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Edição 342 - Março 2001
 

Siwa
O Oráculo de Amon

Por abrigar o Oráculo de Amon, Siwa – oásis egípcio localizado perto da fronteira com a Líbia – atraiu para suas terras visitantes ilustres, como o poeta grego Píndaro e Alexandre, o Grande.

Por Marco Lopez

Marco Lopez
Tomada geral de Siwa, no Egito: fama esquecida ao longo da história.

É preciso percorrer um longo e tortuoso caminho para chegar até Siwa. O oásis egípcio, localizado no meio de um dos desertos mais inóspitos do planeta, a uns 70 quilômetros da fronteira com a Líbia, era praticamente inacessível a viajantes ocidentais até bem pouco tempo. O primeiro europeu a penetrar no chamado Grande Mar de Areia (o Deserto Ocidental ou Deserto Líbio) e conseguir chegar a Siwa foi o inglês W. G. Browne, em 1792. Deixou um relato de sua jornada, destacando a hostilidade dos moradores: “Sempre que saíamos dos aposentos a nós designados éramos saudados por uma torrente de abusos verbais, antes de sermos atacados a pedradas.” A animosidade não era dirigida apenas a estranhos. Ao longo dos séculos, diversas expedições armadas foram enviadas por faraós, paxás e presidentes para sufocar rebeliões ou conter os ânimos dos habitantes locais, impedindo que exterminassem a si próprios em intermináveis e sangrentas brigas de família ou de vizinhos.

O tempo de conflitos permanentes já passou, mas na última década do século 20 ainda era necessário obter documentos especiais junto ao exército do Egito para viajar até lá. “A todos que pretendem visitar Siwa é exigida uma permissão militar, que poderá ser negada caso a permanência prevista seja superior a uma semana. Visitas a vilarejos que ficam nas imediações do oásis necessitam de uma autorização adicional, raramente concedida.” O aviso num dos mais completos guias de viagem sobre a região deve-se ao fato de que hoje o deserto em torno de Siwa abriga bases militares estratégicas e é politicamente sensível por causa da fronteira líbia. Embora a advertência seja séria, não deve ser encarada muito estritamente, como aliás tudo no Egito moderno. Desde que subi no ônibus sujo, barulhento e malcuidado – um dos dois que partem diariamente de Alexandria para as dez horas de extenuante viagem até Siwa –, nunca me foi pedido qualquer tipo de permissão ou documento, incluindo passaporte. Isso apesar de o ônibus ter parado algumas vezes em barreiras militares, para que soldados mal-encarados, armados com fuzis de assalto AK-47, subissem a bordo à procura de extremistas muçulmanos. E, quanto ao limite de uma semana de permanência, jamais alguém perguntou há quanto tempo eu estava na cidade, embora fosse óbvio que havia expirado há muito o meu hipotético prazo de visita.

A reputação hostil, registrada a partir do período medieval, é um contraste irônico à imagem que Siwa cultivava na Antigüidade, como a morada do Oráculo de Amon. Sua fama espalhava-se por todo o Mediterrâneo, atraindo visitantes ilustres, como Píndaro, o principal poeta lírico grego. Ou o general espartano Lisandro, que em 405 a.C. capturou a frota de Atenas, transformando Esparta na principal força do mundo helênico. Ou ainda Pausânias, o célebre viajante, poeta e cronista grego que esteve no oásis no ano160. Aristófanes, em sua peça Os Pássaros, menciona o Oráculo de Amon em Siwa como tendo a mesma importância que o Oráculo de Apolo, em Delfos, e o de Zeus, em Dodona. Heródoto conta que, por volta de 550 a.C., Creso, rei da Lídia, precisou consultar um oráculo de confiança, para decidir que atitude tomar diante de Ciro, rei da Pérsia, que na época iniciava a criação daquilo que viria a ser o Império Persa. O confronto era inevitável e, para definir sua estratégia, Creso enviou emissários aos sete principais oráculos da Antigüidade, sendo que um deles era o do oásis de Siwa.



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