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Célio Bermann
Alternativas Para a Crise Energética
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Calé
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| Usina
Nuclear de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro: incapacidade
de resolver o problema de rejeitos finais. |
PLANETA
As universidades brasileiras mantêm algum tipo
de pesquisa em relação a essas soluções
alternativas?
Bermann Existem hoje no Brasil três centros
de referência, que é um convênio de universidades
brasileiras com o Ministério de Ciência e Tecnologia
para difundir as energias alternativas. Um deles, que fica
na Universidade Federal do Rio de Janeiro, trabalha com a
solar e a eólica. Aqui na Universidade de São
Paulo temos, no Instituto de Eletrotécnica e Energia
(IEE), o centro de referência em biomassa, que utiliza,
por exemplo, resíduos agrícolas. Eu não
falei do óleo vegetal, a soja, o dendê; tem-se
demonstrado que eles podem gerar energia elétrica e
substituir o óleo diesel.
PLANETA Nós temos também o problema
de o petróleo ser uma fonte que também está
se esgotando...
Bermann
As empresas de petróleo estão hoje mais
presentes nas energias alternativas, porque elas perceberam
que esse filão não vai perdurar ad eternum.
Não é que o petróleo vai acabar. Mesmo
porque, quando se abre um poço de petróleo,
só se retiram 30%, 40% do que tem lá dentro;
fica tão difícil extrair o restante e os custos
são tão altos que o resto acaba sendo largado
no poço. Ou seja, vai ser tecnológica e economicamente
inviável continuar utilizando o petróleo. E
o óleo vegetal é uma alternativa importante
para suprir as necessidades de se ter um carburante que seja
ecologicamente sustentável. A soja e o óleo
de dendê são excelentes alternativas no Brasil.
PLANETA E essa pesquisa está sendo feita
aqui na USP...
Bermann Sim, temos aqui esforços nessa
direção. A Universidade Federal de Itajubá
(MG) tem um centro de referência em pequenas centrais
hidrelétricas, onde eu sou o representante da USP.
Nesses centros de referência, há também
a participação de pessoal de várias universidades
brasileiras. Existe um grupo de Santa Catarina que é
bastante ativo em energias alternativas; a Federal de Pernambuco
também tem uma participação significativa.
Enfim, eu diria que existe uma importante atividade de pesquisa
e de disseminação de tecnologias, mas há
necessidade de se ter uma presença maior nessas pesquisas,
porque elas ainda recebem pouco incentivo.
PLANETA Houve alguma experiência mais notável
na área energética? O que os outros países
que passaram por problemas de falta de energia fizeram antes
de chegar ao racionamento?
Bermann Os países-membros da OCDE, de
economia mais desenvolvida, resolveram, ainda na década
de 80, implementar políticas de redução
do consumo de energia. Eles atingiram uma situação
que poderia ser também conseguida aqui no Brasil. O
Japão, por exemplo, tem uma relação de
consumo energético e crescimento do Produto Interno
Bruto (PIB) na ordem de 0,7, enquanto nós temos 1,5.
Por quê? Porque eles decidiram que a produção
do país deveria consumir menos energia. O que eles
fizeram? O Japão produzia 1 milhão e 600 mil
toneladas de alumínio. Quando o choque do petróleo
mostrou que a energia iria ser cara, eles resolveram fechar
as fábricas e transferi-las para países como,
por exemplo, o Brasil e a Venezuela. Até os Estados
Unidos receberam investimento japonês para a produção
de alumínio. Mas, de uma forma consciente, eles resolveram
preservar a produção diminuindo a energia elétrica.
PLANETA Mas, nesse caso do alumínio, eles
apenas transferiram o problema de lugar...
Bermann Eles recebem as placas de alumínio,
o alumínio primário, e transformam em chips.
PLANETA Quer dizer, na verdade, nós aceitamos
o problema...
Bermann É. Mas está sendo uma
boa oportunidade para o Brasil ter como exemplo esse esforço
feito nesses países desenvolvidos. Não estou
falando no Japão, que talvez seja o exemplo mais evidente,
mas Alemanha, Inglaterra, França e Estados Unidos tiveram
também uma redução na relação
consumo energético-PIB. Eles adotaram uma política
de redução da demanda que deu resultado. É
claro que grande parte do sucesso se deve ao fato de eles
terem transferido para países do Terceiro Mundo aquilo
que eles não estavam produzindo mais. Está na
hora, porém, de o Brasil também ter a possibilidade
de pensar de uma forma mais conseqüente nessa situação.
A
nova estratégia energética no Brasil deve passar
por uma reestruturação das indústrias,
por uma redução da participação
dos setores industriais eletrointensivos e pelo esforço
de essas indústrias se voltarem à produção
não de matérias-primas, mas de produtos que
são feitos a partir dessas matérias-primas com
maior valor agregado. Isso vai trazer, como conseqüência,
uma diminuição dessa demanda, que hoje é
exagerada no Brasil. E há a possibilidade de a energia
estar disponível para indústrias que gerem mais
emprego e riqueza. Indústrias como as de alumínio,
aço, papel e celulose absorvem pouca mão-de-obra.
Fábricas que peguem o alumínio primário
e produzam esquadrilhas vão estar empregando muito
mais gente, para poder estar satisfazendo o mercado interno
e, eventualmente, exportando esses produtos por um preço
que é muito maior do que se exportar o alumínio.
Essa idéia de se poder trabalhar conjuntamente uma
política industrial em função da recessão
da eletricidade me parece uma das prioridades a serem enfrentadas.
PLANETA De imediato, fora o racionamento, o que
a gente pode fazer para contornar essa crise?
Bermann Os investimentos que eu citei
reduzir perdas, modernizar as usinas com mais de 20 anos,
investir nas pequenas centrais hidrelétricas e nos
resíduos agrícolas são para evitar
problemas nos anos que vierem, não vai resolver a situação.
Mas, de uma forma geral, se tudo que eu indiquei for feito,
em três anos nós vamos ter 40% da energia elétrica
atual sem construir uma nova usina e uma nova barragem, sem
precisar das termelétricas a gás natural. Aliás,
a prioridade de utilizar o gás natural para a geração
de energia elétrica, além de ter sido um fracasso,
não é a solução mais adequada.
PLANETA
E o nosso grande elefante branco que é a usina
Angra dos Reis, até que ponto ela contribui para a
energia no Brasil?
Bermann Essa situação vai ser
muito bem explorada por aqueles que têm interesse em
construir Angra III e, se der tudo certo, terminar fechando
o projeto de programa nuclear inicial, que previa oito usinas.
O
argumento para a utilização da energia nuclear
como fonte alternativa ainda esbarra na incapacidade que se
tem hoje de resolver o problema de rejeitos finais, que são
de radiação elevada. Não se sabe o que
fazer com eles depois que a usina parar de funcionar. Essa
questão é internacional. Mas Angra III está
sendo apresentada como alternativa para resolver o problema
de falta de energia elétrica e vai se querer enfiá-la
goela abaixo da população. Os interesses de
ordem política e comercial relacionados com a indústria
nuclear sempre tiveram no Brasil uma presença bastante
forte e, provavelmente, vamos ver pressões muito grandes
agora, aproveitando essa situação, para que
as usinas saiam da obscuridade.
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