| |
No
Reino da Fantasia
A
Psicologia dos Contos de Fada
Livre
do formalismo do pensamento racional, os contos de fadas são
um canal de comunicação com o mundo psíquico da criança, que
tira das narrativas importantes lições para o seu desenvolvimento
interior.
Por
Paulo Urban
(médico
psiquiatra, psicoterapeuta e acupunturista. E-mail: paulourban@ig.com.br)
Era
uma vez uma criança que adorava ouvir histórias... ela nada
mais esperava do que viver cada momento, mas a cada passo
dado nesse seu mundo de sonhos e fantasia, pouco a pouco,
sem o perceber, ia encontrando um sentido para a vida...
Infelizmente,
muitos pais desejam ver seus filhos com a cabeça funcionando
racionalmente como a deles, e acreditam que a sua maturidade
depende exclusivamente do ensinamento lógico oferecido
pela maioria das escolas que, via de regra, em nossa sociedade
moderna, nada mais fazem do que repassar um conteúdo
pedagógico desprovido de maiores significados para
a vida. Esquecem-se de explorar os sentimentos como ingrediente
fundamental para a formação do caráter
e, ainda que bem alfabetizem, desconsideram os contos de fadas
como se esses só gerassem confusões quanto aos
conceitos sólidos de realidade que devem ser ensinados
às crianças. Pecam gravemente por isso.
A
sabedoria, afinal, não é coisa que nasça
pronta como a deusa Palas Atena, que, inteiramente formada,
pulou fora da cabeça de Zeus; é, antes, algo
delicado, que se constrói desde os tenros anos da infância
que passa necessariamente por um estágio primevo, irracional,
de extraordinário potencial, que só se desdobrará
convenientemente num bem explorado e maduro psiquismo. Obrigatoriamente,
isso nos leva à necessidade de lidar com os nossos
sentimentos. O mundo interior, desconhecido pela consciência
intelectualizada, encerra segredos legítimos, guarda
metade de nós mesmos, e sua assimilação
é imprescindível para todo aquele que deseje
conhecer-se melhor ou que esteja buscando respostas honestas
para os enigmas da existência.
Nesse
particular, os contos de fadas cumprem relevante papel. São
expressão cristalina e simples de nosso mundo psicológico
profundo. De estrutura mais simples que os mitos e as lendas,
mas de conteúdo muito mais rico do que o mero teor
moral encontrado na maioria das fábulas, são
os contos de fadas a fórmula mágica capaz de
envolver a atenção das crianças e despertar-lhes
(idem nos adultos sensíveis) sentimentos e valores
intuitivos que clamam por um desenvolvimento justo, tão
pleno quanto possa vir a ser o do prestigiado intelecto.
Em
essência, os contos de fadas podem ser vistos como pequenas
obras de arte, capazes que são de nos envolver em seu
enredo, de nos instigar a mente e comover-nos com a sorte
de seus personagens. Causam impacto em nosso psiquismo porque
tratam das experiências cotidianas, permitindo que nos
identifiquemos com as dificuldades ou alegrias de seus heróis,
cujos feitos narrados expressam, em suma, a condição
humana frente às provações da vida. Não
fossem assim tão verdadeiros ao simbolizar nosso caminho
pessoal de desenvolvimento, apresentando-nos as situações
críticas de escolha que invariavelmente enfrentamos,
não despertariam nem sequer o interesse nas crianças
que buscam neles, além da diversão, um aprendizado
apropriado à sua segurança. Nesse processo,
cada criança depreende suas próprias lições
dos contos de fadas que ouve, sempre de acordo com seu momento
de vida. Ela extrai das narrativas, ainda que inconscientemente,
o que de melhor possa aproveitar para ser aí aplicado.
Oportunamente, pede que seus pais lhe contem de novo esta
ou aquela história, quando revive sentimentos que vão
sendo trabalhados a cada repetição do drama,
ampliando assim os significados aprendidos ou substituindo-os
por outros mais eficientes, conforme as necessidades do momento.
Desde a remotíssima antigüidade (especialistas
apontam para uma tradição oral que começou
há mais de 25 mil anos), a relação de
qualquer criança com o mundo sempre dependeu dos relatos
míticos e religiosos, cujos elementos básicos
constituintes encontram-se espalhados por uma miríade
de células narrativas de caráter mágico,
as quais denominamos contos de fadas.
LEIA MAIS
A Psicologia dos Contos de Fada
Gesta Romanorum
Mamãe
Gansa
Arquétipos
|