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Célio Bermann
Alternativas Para a Crise Energética
O
professor Célio Bermann, que integra o Programa de Pós-Graduação
em Energia da USP, aponta aqui opções mais baratas e ecológicas
para contornarmos a crise energética.
Por
Fátima Afonso
PLANETA
Qual é a verdadeira situação do
Brasil em relação ao problema energético?
Bermann
Em relação à energia elétrica
propriamente dita, é importante situar algumas coisas.
Primeiro, o Brasil hoje consome 330 milhões de megawatts-hora
por ano, que é um volume de eletricidade bastante alto.
A conta de luz que a gente recebe é em quilowatt; megawatt
é mil vezes o quilowatt. Ou seja, o País todo
consome 330 bilhões de quilowatts-hora. Existem 20
milhões de brasileiros que ainda não têm
energia elétrica e deveriam, de alguma forma, ser atendidos.
Esse é um problema energético importante também.
E te-mos um consumo per capita de energia elétrica
que é baixo em relação a outros países.
Praticamente 48% do consumo é industrial. As residências
consomem 25%. O resto é distribuído no consumo
comercial de serviços, no consumo público e
rural. Isso mostra que a responsabilidade do consumo residencial
não é tanta assim.
PLANETA
Nesse caso, os apagões seriam suficientes para
se diminuir 20% do consumo de eletricidade como quer o governo?
Bermann
Da forma que eles estão programados, eu posso
afirmar que não. Porque 20% de redução
do consumo para as residências significa quatro horas
por dia, ou cinco dias por mês, sem energia elétrica
nas casas, o que já é uma situação
bastante difícil. Mas vamos dizer que o consumidor
residencial consiga diminuir 20% do consumo em eletricidade.
Como ele responde por 25% do consumo elétrico total,
os seus 20% vão significar, na conta do consumo total,
apenas 5% de redução. No programa do governo,
o consumo industrial deve diminuir 15%; isso vai significar
um decréscimo da ordem de 7,5% do consumo total. Sete
e meio por cento mais 5% são 12,5%. A pergunta é:
quem vai reduzir os outros 7,5%?
Eu
acho temerário você colocar em risco a segurança
em função do racionamento em iluminação
pública e pouco adequado que hospitais e órgãos
públicos, que são essenciais, tenham também
de sofrer as conseqüências do apagão. Se
o racionamento tivesse que dar certo, ele teria de reequilibrar
as responsabilidades pelos cortes de consumo, com todos os
problemas e as conse-qüências que isso vai trazer.
Responsabilizar o setor industrial com um corte maior do que
ele vai sofrer significará certamente problemas de
formação de riqueza através do PIB e
diminuição de empregos. Mas isso é uma
situação a que a imprevidência da política
energética acabou levando.
PLANETA
Os próprios empresá-rios têm certa
responsabilidade nesse processo, já que ninguém
investiu na área energética...
Bermann
Também. O consumidor industrial, principalmente
das grandes empresas, não levou na devida conta o que
é a possibilidade de se ter uma situação
de contingência no fornecimento. Eu estou falando principalmente
das indústrias que consomem muita energia elétrica,
que são a indústria de cimento, a do aço,
a do alumínio, a indústria química da
cloro-soda e a do papel e celulose. Esses cinco setores respondem
por 30% do consumo elétrico nacional e estão
agora numa situação em que ou eles diminuem
a produção para dar a sua cota em relação
à necessidade de racionamento ou vão acabar
precisando de sérios empreendimentos para manter a
produção. Esse é um problema bastante
importante, para o qual a política energética
e a política industrial não deram até
agora a devida atenção. O consumidor está
sofrendo as conseqüências de uma responsabilidade
que não é dele. Mas, sob o ponto de vista cultural,
é importante passarmos por essa prova de mudança
de hábitos de consumo.
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Eduardo
Simões
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| Indústria
do aço: um dos setores que mais gastam energia elétrica. |
PLANETA
Até porque, existe também a falta de
consciência por parte do consumidor...
Bermann
De consciência, de educação nesse
sentido. Eu vejo que, sob esse ponto de vista, a crise tem
um aspecto muito positivo. Porque a sociedade brasileira vai
começar aprender a conviver com a escassez.
