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Reconectando: Ambiente

Edição 346 -Julho 2001
 

Espiritualidade no Trabalho
Por que o poder corrompe

Priscila Prade/Prensa Três
Regis Filho
Beleza das formas: atributo natural que fascina e influencia.

O que há no poder que tende a trazer à tona o pior que existe em nós? Por que, quando tiramos o melhor funcionário de uma equipe e o transformamos num supervisor, quase sempre ele se transforma num tirano mesquinho do dia para a noite? Trata-se da mesma pessoa, com as mesmas qualidades que lhe garantiram a promoção. Mas, no exercício do poder recém-descoberto, emerge uma sombra, um lado escuro da nossa natureza. Qual é o sentido disso tudo?

Todos temos um profundo desejo de estar no controle, seguros e a salvo, livres da preocupação e da ansiedade. Essa necessidade é uma das mais profundas forças que estão por trás de todos os nossos pensamentos e ações. Mesmo que sejamos adultos responsáveis e maduros, e saibamos que não viveremos para sempre, que não poderemos ter tudo o que queremos, que não poderemos ser felizes o tempo todo e saibamos que sofreremos dores, teremos azar e desapontamentos no curso de nossa vida, isso não nos impede de querer ficar livres de tudo isso.

Em outras palavras, a criança dentro de cada um de nós quer ser a estrela de um conto de fadas em que todos os desejos sejam realizados. Querer isso, mesmo que intelectualmente saibamos que não poderemos tê-lo, é o que os budistas chamam de apego. Não precisamos nos envergonhar de admitir que nos sentimos assim. Isso acontece com todo mundo. Trata-se da condição humana.

É por isso que o poder nos corrompe. O poder nos dá a ilusão de que chegamos um pouco mais perto desse sonho do conto de fadas, de que podemos controlar as circunstâncias da nossa vida, de impedir que aconteçam coisas desagradáveis e de evitar a dificuldade e o sofrimento. E não se trata inteiramente de uma ilusão. Se você for rico, tem o poder de evitar muitos dos inconvenientes da vida comum. Você nunca terá de enfrentar a agitação da hora do rush – poderá contratar uma limusine. E, se as avenidas estiverem realmente lotadas, poderá contratar um helicóptero. Ou talvez ter um helicóptero!

Já sucumbi a algumas dessas tentações. Quando eu era um monge budista, enfrentava o inverno sem aquecimento central. Eu andava mais a pé do que de carro. Minha alimentação era frugal, simples. Eu via essas dificuldades modestas como parte do meu treinamento espiritual, portanto, elas não me incomodavam. Agora, durante minhas viagens de negócios, fico irritado se o hotel onde estou é barulhento, se meu assento, no avião, fica na fila do meio, ou se o serviço do restaurante é lento. Porque vivo uma vida de mais riqueza e mais controle aparente, meu estado mental é menos flexível e menos receptivo do que na época em que eu era monge. Pelo fato de eu ter mais poder externo, sou tentado a usá-lo para tornar minha vida mais protegida e tranqüila. Mas isso tem o efeito inverso. Pelo contrário, eu tenho menos poder interior. Sou mais vulnerável e fraco.

O poder é uma ilusão, mas uma ilusão muito convincente. Construímos toda uma sociedade ao redor da premissa de que o poder, particularmente o poder do dinheiro, é uma coisa boa. Segundo as imagens que nos bombardeiam de cada tela de televisão, não existe nada mais excitante e glamouroso do que uma vida repleta de dinheiro e de poder.

Bom Patrão, Mau Patrão – Uma grande amiga que estava lendo o manuscrito deste livro comentou:

“Você não parece retratar uma imagem muito boa dos patrões.”

Considerei o comentário dela e concluí que provavelmente ela estava certa. Existem bons e maus patrões, mas acho que a maioria das pessoas já teve dificuldade com o patrão em alguma época da vida.

Além da corrupção intrínseca do poder, a maioria das pessoas que tem cargos de liderança recebe pouco treinamento, se algum, sobre como administrar o poder e suas corrupções. Signifique o que significar, treinadas ou não, as pessoas ascendem ao poder, exercem poder e, em muitos casos, abusam do poder. Se os patrões não fazem bem seu trabalho, não é porque eles sejam pessoas ruins, mas porque as organizações não os treinam para saber como lidar com o poder, ou não lhes proporcionam um sistema de valores que coloque o poder na perspectiva correta.


Leia Mais:

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A Integridade

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