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Dilema
Humano
Livre-arbítrio
Há
milhares de anos, os homens vêem-se diante de uma grande dúvida
existencial: somos seres livres ou estamos condenados às determinações
do destino? Tanto a mitologia grega como as cartas do tarô
têm importantes lições para nos dar sobre isso.
Texto
de Paulo Urban
O
livre-arbítrio existe? Somos de fato seres livres?
Temos realmente permissão para fazer tudo aquilo que
queremos, já guardado o respeito pela liberdade alheia?
Ou nascemos destinados a experimentar a sensação
de que agimos livremente dentro de certas possibilidades
já previstas desde o início? Tudo o que fazemos
na vida nada mais é do que cumprir um risco já
traçado, ou escolhemos, passo a passo, o caminho por
onde seguir, imprimindo ao longo dele nosso rastro pessoal
ao qual chamamos liberdade?
De
fato, sempre que assumimos um comportamento ético
frente à vida, obrigamo-nos a certas atitudes que bem
nos revelam quão relativa é nossa liberdade
diante dos conflitos que nos são impostos, dilemas
aos quais chamamos destino. Então, escolhemos sofrer
ou a dor é atributo inerente à existência?
Sofrer é o destino dos mortais, diria Eurípedes
(485-406 a.C.), poeta trágico. A essa máxima,
o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre (1905-1980)
traria o contraponto: Estamos condenados a ser livres.
Uma angustiante verdade! Afinal, toda ação humana
pressupõe dor, não só a imediata, que
nos força a optar por algo em detrimento de todo o
resto que deixamos, como a dor seguinte, previsível
ou não, acarretada pelas conseqüências que
advêm de tais escolhas.
O destino, na verdade, parece aquele irmão ciumento,
invejoso da capacidade humana de ser livre. E não raro
ele é cruel, capaz de enredar em suas malhas as nossas
frágeis liberdades diferenciadas, dignas de compaixão.
Os gregos, em época bem anterior a Homero (séc.
9 a.C.), já admitiam que nossa existência, desde
o instante do nascimento, estivesse predestinada. Imaginavam
no Olimpo, morada dos deuses, a presença das três
Moiras (Parcas, entre os romanos) a decidir tudo por nós.
Sem personificação no princípio, depois
representadas por figuras femininas, foram batizadas de Cloto,
aquela que fia; Láquesis, aquela
que mede ou lança a sorte; e Átropos (a,
sem; e tropein, voltar), que, inflexível, corta com
sua tesoura o fio de nossas vidas, sem jamais retroceder em
suas decisões. O termo Moira vem do verbo meiresthai,
designando aquilo que se obtém por sorte ou partilha.
Literalmente traduz-se por pedaço, quinhão,
aquilo que nos cabe por destino. Homero também
as denominava em seu dialeto árcade-cipriota de Aîsas,
cujo sentido é fiar.
Segundo
Hesíodo, poeta beócio do século 8
a.C., as Moiras são filhas de Nix, a Noite, que, por
sua vez é filha de Caos, o espaço aberto primordial,
do qual se originou o Cosmos. As Moiras pairam soberanas sobre
os homens e os deuses, estando elevadas a uma categoria distinta
e intocável. Expressam leis que nem mesmo Zeus ou outras
divindades podem transgredir, sob pena de que a ordem natural
do universo seja posta em risco. Quando isso acontece, Nêmesis,
a deusa da vingança, levanta-se perturbada de seu sono
para agir severamente no sentido de restabelecer o equilíbrio
no cosmos. Vejamos como isso se deu em dois clássicos
exemplos.
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