PLANETA
Até que ponto a falta de água é
culpada por essa deficiência de energia?
Bermann
É muito fácil dizer que a culpa é
de São Pedro. Eu entenderia que a ausência de
chuvas, que é real, principalmente no último
ano, apenas reforçou um problema que já está
acontecendo há bastante tempo: a ausência de
investimento que pudesse criar alternativas de ofertas de
energia elétrica de forma mais consistente, para dar
conta de uma demanda que, no Brasil, é da ordem de
5% ao ano.
PLANETA
Quantas usinas hidrelétricas você acha
que o País precisaria ainda?
Bermann
Será que a gente precisa construir mais hidrelétricas?
Eu vou lhe dar alguns dados que mostram que, anos atrás,
poderiam ter sido feitos investimentos que evitariam a situação
atual. Até chegar à tomada do consumidor final,
o sistema elétrico brasileiro perde hoje 15% da energia
que é gerada.
PLANETA
De que maneira?
Bermann
Nos próprios equipamentos de geração
e nas vias de transmissão, por mau isolamento dos fios.
Muitas das usinas já têm mais de 20 anos, isso
significa que elas podem ser modernizadas. Investimentos na
troca de equipamentos, na modernização das usinas
de geração e nas condições de
distribuição da energia elétrica até
o consumidor final teriam um custo muito menor do que a construção
de uma nova usina e sem a degradação ambiental
que qualquer obra de geração acaba ocasionando.
As hidrelétricas inundam áreas que eram anteriormente
utilizadas para cultivo e expulsam as populações
que viviam nesses locais. No Brasil, hoje, estima-se que 34
mil quilômetros quadrados foram inundados com as formações
dos reservatórios das hidrelétricas. Em escala,
isso é mais ou menos o equivalente ao Estado de Alagoas,
que tem 20 mil quilômetros quadrados. E estima-se que
250 mil famílias foram obrigadas a abandonar as terras
para dar lugar aos reservatórios. Essas questões
sociais nunca foram pensadas de uma forma adequada. Se fizermos
um investimento para melhorar as condições com
que a energia é gerada, transmitida e distribuída,
vamos ter um equivalente a meia Itaipu, ou seja, 6.500 megawatts,
sem precisar construir usinas.
Há
outras alternativas de investimento que poderiam ter sido
feitas, como as pequenas centrais hidrelétricas. Dizem
que a pequena central hidrelétrica é uma coisa
do passado; realmente, não é uma coisa nova,
mas existe um estudo recente do próprio governo segundo
o qual poderiam ser construídas agora, nos próximos
três anos, cerca de 924 pequenas centrais hidrelétricas,
de no máximo 30 MW de potência instalado.
PLANETA
Isso não acarretaria problemas de ordem ambiental?
Bermann
A escala dos problemas de ordem ambiental poderia ser
melhor manejada. Essas centrais hidrelétricas são
pequenos reservatórios, de no máximo 3 km2,
e com uma situação extremamente positiva, que
é de se ter uma geração descentralizada.
Nos lugares onde elas existirem, os próprios donos
podem administrar a geração e o consumo da energia
elétrica, sem necessidade de ficarem subordinados às
decisões de uma política ou de um operador nacional
de sistema.
Uma outra opção, importante do ponto de vista
alternativo, é a utilização de resíduos
agrícolas na geração de energia elétrica.
A casca de arroz, por exemplo, já está sendo
utilizada com sucesso no Rio Grande do Sul. Mas eu estou falando
particularmente no bagaço de cana, que, seco, pode
ser queimado numa caldeira para produzir vapor dágua;
esse vapor d água, sob pressão, gera energia
elétrica.
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Modesto
Wielewicki
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| Linhas
de transmissão de eletricidade: manutenção que deixa
muito a desejar em todo o País. |
PLANETA
Na região de Ribeirão Preto (SP), a Usina
São Francisco está investindo nesse sistema...
Bermann
Eles têm a autoprodução e podem
vender a energia elétrica excedente também.
