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Transcendendo: Alma

Edição 342 - Março 2001
  Religiosidade Profunda
A iluminação espiritual

A iluminação – o encontro com a nossa essência espiritual – é, na verdade, a grande meta de todo ser humano. Embora cada qual tenha o seu próprio caminho para atingi-la, a via que leva até ela inclui a prática da simplicidade, da coragem e do desapego.

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Por Carlos Cardoso Aveline

Ilustrações: Christiane S. Messias

O que é iluminação espiritual? Como podemos fazer dela um fator ativo em nossas vidas? Pessoalmente não conheço questão mais importante do que esta. Porém, o significado da experiência religiosa depende inteiramente de cada um. Algumas pessoas ficam contentes com a crença em um Deus personalizado, a obediência a certos rituais e a expectativa de uma salvação individual. Às vezes o que sustenta a fé é a esperança de um novo emprego ou de um bom casamento. Este tipo de religiosidade corresponde a um certo grau de evolução da alma humana. Não há maldade no processo.

Por outro lado, existe a possibilidade de um significado muito mais amplo na experiência religiosa. Quando atingimos uma certa maturidade interior, deixamos de lado o apego a formas externas, rituais, crenças cegas e outras maneiras de não assumir responsabilidade total sobre nossas vidas. Largando as muletas, desistindo de fugir da verdade, descobrimos um significado imenso e transformador na experiência religiosa. Percebemos que a nossa grande meta na vida é encontrar a nossa própria essência no mundo espiritual, enquanto agimos o mais corretamente possível no mundo concreto.

É esse contato sem intermediários com a alma imortal que é conhecido como iluminação. De maneiras diferentes, mesmo tropeçando, todos caminhamos para ela. A iluminação espiritual é uma das necessidades mais profundas do ser humano. Ao mesmo tempo, sabotamos nossa libertação interior porque ela não vem até nós do modo como esperamos.

Freqüentemente a bênção da sabedoria surge misturada à dor, ao sacrifício ou à tragédia, e então queremos fechar teimosamente os olhos para ela. Na busca da plenitude espiritual, nos agarramos às coisas que são conhecidas e agradáveis. Nem sempre temos coragem de colocar em prática o conselho dado por São João da Cruz, que recomendou o seguinte, a quem deseja vencer as paixões entrelaçadas de prazer, tristeza, medo e esperança: “Procure sempre inclinar-se não ao mais fácil, mas ao mais difícil. Não ao mais saboroso, mas ao mais insípido. Não ao mais agradável, mas ao mais desagradável. Não ao descanso, mas ao trabalho. Não ao consolo, mas à desolação. Não ao mais, mas ao menos. Não ao mais alto e precioso, mas ao mais baixo e desprezível. Não a querer algo, e sim a nada querer”.(São João da Cruz, Obras Completas, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 4ª edição, 1996, p. 181.)

Essas são palavras de sabedoria. O desapego é o caminho da felicidade. A iluminação e a liberdade espiritual só surgem quando o egoísmo dentro de nós é voluntariamente abandonado – ou quando ele entra em colapso. Em geral, o ser humano não faz renúncias por vontade própria. Em conseqüência disso, o despertar interior muitas vezes só ocorre quando nossa vida atravessa uma grave tempestade. O indivíduo redescobre então em um instante a sua esquecida insignificância diante do cosmo. Quebra-se a couraça de vaidades, apegos e comodidade, e a luz divina renova a paisagem. A pessoa encara novamente a realidade total da vida como um processo precário e maravilhoso, que se renova a cada dia, mas sempre provisoriamente. A fragilidade da vida física e de todas as suas rotinas mostra-nos, então, que a vida é fundamentalmente espiritual e só secundariamente precária e material. Descobrimos que há uma vida maior, interior, completamente independente da maré inconstante das incertezas humanas.

É perfeitamente natural – claro – rejeitar tudo que é desagradável. Podemos fazê-lo em tudo o que estiver ao nosso alcance. Mas essa liberdade deve respeitar os fatos. Quando nosso desejo é incapaz de mudar a realidade, insistir na rejeição da verdade só nos causa mais sofrimento psicológico. É sábio aceitar a vida como ela é, enquanto fazemos o melhor possível com cada coisa que ela coloca ao nosso alcance. Um pensador zen-budista escreveu: “O nascimento, a velhice, a doença e a morte, assim como a felicidade e a desgraça, o ganho e a perda, o amor e o ódio, todos estes são instrumentos importantes para tecer o brocado da vida humana. Um brocado não pode ser tecido com a única cor da felicidade. Dados o tempo, o lugar e a ocasião, tudo ‘contém todas as cores’. É des- sa maneira que a Terra Pura, a Outra Margem, é encontrada” (365 Zen Sayings, daily readings, Ed. by Jean Smith, HarperSanFrancisco, EUA, 1999, p. 337). A ‘terra pura’ e a ‘outra margem’ são símbolos da iluminação.




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