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Lençóis
Maranhenses
Um Capricho da Criação
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| Vista
parcial dos Lençóis Maranhenses, na região
de Barreirinhas: paisagem deslumbrante. |
Saindo
de São Luís, dois caminhos levam ao município
de Barreirinhas, principal entrada para os Lençóis
Maranhenses: um por ar, outro literalmente por terra, já
que boa parte dos cerca de 350 km que separam as duas cidades é,
de fato, de chão batido.
Mesmo assim, em vez de dar preferência a 40 minutos de vôo
num monomotor, acabei optando por dez horas de percurso em um ônibus
comum. Tinha eu boas razões para isso. Além de não
me agradar a idéia de voar em um avião tão
pequeno, sempre achei que a melhor forma de se conhecer a cultura
de um lugar é misturar-se a seu povo. Pois estava ali uma
boa chance para isso.
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| Lagoa
Azul, um dos principais pontos turísticos do parque nacional:
águas esverdeadas. |
A
viagem não nego é uma grande aventura,
contra-indicada para quem elegeu o conforto como item prioritário
em qualquer situação. O ônibus simples, a estrada
precária e o calor escaldante da região, com certeza,
seriam motivos suficientes para desagradar aos mais exigentes. Para
mim, porém, tudo isso acabou sendo compensado pelo gratificante
contato com a gente maranhense.
Bem-humorado
e falador, o motorista do ônibus em que viajava passou quase
todo o percurso contando animadas histórias para alguns dos
passageiros. Pena estar sentada tão distante; com tantos
casos, dava pra escrever um livro.
No
meio do caminho, ele desceu para desatolar um caminhão; pacientemente
sentou ao volante, em poucos minutos, livrou as rodas da terra e
da areia. Pouco mais à frente, nova parada para apanhar cajus
na beira da estrada. Encantada com a paisagem, com o céu
azul e a simplicidade daquela gente, eu nem percebia o tempo passar.
Em determinada altura, uma mulher na minha frente começou
a se agitar no corredor do ônibus, preocupada em não
deixar passar o local onde devia descer. Atento aos seus movimentos,
em bom sotaque nordestino, o motorista avisou lá da frente:
Senhora, não se preocupe, eu sei onde é o seu
ponto. Tem até dois táxis à sua espera!
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| Rio
Preguiça: nome justificado pela constante tranqüilidade
da correnteza. |
Fiquei
esperando o desenrolar da história. Pois não é
que ele sabia mesmo! Quando a mulher desembarcou, olhei pela janela
e lá estavam os táxis: dois burrinhos
aparelhados para carregar as compras que ela havia feito na capital.
Não pude deixar de rir, admirada com o bom humor daquele
homem simples, que acabava encontrando no duro ofício motivos
de diversão.
Chegamos
a Barreirinhas já no início da noite. Na entrada da
pequena cidade, um tumulto: vários carros haviam atolado,
vítimas da areia trazida das dunas pelo vento. Mais uma vez,
nosso ousado motorista deu provas do seu conhecimento ao volante:
passou ileso pela confusão, deixando atrás de si um
rastro de aplausos e ovações. Cheguei à conclusão
de que, além de grande experiência e humor, ele devia
ter também muita fé e autoconfiança.
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| Área
próxima a uma das lagoas: mundo surreal. |
No
dia seguinte, depois de uma merecida noite de sono, parti para conhecer
os Lençóis. Tudo foi arranjado ali mesmo no hotel:
o guia, o veículo apropriado (com tração nas
quatro rodas) e as companheiras de viagem. Ainda nas proximidades
do centro da cidade, nos deparamos com o Rio Preguiça
nome perfeitamente justificado pelo sossego de suas águas.
A morosidade da paisagem, no entanto, contrastava com o esforço
humano despendido para se fazer a travessia do rio: carro e passageiros
são levados até a outra margem sobre uma balsa movimentada
por cordas e pela força de dois homens mergulhados na água.
Fiquei, ao mesmo tempo, encantada e chocada com o primitivismo do
processo, plenamente explicado pelas condições econômicas
e sociais daquele pedaço do Maranhão.
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| Duna
de 50 metros: sacrifício recompensado pela natureza. |
Depois
de cerca de 40 minutos de percurso, finalmente chegamos ao nosso
destino: a Lagoa Azul, cujas águas na verdade, esverdeadas
são uma bênção divina. O sol escaldante
de quase meio-dia dava à areia fina uma temperatura insuportável.
Qualquer que seja o horário, porém, boné, trajes
confortáveis e que não exponham muito o corpo, bloqueador
solar e óculos escuros são ali indispensáveis.
Caminhar descalço, nem pensar; o ideal é colocar um
chinelo de tiras, desses que se usam na praia.
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| Pé
de buriti: espécie comum na região. |
Criado
em 1981, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses
tem uma área correspondente ao município de São
Paulo. São 155 mil hectares de areia finíssima separando
o Rio Preguiça do Atlântico. Donas de um dinamismo
todo próprio, as dunas, que, em geral, atingem de 20 a 40
metros de altura, mudam de lugar de acordo com a dança dos
ventos, provocando grandes transformações no ecossistema
da região. Por isso, não raro, em meio ao areal, encontra-se
uma ou outra planta resquícios do mangue tragado pela
areia.
Embora os Lençóis sejam conhecidos como o deserto
brasileiro, a região recebe 1.600 mililitros de chuva
por ano, índice considerável perto dos menos de 5
ml anuais do Saara. A densidade pluviométrica é mais
intensa de janeiro a julho, durante o chamado verão nordestino,
quando se forma ali um número maior de lagoas.
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| Lagoa
Bonita: beleza produzida pelas chuvas. |
Depois
de visitar a primeira lagoa, meu grupo e eu partimos para a Lagoa
Bonita esta, sim, azul. Chegar até ela, no entanto,
requer um esforço quase heróico: subir uma fofa e
quente montanha de areia, que mede cerca de 50 metros de altura.
A mãe-natureza, porém, jamais cobra em vão.
Depois de todo o sacrifício, a grande recompensa: uma estonteante
paisagem de dunas, caprichosamente desenhada pelo vento. Bem mais
à frente, a grande lagoa azulada. Nenhuma palavra pode transmitir
com precisão a sensação de se estar diante
daquele mundo imenso, vazio, mas, ao mesmo tempo, tão repleto
de Deus. Ali, o Criador parece, mais uma vez, ter superado a si
mesmo no exercício da criação.
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Passeio
pelas dunas: imensidão
sem fim. |
A
área em torno das duas lagoas é uma pequena fatia
do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. Uma opção
para quem deseja ficar mais dias na região é descer
o Rio Preguiça de barco e explorar os locais em torno de
povoados próximos, como Caburé e Atins. Como estava
decidida a seguir meu roteiro, rumo ao Delta do Rio Parnaíba,
acabei adiando a aventura para quando voltar ao Maranhão.
Até lá, deixo ao espírito o privilégio
de, vez ou outra, passear à solta por toda aquela imensidão.
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