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Transcendendo: Mente

Edição 344 - Maio 2001
  Agorafobia
Para Vencer o Pânico

Cada vez mais comum, a agorafobia e outros tipos de ansiedade patológica transformam em verdadeira batalha a rotina de inúmeras pessoas que tentam manter um estilo de vida dentro da normalidade.

Por Ramiro J. Álvarez

Munch, O Grito, Galeria Nacional de Oslo

Dedicaremos este espaço à mais complexa, persistente e limitadora das manifestações fóbicas, já que sua incidência entre a população que atualmente segue algum tipo de tratamento psicoterápico é bastante elevada; o grau de angústia que se experimenta nessa situação é muito alto, e a natureza desse quadro costuma ser mal compreendida, tanto por quem sofre dele como por quem tenta ajudar o agorafóbico a superar sua paralisadora angústia.

Em primeiro lugar, convém deixar claro que, apesar de o nome técnico desse quadro de angústia provir da palavra grega ágora (= praça), as vivências de ansiedade patológica às quais se refere não se limitam a experimentar terror apenas em espaços abertos (esplanadas, planícies, praias largas ou similares), e sim que o intrincado da angústia é muito mais complexo e sutil, chegando a abranger uma ampla variedade de situações ambientais, muitas vezes aparentemente contrapostas.

Alguns autores preferem conferir a essa complexa forma de comportamento de evitação o nome de “ataques de pânico”, fazendo referência mais à vivência de angústia experimentada pelo indivíduo do que a possíveis situações ambientais desencadeadoras desse estado. Porque, como veremos, esse distúrbio de ansiedade não se apresenta associado a uma situação específica e determinada, como os outros quadros fóbicos, mas surge em relação a certo tipo de temores internos que o próprio indivíduo condicionou (associou) a numerosas experiências vitais.

O caso de João é representativo: sua duração estendeu-se ao longo de 16 anos(!), e as diferentes fases e complicações que foi experimentando em seu curso podem ilustrar bem a enorme complexidade que tal distúrbio encerra. Por isso me estenderei um pouco em descrever e comentar esse exemplo.

João, atualmente um brilhante profissional com todo um futuro esplêndido pela frente, era um jovem de compleição atlética quando, pela primeira vez, aos 17 anos, experimentou um ataque de ansiedade. Nos meses anteriores, tinha presenciado casualmente, na mesma rua que costumava passear com seus amigos, três casos de desmaios, tendo chegado uma das pessoas a ferir-se seriamente ao bater o rosto contra o asfalto. João – que, por sua parte, tinha propensão a hemorragias nasais – começou a desenvolver uma espécie de apreensão diante da possibilidade de que lhe acontecesse um acidente desse tipo na rua. Quer dizer, começou a relacionar a angústia por ele mesmo produzida com determinados ambientes ou situações relacionadas com a rua.

O primeiro ataque de pânico sobreveio-lhe em um domingo, enquanto assistia a uma função religiosa em meio a um bom número de pessoas: o ambiente abafado disparou seu alarme mental sobre um possível perigo (exagerado) de falta de ar e desfalecimento; pensamentos ansiógenos que, por sua vez, puseram em marcha os mecanismos fisiológicos correspondentes aos comportamentos de fuga: aumento do batimento cardíaco, sudorese nas palmas das mãos, respiração entrecortada... – os sinais orgânico-anímicos, que contribuíram para fechar o circuito de autogeração de angústia, porquanto o mesmo João as interpretava como sinal inequívoco da iminência de uma crise cardíaca ou algo similar.

Quando, em luta com sua angústia, e depois de comunicar a um colega que se sentia mal e pedir-lhe que o acompanhasse à saída, João se viu fora da situação angustiante inicial, começou a sentir-se muito melhor. No entanto, o susto tinha sido suficientemente forte para que procurasse a ajuda do médico de cabeçeira, o qual, após o oportuno reconhecimento e constatação de que o estado de saúde do jovem era invejável, diagnosticou-lhe um distúrbio psicossomático, prescrevendo-lhe alguns tranqüilizantes. Como João já se sentia tranqüilo e confiava plenamente na eficácia do tratamento prescrito, resolveu provar a si mesmo os progressos que obtivera, introduzindo-se em uma situação similar à primeira (dessa vez, num cinema abarrotado de espectadores). Quando, passados poucos minutos, voltou a experimentar idênticos sintomas aos da vez anterior, vendo-se de novo obrigado a sair literalmente fugindo da sala, toda sua boa disposição veio abaixo. Seus níveis de ansiedade flutuante dispararam com a idéia de que alguma coisa não ia bem em seu organismo.

Leia Mais:

Para Vencer o Pânico

Ansiedade agravada

Medo do medo

Superando a agorafobia

 


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