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Reconectando: Ambiente

Edição 346 -Julho 2001
 

Geomancia
Nas Origens do Feng Shui

Nascido como uma arte oculta a serviço do imperador chinês, o feng shui influenciou não só a arquitetura, mas diversos aspectos da vida cotidiana dos orientais. A prática chegou ao Ocidente em uma versão new age, condenada pelas linhas mais tradicionalistas.

Por Marco Lopez

Regis Filho

No lado leste da Praça da Paz Celestial, bem no centro de Pequim, um prédio cinzento, atarracado, de arquitetura tipicamente stalinista, abriga dois museus, segundo os guias turísticos. Na prática, é impossível saber onde termina o Museu de História da China e onde começa o Museu da Revolução. Entre 1966 e 1978 ambos estiveram fechados, enquanto guardas vermelhos e censores do Partido Comunista Chinês reescreviam a história e arrumavam (leia-se depredavam) as coleções para adaptá-las à ideologia oficial, eliminando documentos incômodos e personagens então em desgraça. Mesmo depois de reinaugurados, o acesso aos dois museus dependeu durante quase uma década de permissão especial, muitas vezes negada a estrangeiros. Com a crescente abertura da China, a partir de meados dos anos 80, as visitas passaram a ser livres, mas, para não se perder nesse verdadeiro labirinto, é indispensável gastar a ninharia de 5 yuans e comprar um livrete em inglês com a sinopse das exposições.

Numa sala que, segundo esse guia, faz parte do Museu da Revolução e é dedicada ao Período da Terceira Guerra Civil (1945-1949), o visitante vai encontrar uma vitrine repleta de objetos, como canetas, pistolas ou binóculos, usados por Mao Tsé-tung durante a Longa Marcha, a épica jornada que o levaria ao poder absoluto no país mais populoso do planeta. Entre os artigos de uso pessoal do Grande Timoneiro ocupa lugar de destaque uma pequena peça de madeira envelhecida, com formato circular, repleta de caracteres chineses indicando os pontos cardeais, suas respectivas subdivisões e outros detalhes de significado nebuloso. No centro da caixinha redonda, uma agulha magnética aponta permanentemente para o norte, a direção da Tartaruga Negra, e para o sul, quadrante da Fênix Escarlate. (Os outros animais associados aos principais pontos cardeais são o Tigre Branco, no Oeste, e o Dragão Verde ou Cerúleo, do leste.) O objeto é uma Lo P’an, a bússola usada por praticantes de feng shui, a milenar geomancia chinesa. Não chega a ser surpresa a presença dessa bússola entre os objetos pessoais de Mao Tsé-tung, tido em seu tempo como baluarte do materialismo dialético (ou seria do materialismo histórico?). Afinal, a lenda contada mais tarde, entre veteranos da campanha que levou à vitória da revolução comunista na China, diz que não apenas na Longa Marcha, mas também em vários outros episódios de sua vida política, militar e pessoal, o Grande Timoneiro fez uso da tradicional arte chinesa da geomancia.

Marco Lopez
Regis Filho
Dragão Verde ou Cerúleo: animal místico associado pelos orientais à direção leste.

Essa associação com o poder e com a luta por seu controle está na própria origem do feng shui, em princípio uma arte oculta a serviço exclusivo do imperador chinês. Praticada na China há pelo menos quatro mil anos, a geomancia começou a tomar sua presente forma no período histórico chamado em chinês (mandarim) de Chan-Kuo ou Zhanguo (depende do sistema de transliteração usado), em portu-guês “Estados Guerreiros”. O nome, derivado do clássico da literatura chinesa Chan Kuo ts’e (“Intrigas dos Estados Guerreiros”), refere-se a uma fase que durou mais de dois séculos, entre 475 a.C. e 221 a.C., quando seis ou sete pequenos reinos belicosos travavam guerras permanentes em busca da supremacia inquestionável.

Era uma época de caos, combates intermináveis, fome e destruição. Mas também de grandes chances para negócios (na maioria escusos), abertura de estradas para deslocamento de exércitos, logo seguidos por comerciantes, e desenvolvimento de novas tecnologias, como bússolas, tábuas aritméticas de multiplicação, fundição de ferro e projetos de irrigação e engenharia hidráulica e naval. O objetivo principal do governante de cada Estado era adquirir riquezas e poderio militar para impor-se definitivamente aos rivais, personificando o mito ancestral do grande unificador do país. Isso abria oportunidades de empregos regiamente remunerados para acadêmicos e filósofos, que vagavam pela China oferecendo-se como estrategistas aos senhores das guerras locais.

Não por acaso, data do Período dos Estados Guerreiros o florescimento das chamadas “Cem Escolas de Filosofia” e o surgimento de Confúcio, com sua doutrina destacando a importância da virtude e sabedoria aos governantes e da disciplina, lealdade e dedicação dos governados. Entre os segredos que faziam parte do arsenal de cada um desses filósofos-estrategistas estavam conceitos passados através das gerações e agrupados em torno de dois ideogramas chineses: feng (vento) e shui (água). Os ideogramas evocam para os chineses os tempos antigos, quando o vento era considerado sopro divino, e enorme atenção era dada à direção para onde soprava, uma vez que ele sinalizava os desejos dos céus. A água, por sua vez, sempre foi indispensável a qualquer comunidade. Representa não só a fonte da vida, mas também oferece os meios para que a civilização prospere economicamente, fornecendo canais de comunicação e transporte através dos rios.


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