A política energética nunca viu como uma alternativa
importante essa possibilidade, que é enorme no Estado
de São Paulo e no Nordeste. Em São Paulo, para
se ter uma idéia, 850 MW poderiam ser produzidos e
comercializados como excedente nessas usinas, mas só
80 são comercializados, depois de muito tempo que algumas
usinas da região de Ribeirão Preto e Piracicaba
conseguiram fechar contrato com a Companhia Paulista de Força
e Luz.
PLANETA
Além dessas alternativas, nós temos ainda
a energia solar...
Bermann
O problema é que ela ainda é uma energia
cara. Mas é uma alternativa para pequenas cargas, para
comunidades isoladas que estão longe das redes de distribuição.
PLANETA
Mesmo sendo cara, além de ser limpa, ela é
uma fonte inesgotável. Em um país tropical não
seria, a longo prazo, uma das opções mais viáveis?
Bermann
Ela tem alguns problemas em relação ao
caráter ambiental. Quando falamos em usar a energia
do Sol para a produção de eletricidade, estamos
falando de painéis fotovoltaicos esse é
o nome técnico da tecnologia aí usada. A construção
desses painéis, na qual se utilizam silício,
alumínio e vidro, acaba representando uma degradação
ambiental significativa. Nós temos alguns estudos que
mostram que o painel fotovoltaico demora três anos para
produzir a eletricidade que ele consumiu na sua fabricação.
É claro que, numa situação em que vai
permitir que comunidades rurais tenham acesso à eletricidade,
ela é perfeitamente viável. Mas, por atender
uma pequena escala, não é uma alternativa energética
para suprir uma demanda como a nacional, que cresce 5% ao
ano.
PLANETA
A alternativa dos resíduos agrícolas,
então, seria muito mais eficiente e barata...
Bermann
Seria a alternativa para ser disseminada agora, pelo
menos para reduzir o racionamento. Porque estão dizendo:
Nós estamos passando por ele em 2001 e provavelmente
o teremos em 2002, em 2003... Outra possibilidade é
o aproveitamento dos resíduos da fabricação
de papel e celulose...
PLANETA
Que é uma das indústrias mais poluentes...
Bermann
Sim, e também consome muita energia elétrica.
Com isso, poderiam ser obtidos 650 megawatts.
PLANETA
E por que o governo não adota uma política
que desenvolva essas técnicas alternativas?
Bermann
Acho que, na verdade, está faltando bom senso
para se efetivar, de forma mais adequada, uma política
energética que seja condizente com os problemas de
ordem ambiental, social, etc.
PLANETA
Foi noticiado há poucos meses que várias
cidades argentinas da região de Bariloche estão
investindo na energia eólica. No Brasil não
poderia ser feito isso?
Bermann
Isso já está sendo feito, com relativo
sucesso, no litoral do Ceará, que é o Estado
em que a escala da energia eólica é a mais pronunciada
atualmente.
PLANETA
Essa, sim, é uma energia totalmente limpa?
Bermann
Os ambientalistas chamam a atenção, por
exemplo, para o fato de que as pás acabam decepando
a cabeça dos pássaros; essas coisas não
podem ser desconsideradas na hora em que você faz a
avaliação. Mas a eólica tem alguns pontos
extremamente positivos. A área embaixo das turbinas
pode ser utilizada para plantação, por exemplo.
Existem problemas de ordem ambiental de ruído. Na Califórnia,
onde as fazendas de vento são mais disseminadas, durante
muito tempo as comunidades vizinhas se queixaram da necessidade
de se ter uma cobertura vegetal que pudesse diminuir o ruído,
que é intermitente, por conta do giro daqueles aerogeradores.
De qualquer forma, em Fortaleza há duas usinas de grande
dimensão, cada uma com 15 megawatts, que vendem
hoje energia para a Companhia de Eletricidade do Estado do
Ceará. Foi feito um atlas para levantar qual é
o potencial de aproveitamento de vento no litoral brasileiro.
Além do Ceará, o Rio Grande do Norte e a Paraíba
aparecem como áreas em que esse potencial de geração
poderia ser bem desenvolvido. Está faltando também
uma atenção maior em relação a
isso. É preciso que se pare de ver essas alternativas
como soluções malucas, e que elas sejam entendidas
como opções práticas e viáveis
economicamente.
proxima>>
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