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Reconectando: Ambiente

Edição 346 -Julho 2001
 

Célio Bermann
Alternativas Para a Crise Energética

O professor Célio Bermann, que integra o Programa de Pós-Graduação em Energia da USP, aponta aqui opções mais baratas e ecológicas para contornarmos a crise energética.

Por Fátima Afonso

Regis Filho

PLANETA – Qual é a verdadeira situação do Brasil em relação ao problema energético?

Bermann – Em relação à energia elétrica propriamente dita, é importante situar algumas coisas. Primeiro, o Brasil hoje consome 330 milhões de megawatts-hora por ano, que é um volume de eletricidade bastante alto. A conta de luz que a gente recebe é em quilowatt; megawatt é mil vezes o quilowatt. Ou seja, o País todo consome 330 bilhões de quilowatts-hora. Existem 20 milhões de brasileiros que ainda não têm energia elétrica e deveriam, de alguma forma, ser atendidos. Esse é um problema energético importante também. E te-mos um consumo per capita de energia elétrica que é baixo em relação a outros países. Praticamente 48% do consumo é industrial. As residências consomem 25%. O resto é distribuído no consumo comercial de serviços, no consumo público e rural. Isso mostra que a responsabilidade do consumo residencial não é tanta assim.

PLANETA – Nesse caso, os apagões seriam suficientes para se diminuir 20% do consumo de eletricidade como quer o governo?

Bermann – Da forma que eles estão programados, eu posso afirmar que não. Porque 20% de redução do consumo para as residências significa quatro horas por dia, ou cinco dias por mês, sem energia elétrica nas casas, o que já é uma situação bastante difícil. Mas vamos dizer que o consumidor residencial consiga diminuir 20% do consumo em eletricidade. Como ele responde por 25% do consumo elétrico total, os seus 20% vão significar, na conta do consumo total, apenas 5% de redução. No programa do governo, o consumo industrial deve diminuir 15%; isso vai significar um decréscimo da ordem de 7,5% do consumo total. Sete e meio por cento mais 5% são 12,5%. A pergunta é: quem vai reduzir os outros 7,5%?

Eu acho temerário você colocar em risco a segurança em função do racionamento em iluminação pública e pouco adequado que hospitais e órgãos públicos, que são essenciais, tenham também de sofrer as conseqüências do apagão. Se o racionamento tivesse que dar certo, ele teria de reequilibrar as responsabilidades pelos cortes de consumo, com todos os problemas e as conse-qüências que isso vai trazer. Responsabilizar o setor industrial com um corte maior do que ele vai sofrer significará certamente problemas de formação de riqueza através do PIB e diminuição de empregos. Mas isso é uma situação a que a imprevidência da política energética acabou levando.

PLANETA – Os próprios empresá-rios têm certa responsabilidade nesse processo, já que ninguém investiu na área energética...

Bermann – Também. O consumidor industrial, principalmente das grandes empresas, não levou na devida conta o que é a possibilidade de se ter uma situação de contingência no fornecimento. Eu estou falando principalmente das indústrias que consomem muita energia elétrica, que são a indústria de cimento, a do aço, a do alumínio, a indústria química da cloro-soda e a do papel e celulose. Esses cinco setores respondem por 30% do consumo elétrico nacional e estão agora numa situação em que ou eles diminuem a produção para dar a sua cota em relação à necessidade de racionamento ou vão acabar precisando de sérios empreendimentos para manter a produção. Esse é um problema bastante importante, para o qual a política energética e a política industrial não deram até agora a devida atenção. O consumidor está sofrendo as conseqüências de uma responsabilidade que não é dele. Mas, sob o ponto de vista cultural, é importante passarmos por essa prova de mudança de hábitos de consumo.

Eduardo Simões
Regis Filho
Indústria do aço: um dos setores que mais gastam energia elétrica.

PLANETA – Até porque, existe também a falta de consciência por parte do consumidor...

Bermann – De consciência, de educação nesse sentido. Eu vejo que, sob esse ponto de vista, a crise tem um aspecto muito positivo. Porque a sociedade brasileira vai começar aprender a conviver com a escassez.

