, toda vida é um processo eletromagnético – segundo reconhece a medicina moderna – e o processo do desejo é decisivo para o seu desenrolar. A escritora russa Helena Blavatsky escreveu no século 19 que o desejo passivo é a base para o desenvolvimento da vontade ativa. Para ela, “as emanações que procedem do corpo a cada esforço – seja mental ou físico – produzem automagnetização e êxtase”. (Isis Unveiled, Helena P. Blavatsky, Theosophical Press, Pasadena, Califórnia, EUA, 1988, vol. I, p. 434.)

Ora, a televisão, através dos seus programas, filmes e propaganda, desperta e manipula desejos que estão desconectados da vivência real do cidadão. Com isso, ela controla em parte o comportamento dos telespectadores que ficam expostos durante muito tempo à sua influência, fazendo com que eles percam contato com sua vontade autêntica e desenvolvam um magnetismo negativo.

O ser humano cresce interiormente quando sua vontade é própria e seu desejo é nobre. Sempre que estabelecemos uma meta altruísta e bela e trabalhamos intensamente para alcançá-la, estamos reunindo magnetismo puro em torno de nós e ao mesmo tempo fortalecendo nossa vontade. Essa é uma necessidade básica de todo ser humano e deve ser respeitada pelos meios de comunicação social.


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