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ENTREVISTA
Inty Mendoza
Os
rituais religiosos
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| Homem
santo: ensinamentos
que inspiram toda a humanidade. |
PLANETA
Ao contrário da maioria das religiões
tradicionais
que pedem ao homem que tenha fé em um ou vários
seres superiores, vocês afirmam que a fé do indivíduo
em si mesmo é a única verdadeira. Explique-nos
por quê.
Inty
Principalmente por ser uma experiência pessoal.
Também considero muito importantes esses referenciais
externos para a constituição da fé, porque
transcendem um pouco as barreiras do nosso próprio
egoísmo, as limitações, etc. Mas, se
a fé não for uma experiência baseada na
própria compreensão de si mesmo, acaba sendo
mais um conceito, um paliativo para quando surge aquela sensação
de inao caminho, a verdade, a vida. Não basta
todo mundo falar isso e pronto, estamos todos resolvidos em
termos espirituais. É preciso acreditar naquele que
diz eu sou o caminho, a verdade e a vida por perceber
que tudo isso ecoa profundamente no meu próprio espírito,
na alma, na minha consciência. Ou seja, tudo o que Cristo,
no caso, manifestou ali é também um potencial
que eu carrego e que, na medida do possível, tenho
de despertar dentro de mim, principalmente.
PLANETA Ou seja, não seria uma fé
que larga tudo na mão de um deus ou de um santo poderoso.
Na verdade, com a ajuda deles, eu posso ser poderosa...
Inty Sem dúvida nenhuma, essa é
a grande mensagem que procuramos deixar com o livro. Não
é o deus poderoso que vai fazer algo pra você,
se você não quiser fazer alguma coisa por si
mesma.
PLANETA A fé ocidental é colocada,
em geral, em um ser exterior. Nós podemos considerar
que no Oriente esse processo é inverso?
Inty Não chega a ser inverso. Jung,
por exemplo, afirma que a religiosidade oriental é
mais introvertida e a ocidental é mais extrovertida,
por uma própria tendência psicológica
dessas duas culturas, porque isso se formou dessa maneira.
Utilizando um pouco essa imagem, dá para perceber que
a religiosidade do Oriente buscava mais o autoconhecimento,
era uma coisa mais meditativa; a tradição budista
e mesmo o taoísmo com seus mestres recolhidos nas montanhas
são um grande exemplo disso. Por outro lado, a fé
ocidental é mais coletiva e, nessa coletividade, você
acaba criando um referencial externo. Eu acredito, porém,
que estamos numa época em que não dá
para generalizar nesse ponto; fica tudo num meio de caminho.
Quer dizer, nem a religiosidade oriental é agora realmente
uma busca da compreensão de si mesmo, nem a ocidental
é voltada totalmente para o exterior. Eu
acho que, com o modo de vida que temos hoje, é muito
difícil mantermos o mesmo modo operante religioso de
séculos atrás. A nossa maneira de viver, de
pensar, as informações que chegam até
nós, tudo faz com que seja difícil. O grande
desafio do homem moderno, não importa a que religião
ele pertença, é estar trazendo essa tradição
milenar para o século 21, para essa loucura que estamos
vivendo. Puxar a fé para a fé na consciência,
para a fé em si mesmo, faz dessa proposta uma maneira
de qualquer pessoa, dentro de qualquer religião, se
alimentar das suas próprias raízes, da sua própria
fonte, e conseguir colocar isso na sua vida prática,
no seu cotidiano.
PLANETA Qual o papel dos rituais religiosos no desenvolvimento
da fé?
Inty O ritual é o exercício da
fé. Principalmente a questão da reverência
e do louvor ao deus em quem você tem fé. Mas
é difícil falar de rituais porque cada religião
desenvolve isso de uma maneira diferente. Particularmente,
eu acho que eles têm um significado muito grande, por
causa da simbologia que carregam. Os rituais eram, inclusive,
a maneira de os homens santos transmitirem seus ensinamentos.
Hoje, nossas informações circulam através
de livros, de uma palestra, da transmissão de conhecimento
formal. Eu acho que o ritual é a maneira mais antiga
de o ser humano ensinar, de passar para a frente uma experiência.
Creio e essa é uma teoria própria
que isso foi algo aprendido, observando-se a natureza: o ritual
das quatro estações, o ritual do dia e da noite,
dos ventos, etc. Talvez
o ritual religioso fosse um pouco essa ritualística
da natureza refletida na convivência entre os homens.
Por outro lado, a maneira mais direta de se transmitir algo
é permitir que o outro tenha essa mesma experiência.
PLANETA Mas, à medida que o homem vai
desenvolvendo aquela fé mais interior, os rituais não
vão se tornando supérfluos, menos necessários?
Inty Eu penso que eles vão encontrando
seu lugar justo. Eu acredito que, quando a fé em si
mesmo é desenvolvida, aí sim o ritual se torna
uma experiência verdadeira, não imposta. Podemos
achar que esse ritual institucionalizado é algo que
não nos serve mais. Mas as suas raízes são
uma experiência inspiradora, que vai nos ensinar muita
coisa. A partir do momento em que essa sensibilidade é
despertada dentro do indivíduo, o ritual se torna uma
coisa realmente importante, verdadeira em seu caminho; a missa
católica ou o oferecimento de incenso no budismo, por
exemplo, se tornam uma coisa profundamente integrada com aquele
processo interior que a pessoa está vivendo. Se essa
consciência foi despertada, a simbologia usada no rito
realmente expressa o que a pessoa está sentindo e buscando.
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