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Edição 344

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TURISMO

Lençóis Maranhenses
Um Capricho da Criação

Foto:  Greenpeace
Vista parcial dos Lençóis Maranhenses, na região de Barreirinhas: paisagem deslumbrante.

Saindo de São Luís, dois caminhos levam ao município de Barreirinhas, principal entrada para os Lençóis Maranhenses: um por ar, outro literalmente por terra, já que boa parte dos cerca de 350 km que separam as duas cidades é, de fato, de chão batido.

Mesmo assim, em vez de dar preferência a 40 minutos de vôo num monomotor, acabei optando por dez horas de percurso em um ônibus comum. Tinha eu boas razões para isso. Além de não me agradar a idéia de voar em um avião tão pequeno, sempre achei que a melhor forma de se conhecer a cultura de um lugar é misturar-se a seu povo. Pois estava ali uma boa chance para isso.

Foto:  Greenpeace
Lagoa Azul, um dos principais pontos turísticos do parque nacional: águas esverdeadas.

A viagem – não nego – é uma grande aventura, contra-indicada para quem elegeu o conforto como item prioritário em qualquer situação. O ônibus simples, a estrada precária e o calor escaldante da região, com certeza, seriam motivos suficientes para desagradar aos mais exigentes. Para mim, porém, tudo isso acabou sendo compensado pelo gratificante contato com a gente maranhense.

Bem-humorado e falador, o motorista do ônibus em que viajava passou quase todo o percurso contando animadas histórias para alguns dos passageiros. Pena estar sentada tão distante; com tantos casos, dava pra escrever um livro.

No meio do caminho, ele desceu para desatolar um caminhão; pacientemente sentou ao volante, em poucos minutos, livrou as rodas da terra e da areia. Pouco mais à frente, nova parada para apanhar cajus na beira da estrada. Encantada com a paisagem, com o céu azul e a simplicidade daquela gente, eu nem percebia o tempo passar. Em determinada altura, uma mulher na minha frente começou a se agitar no corredor do ônibus, preocupada em não deixar passar o local onde devia descer. Atento aos seus movimentos, em bom sotaque nordestino, o motorista avisou lá da frente: “Senhora, não se preocupe, eu sei onde é o seu ponto. Tem até dois táxis à sua espera!”

Foto:  Greenpeace
Rio Preguiça: nome justificado pela constante tranqüilidade da correnteza.

Fiquei esperando o desenrolar da história. Pois não é que ele sabia mesmo! Quando a mulher desembarcou, olhei pela janela e lá estavam os “táxis”: dois burrinhos aparelhados para carregar as compras que ela havia feito na capital. Não pude deixar de rir, admirada com o bom humor daquele homem simples, que acabava encontrando no duro ofício motivos de diversão.

Chegamos a Barreirinhas já no início da noite. Na entrada da pequena cidade, um tumulto: vários carros haviam atolado, vítimas da areia trazida das dunas pelo vento. Mais uma vez, nosso ousado motorista deu provas do seu conhecimento ao volante: passou ileso pela confusão, deixando atrás de si um rastro de aplausos e ovações. Cheguei à conclusão de que, além de grande experiência e humor, ele devia ter também muita fé e autoconfiança.

Foto:  Greenpeace
Área próxima a uma das lagoas: mundo surreal.

No dia seguinte, depois de uma merecida noite de sono, parti para conhecer os Lençóis. Tudo foi arranjado ali mesmo no hotel: o guia, o veículo apropriado (com tração nas quatro rodas) e as companheiras de viagem. Ainda nas proximidades do centro da cidade, nos deparamos com o Rio Preguiça – nome perfeitamente justificado pelo sossego de suas águas. A morosidade da paisagem, no entanto, contrastava com o esforço humano despendido para se fazer a travessia do rio: carro e passageiros são levados até a outra margem sobre uma balsa movimentada por cordas e pela força de dois homens mergulhados na água. Fiquei, ao mesmo tempo, encantada e chocada com o primitivismo do processo, plenamente explicado pelas condições econômicas e sociais daquele pedaço do Maranhão.

Foto:  Greenpeace
Duna de 50 metros: sacrifício recompensado pela natureza.

Depois de cerca de 40 minutos de percurso, finalmente chegamos ao nosso destino: a Lagoa Azul, cujas águas – na verdade, esverdeadas – são uma bênção divina. O sol escaldante de quase meio-dia dava à areia fina uma temperatura insuportável. Qualquer que seja o horário, porém, boné, trajes confortáveis e que não exponham muito o corpo, bloqueador solar e óculos escuros são ali indispensáveis. Caminhar descalço, nem pensar; o ideal é colocar um chinelo de tiras, desses que se usam na praia.

Foto:  Greenpeace
Pé de buriti: espécie comum na região.

Criado em 1981, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses tem uma área correspondente ao município de São Paulo. São 155 mil hectares de areia finíssima separando o Rio Preguiça do Atlântico. Donas de um dinamismo todo próprio, as dunas, que, em geral, atingem de 20 a 40 metros de altura, mudam de lugar de acordo com a dança dos ventos, provocando grandes transformações no ecossistema da região. Por isso, não raro, em meio ao areal, encontra-se uma ou outra planta – resquícios do mangue tragado pela areia.

Embora os Lençóis sejam conhecidos como o “deserto brasileiro”, a região recebe 1.600 mililitros de chuva por ano, índice considerável perto dos menos de 5 ml anuais do Saara. A densidade pluviométrica é mais intensa de janeiro a julho, durante o chamado verão nordestino, quando se forma ali um número maior de lagoas.

Foto:  Greenpeace
Lagoa Bonita: beleza produzida pelas chuvas.

Depois de visitar a primeira lagoa, meu grupo e eu partimos para a Lagoa Bonita – esta, sim, azul. Chegar até ela, no entanto, requer um esforço quase heróico: subir uma fofa e quente montanha de areia, que mede cerca de 50 metros de altura. A mãe-natureza, porém, jamais cobra em vão. Depois de todo o sacrifício, a grande recompensa: uma estonteante paisagem de dunas, caprichosamente desenhada pelo vento. Bem mais à frente, a grande lagoa azulada. Nenhuma palavra pode transmitir com precisão a sensação de se estar diante daquele mundo imenso, vazio, mas, ao mesmo tempo, tão repleto de Deus. Ali, o Criador parece, mais uma vez, ter superado a si mesmo no exercício da criação.

Foto:  Greenpeace
Passeio pelas dunas: imensidão
sem fim.

A área em torno das duas lagoas é uma pequena fatia do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. Uma opção para quem deseja ficar mais dias na região é descer o Rio Preguiça de barco e explorar os locais em torno de povoados próximos, como Caburé e Atins. Como estava decidida a seguir meu roteiro, rumo ao Delta do Rio Parnaíba, acabei adiando a aventura para quando voltar ao Maranhão. Até lá, deixo ao espírito o privilégio de, vez ou outra, passear à solta por toda aquela imensidão.


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