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Religiosidade
Profunda
A
iluminação espiritual
A
iluminação o encontro com a nossa essência
espiritual é, na verdade, a grande meta de todo
ser humano. Embora cada qual tenha o seu próprio caminho
para atingi-la, a via que leva até ela inclui a prática
da simplicidade, da coragem e do desapego.
Por
Carlos Cardoso Aveline
O que
é iluminação
espiritual? Como podemos fazer dela um fator ativo em nossas
vidas? Pessoalmente não conheço questão
mais importante do que esta. Porém, o significado da
experiência religiosa depende inteiramente de cada um.
Algumas pessoas ficam contentes com a crença em um
Deus personalizado, a obediência a certos rituais e
a expectativa de uma salvação individual. Às
vezes o que sustenta a fé é a esperança
de um novo emprego ou de um bom casamento. Este tipo de religiosidade
corresponde a um certo grau de evolução da alma
humana. Não há maldade no processo.
Por
outro lado, existe a possibilidade de um significado muito
mais amplo na experiência religiosa. Quando atingimos
uma certa maturidade interior, deixamos de lado o apego a
formas externas, rituais, crenças cegas e outras maneiras
de não assumir responsabilidade total sobre nossas
vidas. Largando as muletas, desistindo de fugir da verdade,
descobrimos um significado imenso e transformador na experiência
religiosa. Percebemos que a nossa grande meta na vida é
encontrar a nossa própria essência no mundo espiritual,
enquanto agimos o mais corretamente possível no mundo
concreto.
É esse contato sem intermediários com
a alma imortal que é conhecido como iluminação.
De maneiras diferentes, mesmo tropeçando, todos caminhamos
para ela. A iluminação espiritual é uma
das necessidades mais profundas do ser humano. Ao mesmo tempo,
sabotamos nossa libertação interior porque ela
não vem até nós do modo como esperamos.
Freqüentemente
a bênção da sabedoria surge misturada
à dor, ao sacrifício ou à tragédia,
e então queremos fechar teimosamente os olhos para
ela. Na busca da plenitude espiritual, nos agarramos às
coisas que são conhecidas e agradáveis. Nem
sempre temos coragem de colocar em prática o conselho
dado por São João da Cruz, que recomendou o
seguinte, a quem deseja vencer as paixões entrelaçadas
de prazer, tristeza, medo e esperança: Procure
sempre inclinar-se não ao mais fácil, mas ao
mais difícil. Não ao mais saboroso, mas ao mais
insípido. Não ao mais agradável, mas
ao mais desagradável. Não ao descanso, mas ao
trabalho. Não ao consolo, mas à desolação.
Não ao mais, mas ao menos. Não ao mais alto
e precioso, mas ao mais baixo e desprezível. Não
a querer algo, e sim a nada querer.(São
João da Cruz, Obras Completas,
Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 4ª edição,
1996, p. 181.)
Essas são palavras de sabedoria. O desapego
é o caminho da felicidade. A iluminação
e a liberdade espiritual só surgem quando o egoísmo
dentro de nós é voluntariamente abandonado
ou quando ele entra em colapso. Em geral, o ser humano não
faz renúncias por vontade própria. Em conseqüência
disso, o despertar interior muitas vezes só ocorre
quando nossa vida atravessa uma grave tempestade. O indivíduo
redescobre então em um instante a sua esquecida insignificância
diante do cosmo. Quebra-se a couraça de vaidades, apegos
e comodidade, e a luz divina renova a paisagem. A pessoa encara
novamente a realidade total da vida como um processo precário
e maravilhoso, que se renova a cada dia, mas sempre provisoriamente.
A fragilidade da vida física e de todas as suas rotinas
mostra-nos, então, que a vida é fundamentalmente
espiritual e só secundariamente precária e material.
Descobrimos que há uma vida maior, interior, completamente
independente da maré inconstante das incertezas humanas.
É
perfeitamente natural claro rejeitar tudo
que é desagradável. Podemos fazê-lo em
tudo o que estiver ao nosso alcance. Mas essa liberdade deve
respeitar os fatos. Quando nosso desejo é incapaz de
mudar a realidade, insistir na rejeição da verdade
só nos causa mais sofrimento psicológico. É
sábio aceitar a vida como ela é, enquanto fazemos
o melhor possível com cada coisa que ela coloca ao
nosso alcance. Um pensador zen-budista escreveu: O nascimento,
a velhice, a doença e a morte, assim como a felicidade
e a desgraça, o
ganho e a perda, o amor e o ódio, todos estes são
instrumentos importantes para tecer o brocado da vida humana.
Um brocado não pode ser tecido com a única cor
da felicidade. Dados o tempo, o lugar e a ocasião,
tudo contém todas as cores. É des-
sa maneira que a Terra Pura, a Outra Margem, é encontrada
(365
Zen Sayings, daily readings,
Ed. by Jean Smith, HarperSanFrancisco, EUA, 1999, p. 337).
A terra pura e a outra margem são
símbolos da iluminação.
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