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Geomancia
Nas Origens do Feng
Shui
Nascido
como uma arte oculta a serviço do imperador chinês, o feng
shui influenciou não só a arquitetura, mas diversos aspectos
da vida cotidiana dos orientais. A prática chegou ao Ocidente
em uma versão new age, condenada pelas linhas mais tradicionalistas.
Por
Marco Lopez
No
lado leste da Praça da Paz Celestial, bem no centro
de Pequim, um prédio cinzento, atarracado, de arquitetura
tipicamente stalinista, abriga dois museus, segundo os guias
turísticos. Na prática, é impossível
saber onde termina o Museu de História da China e onde
começa o Museu da Revolução. Entre 1966
e 1978 ambos estiveram fechados, enquanto guardas vermelhos
e censores do Partido Comunista Chinês reescreviam a
história e arrumavam (leia-se depredavam) as coleções
para adaptá-las à ideologia oficial, eliminando
documentos incômodos e personagens então em desgraça.
Mesmo depois de reinaugurados, o acesso aos dois museus dependeu
durante quase uma década de permissão especial,
muitas vezes negada a estrangeiros. Com a crescente abertura
da China, a partir de meados dos anos 80, as visitas passaram
a ser livres, mas, para não se perder nesse verdadeiro
labirinto, é indispensável gastar a ninharia
de 5 yuans e comprar um livrete em inglês com a sinopse
das exposições.
Numa sala que, segundo esse guia, faz parte do Museu da Revolução
e é dedicada ao Período da Terceira Guerra Civil
(1945-1949), o visitante vai encontrar uma vitrine repleta
de objetos, como canetas, pistolas ou binóculos, usados
por Mao Tsé-tung durante a Longa Marcha, a épica
jornada que o levaria ao poder absoluto no país mais
populoso do planeta. Entre os artigos de uso pessoal do Grande
Timoneiro ocupa lugar de destaque uma pequena peça
de madeira envelhecida, com formato circular, repleta de caracteres
chineses indicando os pontos cardeais, suas respectivas subdivisões
e outros detalhes de significado nebuloso. No centro da caixinha
redonda, uma agulha magnética aponta permanentemente
para o norte, a direção da Tartaruga Negra,
e para o sul, quadrante da Fênix Escarlate. (Os outros
animais associados aos principais pontos cardeais são
o Tigre Branco, no Oeste, e o Dragão Verde ou Cerúleo,
do leste.) O objeto é uma Lo Pan, a bússola
usada por praticantes de feng shui, a milenar geomancia chinesa.
Não chega a ser surpresa a presença dessa bússola
entre os objetos pessoais de Mao Tsé-tung, tido em
seu tempo como baluarte do materialismo dialético (ou
seria do materialismo histórico?). Afinal, a lenda
contada mais tarde, entre veteranos da campanha que levou
à vitória da revolução comunista
na China, diz que não apenas na Longa Marcha, mas também
em vários outros episódios de sua vida política,
militar e pessoal, o Grande Timoneiro fez uso da tradicional
arte chinesa da geomancia.
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Marco
Lopez
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| Dragão
Verde ou Cerúleo: animal místico associado pelos orientais
à direção leste. |
Essa
associação com o poder e com a luta por seu
controle está na própria origem do feng shui,
em princípio uma arte oculta a serviço exclusivo
do imperador chinês. Praticada na China há pelo
menos quatro mil anos, a geomancia começou a tomar
sua presente forma no período histórico chamado
em chinês (mandarim) de Chan-Kuo ou Zhanguo (depende
do sistema de transliteração usado), em portu-guês
Estados Guerreiros. O nome, derivado do clássico
da literatura chinesa Chan Kuo tse (Intrigas dos
Estados Guerreiros), refere-se a uma fase que durou
mais de dois séculos, entre 475 a.C. e 221 a.C., quando
seis ou sete pequenos reinos belicosos travavam guerras permanentes
em busca da supremacia inquestionável.
Era
uma época de caos, combates intermináveis, fome
e destruição. Mas também de grandes chances
para negócios (na maioria escusos), abertura de estradas
para deslocamento de exércitos, logo seguidos por comerciantes,
e desenvolvimento de novas tecnologias, como bússolas,
tábuas aritméticas de multiplicação,
fundição de ferro e projetos de irrigação
e engenharia hidráulica e naval. O objetivo principal
do governante de cada Estado era adquirir riquezas e poderio
militar para impor-se definitivamente aos rivais, personificando
o mito ancestral do grande unificador do país. Isso
abria oportunidades de empregos regiamente remunerados para
acadêmicos e filósofos, que vagavam pela China
oferecendo-se como estrategistas aos senhores das guerras
locais.
Não
por acaso, data do Período dos Estados Guerreiros o
florescimento das chamadas Cem Escolas de Filosofia
e o surgimento de Confúcio, com sua doutrina destacando
a importância da virtude e sabedoria aos governantes
e da disciplina, lealdade e dedicação dos governados.
Entre os segredos que faziam parte do arsenal de cada um desses
filósofos-estrategistas estavam conceitos passados
através das gerações e agrupados em torno
de dois ideogramas chineses: feng (vento) e shui (água).
Os ideogramas evocam para os chineses os tempos antigos, quando
o vento era considerado sopro divino, e enorme atenção
era dada à direção para onde soprava,
uma vez que ele sinalizava os desejos dos céus. A água,
por sua vez, sempre foi indispensável a qualquer comunidade.
Representa não só a fonte da vida, mas também
oferece os meios para que a civilização prospere
economicamente, fornecendo canais de comunicação
e transporte através dos rios.
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