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Transcendendo: Mente

Edição 342 - Março 2001
 

Diversão e Trancendência
O lado esotérico dos jogos

Apesar de serem reconhecidos hoje como meros instrumentos de diversão, os jogos trazem em suas raízes um forte componente esotérico.

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Por Paulo Urban

East News/Sipa-Press

Ninguém sabe ao certo como os jogos nasceram, mas eles estão atrelados às origens do homem. Encontráveis em todas as culturas milenares, muitas vezes associados às práticas oraculares, os jogos sempre disseram maior respeito ao sagrado do que ao profano, e tradicionalmente representam nosso universo mítico.

Difícil definir o jogo. Mesmo sendo fundamentalmente um símbolo de luta, a representar o homem em sua lide cotidiana, objetivando seus passos no intuito de vencer os obstáculos do caminho, o jogo não se resume simplesmente à atividade lúdica que proporciona. Ele engloba todo o conjunto de peças, figuras, tabuleiro, cartas ou outros elementos que o componham, a enriquecer seu significado, tornando-o por vezes algo complexo, verdadeiro espelho da entrelaçada teia dos eventos cósmicos.

Desde os primórdios, os homens intuíram que o universo traz em si uma só constante: a mudança. Heráclito de Éfeso (535-470 a.C.), pré-socrático, afirmava ser impossível nos banharmos duas vezes no mesmo rio. Tudo muda com o suceder dos instantes; o rio, assim como nós, está fadado ao movimento ininterrupto, por meio do que suas águas e nossas vidas se renovam. Precedem Heráclito todas as culturas orientais, que há séculos professavam uma mesma verdade religiosa; taoístas e hindus, por exemplo, em sua cosmogonia, enxergam as transformações da vida como uma “repetição sempre inédita” e criativa de padrões do espírito divino.

Saber ler esses padrões da manifestação divina sempre foi tarefa da consciência humana. Em seu exercício de interpretação, o homem preocupa-se em compreender-se, em desvendar segredos da natureza ou encontrar o sentido da existência. E é a esse propósito que os jogos têm servido. Seu funcionamento, ainda que ditado pelas regras que lhe são inerentes, a lhe conferir padrões, possibilita variações a cada partida jogada, muitas vezes inusitadas situações de risco ou de reviravolta que os tornam emocionantes e de final imprevisível. O jogo, além disso, por absorver a atenção dos que dele tomam parte, exerce papel compensador em nosso psiquismo; transportando-nos para uma realidade lúdica, permite-nos tranqüilizar o espírito.

Tão grande é o prazer implícito na arte de jogar que em sua prática reside igualmente o risco de servir como veículo de excessiva canalização da libido, quando, no mais das vezes, jogar torna-se um vício. Mas, se bem dosada a aventura de seu exercício, presta-se, antes de tudo, a abrir nossas vias de comunicação, favorecendo a criatividade, despertando-nos a intuição. Diríamos, sem risco de errar, que os jogos nos preparam para o futuro e, pesquisando sua história, vemos que sempre estiveram intimamente ligados a doutrinas iniciáticas, às práticas mágicas e esotéricas, especialmente a adivinhação.

Avani Steim
Pelo prazer que proporciona, o jogo pode tornar-se um vício e colocar em risco o equilíbrio do homem.

O jogo de dados, por exemplo, um dos mais antigos do mundo, deriva-se de práticas primitivas de se “tirar a sorte” ou de se descobrir o futuro por meio do sim ou do não. Essas técnicas oraculares rudimentares trazem até nós os seus resquícios no jogo universal do “cara ou coroa”. Lascas de ossos, de casco de tartaruga ou pedaços de cerâmica prestavam-se a esse fim. Na Antigüidade, por exemplo, os gregos jogavam o popular óstrakon (citado na República, de Platão), que era disputado entre dois grupos, geralmente homens contra mulheres. Esse jogo consistia em atirar um caco para o alto e observar qual de suas faces cairia voltada para cima, se a mais clara ou a mais escura, a determinar qual dos grupos deveria sair correndo para que o outro tivesse de pegá-lo. Os dados de jogar, que também serviam à adivinhação, eram comuns entre os romanos e estão citados em três dos Evangelhos. Em Jo, 19, 23-24, lemos: “Os soldados, depois de terem crucificado Jesus, tomaram seus vestidos, e fizeram quatro partes, uma para cada soldado, e a túnica (…). E disseram: não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela, para ver quem a tocará.”

Observemos os dados. Se tomarmos quaisquer de suas faces que sejam opostas entre si, a soma de seus valores é sempre sete (um e seis, dois e cinco, três e quatro), número considerado perfeito na cabala e na magia, ou representante do total de chacras corporais, segundo o hinduísmo. O sete é ainda a chave do Apocalipse de João (sete igrejas, sete trombetas, sete selos, sete taças, sete reis, etc.); além disso, representa a semana. E sete são as esferas de Dante, os pecados capitais, os estados da alma, os degraus da alquimia, etc.


Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta de abordagem junguiana e acupunturista. Foi conselheiro do Clube de Xadrez São Paulo no biênio 1986/87. Contatos com o autor podem ser feitos pelo e-mail paulourban@ig.com.br




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