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TV
verdade ou TV mentira?
Depois
do período apoteótico dos programas kitsch à
la Sílvio e Xuxa ainda em pleno florescimento no Brasil
e também na Itália e na Espanha , assistimos
agora ao sucesso crescente do sórdido e do grotesco no espaço
televisivo. Mais cedo ou mais tarde desembarcarão possivelmente
no Brasil os videoteipes de O Ônibus, que no ano passado foi
sucesso na televisão espanhola. A idéia dos produtores
foi reunir nove ou dez pessoas desconhecidas umas das outras no
interior de um ônibus de dois andares especialmente preparado
e cheio de microfones e de câmaras. Eles rodam pela Espanha
afora, comem, brigam, fazem amor, defecam e mostram de maneira geral
comportamentos compulsivos e aberrantes. Cada um dos seus gestos
é retransmitido direto, 24 horas por dia, por um canal da
TV espanhola. Os telespectadores podem escolher entre diferentes
câmaras e diferentes ângulos de visão. O show
aparece travestido de concurso: há um prêmio oferecido
ao passageiro que conseguir ficar dentro do ônibus até
o final de cem dias prazo de duração do programa.
O Ônibus deu o maior Ibope.Atentos aos índices de audiência
do Ibope e interessados nos contratos de patrocínio e de
publicidade que deles decorrem, produtores de TV já cunharam
inclusive um termo para designar essa nova tendência: reality
television, televisão real. Primeiro tema para
reflexão: se o que se faz agora é televisão
real, o que se fez antes as novelas, por exemplo o
que seria, televisão mentira?
Algumas
cabeças pensantes já começam a estudar
seriamente esse fenômeno que parece ser um dos mais determinantes
dos rumos que a televisão adotará daqui em diante.
Ziauddin Sardar, jornalista do New Stateman, de Londres, explica
tudo em termos da relação voyeurisme/exibicionismo.
O voyeurisme (o prazer de ver cenas ou coisas ilícitas, em
francês) é parente próximo do narcisismo. Quando
lançamos nosso olhar sobre pessoas que manifestam algum comportamento
anormal ou bizarro, quando nós as surpreendemos nos seus
momentos mais íntimos, ou quando as vemos cumprir os seus
gestos mais banais, na verdade é a nós mesmos que
observamos. O voyeurisme nos atrai porque nos permite projetar nosso
próprio inferno sobre os outros. O que nos encoraja e alimenta
quando nos deleitamos nesse tipo de contemplação constitui,
na verdade, um processo de desumanização que diminui
o respeito e a consideração que temos pelos outros.
O desejo de ver na tela de nossa TV pessoas mais frágeis,
mais complicadas, mais perdidas e confusas do que nós mesmos
nos conforta e tranqüiliza em relação à
mediocridade e à solidão de nossa própria existência.
Como
diz Ziauddin Sardar, há um processo de desumanização
por que os indivíduos são transformados em meros objetos;
não temos a obrigação de compreendê-los,
não precisamos lamentar o estado em que se encontram, nem
nos preocupar com a sorte deles. A televisão voyeurista faz
das pessoas o seu último bem de consumo. Retornamos com ela
a uma nova modalidade de espetáculo de circo.
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