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Reconectando: Ambiente

Edição 346 -Julho 2001
 

Célio Bermann
Alternativas Para a Crise Energética

Calé
Regis Filho
Usina Nuclear de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro: incapacidade de resolver o problema de rejeitos finais.

PLANETA – As universidades brasileiras mantêm algum tipo de pesquisa em relação a essas soluções alternativas?

Bermann – Existem hoje no Brasil três centros de referência, que é um convênio de universidades brasileiras com o Ministério de Ciência e Tecnologia para difundir as energias alternativas. Um deles, que fica na Universidade Federal do Rio de Janeiro, trabalha com a solar e a eólica. Aqui na Universidade de São Paulo temos, no Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE), o centro de referência em biomassa, que utiliza, por exemplo, resíduos agrícolas. Eu não falei do óleo vegetal, a soja, o dendê; tem-se demonstrado que eles podem gerar energia elétrica e substituir o óleo diesel.

PLANETA – Nós temos também o problema de o petróleo ser uma fonte que também está se esgotando...

Bermann – As empresas de petróleo estão hoje mais presentes nas energias alternativas, porque elas perceberam que esse filão não vai perdurar ad eternum. Não é que o petróleo vai acabar. Mesmo porque, quando se abre um poço de petróleo, só se retiram 30%, 40% do que tem lá dentro; fica tão difícil extrair o restante e os custos são tão altos que o resto acaba sendo largado no poço. Ou seja, vai ser tecnológica e economicamente inviável continuar utilizando o petróleo. E o óleo vegetal é uma alternativa importante para suprir as necessidades de se ter um carburante que seja ecologicamente sustentável. A soja e o óleo de dendê são excelentes alternativas no Brasil.

PLANETA – E essa pesquisa está sendo feita aqui na USP...

Bermann – Sim, temos aqui esforços nessa direção. A Universidade Federal de Itajubá (MG) tem um centro de referência em pequenas centrais hidrelétricas, onde eu sou o representante da USP. Nesses centros de referência, há também a participação de pessoal de várias universidades brasileiras. Existe um grupo de Santa Catarina que é bastante ativo em energias alternativas; a Federal de Pernambuco também tem uma participação significativa. Enfim, eu diria que existe uma importante atividade de pesquisa e de disseminação de tecnologias, mas há necessidade de se ter uma presença maior nessas pesquisas, porque elas ainda recebem pouco incentivo.

PLANETA – Houve alguma experiência mais notável na área energética? O que os outros países que passaram por problemas de falta de energia fizeram antes de chegar ao racionamento?

Bermann – Os países-membros da OCDE, de economia mais desenvolvida, resolveram, ainda na década de 80, implementar políticas de redução do consumo de energia. Eles atingiram uma situação que poderia ser também conseguida aqui no Brasil. O Japão, por exemplo, tem uma relação de consumo energético e crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) na ordem de 0,7, enquanto nós temos 1,5. Por quê? Porque eles decidiram que a produção do país deveria consumir menos energia. O que eles fizeram? O Japão produzia 1 milhão e 600 mil toneladas de alumínio. Quando o choque do petróleo mostrou que a energia iria ser cara, eles resolveram fechar as fábricas e transferi-las para países como, por exemplo, o Brasil e a Venezuela. Até os Estados Unidos receberam investimento japonês para a produção de alumínio. Mas, de uma forma consciente, eles resolveram preservar a produção diminuindo a energia elétrica.

PLANETA – Mas, nesse caso do alumínio, eles apenas transferiram o problema de lugar...

Bermann – Eles recebem as placas de alumínio, o alumínio primário, e transformam em chips.

PLANETA – Quer dizer, na verdade, nós aceitamos o problema...

Bermann – É. Mas está sendo uma boa oportunidade para o Brasil ter como exemplo esse esforço feito nesses países desenvolvidos. Não estou falando no Japão, que talvez seja o exemplo mais evidente, mas Alemanha, Inglaterra, França e Estados Unidos tiveram também uma redução na relação consumo energético-PIB. Eles adotaram uma política de redução da demanda que deu resultado. É claro que grande parte do sucesso se deve ao fato de eles terem transferido para países do Terceiro Mundo aquilo que eles não estavam produzindo mais. Está na hora, porém, de o Brasil também ter a possibilidade de pensar de uma forma mais conseqüente nessa situação.

A nova estratégia energética no Brasil deve passar por uma reestruturação das indústrias, por uma redução da participação dos setores industriais eletrointensivos e pelo esforço de essas indústrias se voltarem à produção não de matérias-primas, mas de produtos que são feitos a partir dessas matérias-primas com maior valor agregado. Isso vai trazer, como conseqüência, uma diminuição dessa demanda, que hoje é exagerada no Brasil. E há a possibilidade de a energia estar disponível para indústrias que gerem mais emprego e riqueza. Indústrias como as de alumínio, aço, papel e celulose absorvem pouca mão-de-obra. Fábricas que peguem o alumínio primário e produzam esquadrilhas vão estar empregando muito mais gente, para poder estar satisfazendo o mercado interno e, eventualmente, exportando esses produtos por um preço que é muito maior do que se exportar o alumínio. Essa idéia de se poder trabalhar conjuntamente uma política industrial em função da recessão da eletricidade me parece uma das prioridades a serem enfrentadas.

PLANETA – De imediato, fora o racionamento, o que a gente pode fazer para contornar essa crise?

Bermann – Os investimentos que eu citei – reduzir perdas, modernizar as usinas com mais de 20 anos, investir nas pequenas centrais hidrelétricas e nos resíduos agrícolas – são para evitar problemas nos anos que vierem, não vai resolver a situação. Mas, de uma forma geral, se tudo que eu indiquei for feito, em três anos nós vamos ter 40% da energia elétrica atual sem construir uma nova usina e uma nova barragem, sem precisar das termelétricas a gás natural. Aliás, a prioridade de utilizar o gás natural para a geração de energia elétrica, além de ter sido um fracasso, não é a solução mais adequada.

PLANETA – E o nosso grande elefante branco que é a usina Angra dos Reis, até que ponto ela contribui para a energia no Brasil?

Bermann – Essa situação vai ser muito bem explorada por aqueles que têm interesse em construir Angra III e, se der tudo certo, terminar fechando o projeto de programa nuclear inicial, que previa oito usinas.

O argumento para a utilização da energia nuclear como fonte alternativa ainda esbarra na incapacidade que se tem hoje de resolver o problema de rejeitos finais, que são de radiação elevada. Não se sabe o que fazer com eles depois que a usina parar de funcionar. Essa questão é internacional. Mas Angra III está sendo apresentada como alternativa para resolver o problema de falta de energia elétrica e vai se querer enfiá-la goela abaixo da população. Os interesses de ordem política e comercial relacionados com a indústria nuclear sempre tiveram no Brasil uma presença bastante forte e, provavelmente, vamos ver pressões muito grandes agora, aproveitando essa situação, para que as usinas saiam da obscuridade.


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