PLANETA – Até que ponto a falta de água é culpada por essa deficiência de energia?

Bermann – É muito fácil dizer que a culpa é de São Pedro. Eu entenderia que a ausência de chuvas, que é real, principalmente no último ano, apenas reforçou um problema que já está acontecendo há bastante tempo: a ausência de investimento que pudesse criar alternativas de ofertas de energia elétrica de forma mais consistente, para dar conta de uma demanda que, no Brasil, é da ordem de 5% ao ano.

PLANETA – Quantas usinas hidrelétricas você acha que o País precisaria ainda?

Bermann – Será que a gente precisa construir mais hidrelétricas? Eu vou lhe dar alguns dados que mostram que, anos atrás, poderiam ter sido feitos investimentos que evitariam a situação atual. Até chegar à tomada do consumidor final, o sistema elétrico brasileiro perde hoje 15% da energia que é gerada.

PLANETA – De que maneira?

Bermann – Nos próprios equipamentos de geração e nas vias de transmissão, por mau isolamento dos fios. Muitas das usinas já têm mais de 20 anos, isso significa que elas podem ser modernizadas. Investimentos na troca de equipamentos, na modernização das usinas de geração e nas condições de distribuição da energia elétrica até o consumidor final teriam um custo muito menor do que a construção de uma nova usina e sem a degradação ambiental que qualquer obra de geração acaba ocasionando. As hidrelétricas inundam áreas que eram anteriormente utilizadas para cultivo e expulsam as populações que viviam nesses locais. No Brasil, hoje, estima-se que 34 mil quilômetros quadrados foram inundados com as formações dos reservatórios das hidrelétricas. Em escala, isso é mais ou menos o equivalente ao Estado de Alagoas, que tem 20 mil quilômetros quadrados. E estima-se que 250 mil famílias foram obrigadas a abandonar as terras para dar lugar aos reservatórios. Essas questões sociais nunca foram pensadas de uma forma adequada. Se fizermos um investimento para melhorar as condições com que a energia é gerada, transmitida e distribuída, vamos ter um equivalente a meia Itaipu, ou seja, 6.500 megawatts, sem precisar construir usinas.

Há outras alternativas de investimento que poderiam ter sido feitas, como as pequenas centrais hidrelétricas. Dizem que a pequena central hidrelétrica é uma coisa do passado; realmente, não é uma coisa nova, mas existe um estudo recente do próprio governo segundo o qual poderiam ser construídas agora, nos próximos três anos, cerca de 924 pequenas centrais hidrelétricas, de no máximo 30 MW de potência instalado.

PLANETA – Isso não acarretaria problemas de ordem ambiental?

Bermann – A escala dos problemas de ordem ambiental poderia ser melhor manejada. Essas centrais hidrelétricas são pequenos reservatórios, de no máximo 3 km2, e com uma situação extremamente positiva, que é de se ter uma geração descentralizada. Nos lugares onde elas existirem, os próprios donos podem administrar a geração e o consumo da energia elétrica, sem necessidade de ficarem subordinados às decisões de uma política ou de um operador nacional de sistema.

Uma outra opção, importante do ponto de vista alternativo, é a utilização de resíduos agrícolas na geração de energia elétrica. A casca de arroz, por exemplo, já está sendo utilizada com sucesso no Rio Grande do Sul. Mas eu estou falando particularmente no bagaço de cana, que, seco, pode ser queimado numa caldeira para produzir vapor d’água; esse vapor d’ água, sob pressão, gera energia elétrica.

Modesto Wielewicki
Regis Filho
Linhas de transmissão de eletricidade: manutenção que deixa muito a desejar em todo o País.

PLANETA – Na região de Ribeirão Preto (SP), a Usina São Francisco está investindo nesse sistema...

