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Diversão
e Trancendência
O
lado esotérico dos jogos
Apesar
de serem reconhecidos hoje como meros instrumentos de diversão,
os jogos trazem em suas raízes um forte componente
esotérico.
Por Paulo Urban
Ninguém
sabe ao certo como os jogos nasceram, mas eles estão
atrelados às origens do homem. Encontráveis
em todas as culturas milenares, muitas vezes associados às
práticas oraculares, os jogos sempre disseram maior
respeito ao sagrado do que ao profano, e tradicionalmente
representam nosso universo mítico.
Difícil definir o jogo. Mesmo sendo fundamentalmente
um símbolo de luta, a representar o homem em sua lide
cotidiana, objetivando seus passos no intuito de vencer os
obstáculos do caminho, o jogo não se resume
simplesmente à atividade lúdica que proporciona.
Ele engloba todo o conjunto de peças, figuras, tabuleiro,
cartas ou outros elementos que o componham, a enriquecer seu
significado, tornando-o por vezes algo complexo, verdadeiro
espelho da entrelaçada teia dos eventos cósmicos.
Desde os primórdios, os homens intuíram
que o universo traz em si uma só constante: a mudança.
Heráclito de Éfeso (535-470 a.C.), pré-socrático,
afirmava ser impossível nos banharmos duas vezes no
mesmo rio. Tudo muda com o suceder dos instantes; o rio, assim
como nós, está fadado ao movimento ininterrupto,
por meio do que suas águas e nossas vidas se renovam.
Precedem Heráclito todas as culturas orientais, que
há séculos professavam uma mesma verdade religiosa;
taoístas e hindus, por exemplo, em sua cosmogonia,
enxergam as transformações da vida como uma
repetição sempre inédita
e criativa de padrões do espírito divino.
Saber
ler esses padrões da manifestação
divina sempre foi tarefa da consciência humana. Em seu
exercício de interpretação, o homem preocupa-se
em compreender-se, em desvendar segredos da natureza ou encontrar
o sentido da existência. E é a esse propósito
que os jogos têm servido. Seu funcionamento, ainda que
ditado pelas regras que lhe são inerentes, a lhe conferir
padrões, possibilita variações a cada
partida jogada, muitas vezes inusitadas situações
de risco ou de reviravolta que os tornam emocionantes e de
final imprevisível. O jogo, além disso, por
absorver a atenção dos que dele tomam parte,
exerce papel compensador em nosso psiquismo; transportando-nos
para uma realidade lúdica, permite-nos tranqüilizar
o espírito.
Tão grande é o prazer implícito
na arte de jogar que em sua prática reside igualmente
o risco de servir como veículo de excessiva canalização
da libido, quando, no mais das vezes, jogar torna-se um vício.
Mas, se bem dosada a aventura de seu exercício, presta-se,
antes de tudo, a abrir nossas vias de comunicação,
favorecendo a criatividade, despertando-nos a intuição.
Diríamos, sem risco de errar, que os jogos nos preparam
para o futuro e, pesquisando sua história, vemos que
sempre estiveram intimamente ligados a doutrinas iniciáticas,
às práticas mágicas e esotéricas,
especialmente a adivinhação.
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| Pelo
prazer que proporciona, o jogo pode tornar-se um vício
e colocar em risco o equilíbrio do homem.
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O
jogo de dados, por exemplo, um dos mais antigos do mundo,
deriva-se de práticas primitivas de se tirar
a sorte ou de se descobrir o futuro por meio do sim
ou do não. Essas técnicas oraculares rudimentares
trazem até nós os seus resquícios no
jogo universal do cara ou coroa. Lascas de ossos,
de casco de tartaruga ou pedaços de cerâmica
prestavam-se a esse fim. Na Antigüidade, por exemplo,
os gregos jogavam o popular óstrakon (citado na República,
de Platão), que era disputado entre dois grupos, geralmente
homens contra mulheres. Esse jogo consistia em atirar um caco
para o alto e observar qual de suas faces cairia voltada para
cima, se a mais clara ou a mais escura, a determinar qual
dos grupos deveria sair correndo para que o outro tivesse
de pegá-lo. Os dados de jogar, que também serviam
à adivinhação, eram comuns entre os romanos
e estão citados em três dos Evangelhos. Em Jo,
19, 23-24, lemos: Os soldados, depois de terem crucificado
Jesus, tomaram seus vestidos, e fizeram quatro partes, uma
para cada soldado, e a túnica (
). E disseram:
não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela, para
ver quem a tocará.
Observemos os dados. Se tomarmos quaisquer de suas
faces que sejam opostas entre si, a soma de seus valores é
sempre sete (um e seis, dois e cinco, três e quatro),
número considerado perfeito na cabala e na magia, ou
representante do total de chacras corporais, segundo o hinduísmo.
O sete é ainda a chave do Apocalipse de João
(sete igrejas, sete trombetas, sete selos, sete taças,
sete reis, etc.); além disso, representa a semana.
E sete são as esferas de Dante, os pecados capitais,
os estados da alma, os degraus da alquimia, etc.
Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta
de abordagem junguiana e acupunturista. Foi conselheiro do
Clube de Xadrez São Paulo no biênio 1986/87.
Contatos com o autor podem ser feitos pelo e-mail
paulourban@ig.com.br
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