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Transcendendo: Mente

Edição 346 -Julho 2001
  No Reino da Fantasia
A Psicologia dos Contos de Fada

Livre do formalismo do pensamento racional, os contos de fadas são um canal de comunicação com o mundo psíquico da criança, que tira das narrativas importantes lições para o seu desenvolvimento interior.

Por Paulo Urban
(médico psiquiatra, psicoterapeuta e acupunturista. E-mail: paulourban@ig.com.br)

Carmina Sophia

Era uma vez uma criança que adorava ouvir histórias... ela nada mais esperava do que viver cada momento, mas a cada passo dado nesse seu mundo de sonhos e fantasia, pouco a pouco, sem o perceber, ia encontrando um sentido para a vida...

Infelizmente, muitos pais desejam ver seus filhos com a cabeça funcionando racionalmente como a deles, e acreditam que a sua maturidade depende exclusivamente do ensinamento lógico oferecido pela maioria das escolas que, via de regra, em nossa sociedade moderna, nada mais fazem do que repassar um conteúdo pedagógico desprovido de maiores significados para a vida. Esquecem-se de explorar os sentimentos como ingrediente fundamental para a formação do caráter e, ainda que bem alfabetizem, desconsideram os contos de fadas como se esses só gerassem confusões quanto aos conceitos sólidos de realidade que devem ser ensinados às crianças. Pecam gravemente por isso.

A sabedoria, afinal, não é coisa que nasça pronta como a deusa Palas Atena, que, inteiramente formada, pulou fora da cabeça de Zeus; é, antes, algo delicado, que se constrói desde os tenros anos da infância que passa necessariamente por um estágio primevo, irracional, de extraordinário potencial, que só se desdobrará convenientemente num bem explorado e maduro psiquismo. Obrigatoriamente, isso nos leva à necessidade de lidar com os nossos sentimentos. O mundo interior, desconhecido pela consciência intelectualizada, encerra segredos legítimos, guarda metade de nós mesmos, e sua assimilação é imprescindível para todo aquele que deseje conhecer-se melhor ou que esteja buscando respostas honestas para os enigmas da existência.

Nesse particular, os contos de fadas cumprem relevante papel. São expressão cristalina e simples de nosso mundo psicológico profundo. De estrutura mais simples que os mitos e as lendas, mas de conteúdo muito mais rico do que o mero teor moral encontrado na maioria das fábulas, são os contos de fadas a fórmula mágica capaz de envolver a atenção das crianças e despertar-lhes (idem nos adultos sensíveis) sentimentos e valores intuitivos que clamam por um desenvolvimento justo, tão pleno quanto possa vir a ser o do prestigiado intelecto.

Em essência, os contos de fadas podem ser vistos como pequenas obras de arte, capazes que são de nos envolver em seu enredo, de nos instigar a mente e comover-nos com a sorte de seus personagens. Causam impacto em nosso psiquismo porque tratam das experiências cotidianas, permitindo que nos identifiquemos com as dificuldades ou alegrias de seus heróis, cujos feitos narrados expressam, em suma, a condição humana frente às provações da vida. Não fossem assim tão verdadeiros ao simbolizar nosso caminho pessoal de desenvolvimento, apresentando-nos as situações críticas de escolha que invariavelmente enfrentamos, não despertariam nem sequer o interesse nas crianças que buscam neles, além da diversão, um aprendizado apropriado à sua segurança. Nesse processo, cada criança depreende suas próprias lições dos contos de fadas que ouve, sempre de acordo com seu momento de vida. Ela extrai das narrativas, ainda que inconscientemente, o que de melhor possa aproveitar para ser aí aplicado. Oportunamente, pede que seus pais lhe contem de novo esta ou aquela história, quando revive sentimentos que vão sendo trabalhados a cada repetição do drama, ampliando assim os significados aprendidos ou substituindo-os por outros mais eficientes, conforme as necessidades do momento.

Desde a remotíssima antigüidade (especialistas apontam para uma tradição oral que começou há mais de 25 mil anos), a relação de qualquer criança com o mundo sempre dependeu dos relatos míticos e religiosos, cujos elementos básicos constituintes encontram-se espalhados por uma miríade de células narrativas de caráter mágico, as quais denominamos contos de fadas.


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