Bermann – Eles têm a autoprodução e podem vender a energia elétrica excedente também. A política energética nunca viu como uma alternativa importante essa possibilidade, que é enorme no Estado de São Paulo e no Nordeste. Em São Paulo, para se ter uma idéia, 850 MW poderiam ser produzidos e comercializados como excedente nessas usinas, mas só 80 são comercializados, depois de muito tempo que algumas usinas da região de Ribeirão Preto e Piracicaba conseguiram fechar contrato com a Companhia Paulista de Força e Luz.

PLANETA – Além dessas alternativas, nós temos ainda a energia solar...

Bermann – O problema é que ela ainda é uma energia cara. Mas é uma alternativa para pequenas cargas, para comunidades isoladas que estão longe das redes de distribuição.

PLANETA – Mesmo sendo cara, além de ser limpa, ela é uma fonte inesgotável. Em um país tropical não seria, a longo prazo, uma das opções mais viáveis?

Bermann – Ela tem alguns problemas em relação ao caráter ambiental. Quando falamos em usar a energia do Sol para a produção de eletricidade, estamos falando de painéis fotovoltaicos – esse é o nome técnico da tecnologia aí usada. A construção desses painéis, na qual se utilizam silício, alumínio e vidro, acaba representando uma degradação ambiental significativa. Nós temos alguns estudos que mostram que o painel fotovoltaico demora três anos para produzir a eletricidade que ele consumiu na sua fabricação. É claro que, numa situação em que vai permitir que comunidades rurais tenham acesso à eletricidade, ela é perfeitamente viável. Mas, por atender uma pequena escala, não é uma alternativa energética para suprir uma demanda como a nacional, que cresce 5% ao ano.

PLANETA – A alternativa dos resíduos agrícolas, então, seria muito mais eficiente e barata...

Bermann – Seria a alternativa para ser disseminada agora, pelo menos para reduzir o racionamento. Porque estão dizendo: “Nós estamos passando por ele em 2001 e provavelmente o teremos em 2002, em 2003...” Outra possibilidade é o aproveitamento dos resíduos da fabricação de papel e celulose...

PLANETA – Que é uma das indústrias mais poluentes...

Bermann – Sim, e também consome muita energia elétrica. Com isso, poderiam ser obtidos 650 megawatts.

PLANETA – E por que o governo não adota uma política que desenvolva essas técnicas alternativas?

Bermann – Acho que, na verdade, está faltando bom senso para se efetivar, de forma mais adequada, uma política energética que seja condizente com os problemas de ordem ambiental, social, etc.

PLANETA – Foi noticiado há poucos meses que várias cidades argentinas da região de Bariloche estão investindo na energia eólica. No Brasil não poderia ser feito isso?

Bermann – Isso já está sendo feito, com relativo sucesso, no litoral do Ceará, que é o Estado em que a escala da energia eólica é a mais pronunciada atualmente.

PLANETA – Essa, sim, é uma energia totalmente limpa?

Bermann – Os ambientalistas chamam a atenção, por exemplo, para o fato de que as pás acabam decepando a cabeça dos pássaros; essas coisas não podem ser desconsideradas na hora em que você faz a avaliação. Mas a eólica tem alguns pontos extremamente positivos. A área embaixo das turbinas pode ser utilizada para plantação, por exemplo. Existem problemas de ordem ambiental de ruído. Na Califórnia, onde as fazendas de vento são mais disseminadas, durante muito tempo as comunidades vizinhas se queixaram da necessidade de se ter uma cobertura vegetal que pudesse diminuir o ruído, que é intermitente, por conta do giro daqueles aerogeradores. De qualquer forma, em Fortaleza há duas usinas de grande dimensão, cada uma com 15 megawatts,  que vendem hoje energia para a Companhia de Eletricidade do Estado do Ceará. Foi feito um atlas para levantar qual é o potencial de aproveitamento de vento no litoral brasileiro. Além do Ceará, o Rio Grande do Norte e a Paraíba aparecem como áreas em que esse potencial de geração poderia ser bem desenvolvido. Está faltando também uma atenção maior em relação a isso. É preciso que se pare de ver essas alternativas como soluções malucas, e que elas sejam entendidas como opções práticas e viáveis economicamente.

proxima>>


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