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Projeções
da Alma
A
Relação Homem-Animal
Por não ter uma dimensão exata do seu mundo
interior e achar-se alienado da natureza, o homem usa o animal
para suprir as próprias necessidades psicológicas,
sejam elas provenientes de suas carências ou de sua
agressividade instintiva.
Por
Vera Lúcia Franco.
O
que me motivou a escolher este tema foi minha própria
relação com os animais, especificamente com
Fred, um gato que esteve em minha companhia por volta de 12
anos. Uma doença atacou-lhe as vias respiratórias,
causando-lhe dificuldade para respirar e, em mim, intensa
aflição, pois parecia que ia sufocar a qualquer
momento.
Acreditando que deveria usar todos os recursos para
salvá-lo, optei, além da homeopatia, pelos remédios
tradi-cionais. Nada, porém, adiantou: Fred não
comia, não evacuava e sua temperatura baixava. Na tentativa
de diminuir os efeitos colaterais dos remédios sobre
seu organismo, o próprio veterinário alopata
sugeriu que eu procurasse novamente o homeopata.
No fundo, eu sabia que não haveria muitas chances
de sobrevivência. Fred tivera algo parecido no ano anterior
e fora difícil vencer a crise. Por outro lado, como
agravante, sua idade era avançada. Não havia
evolução positiva, mas a eutanásia foi
descartada pelo homeopata, que o medicou até a vida
se esgotar por completo. Fred foi se despedindo deste mundo
com a naturalidade do apagar de uma chama. Interessante foi
ver a manifestação de carinho de seu amigo,
o gato Parsifal, que não saiu de perto dele nem sequer
por um momento, sendo sua constante fonte de calor e amizade.
Já faz três meses que tudo aconteceu e,
além das saudades, sobraram questões e reflexões
sobre meus sentimentos nessa relação com ele
e com os animais... Afinal, como nos relacionamos com os animais?
Nós os consideramos companheiros em nossos lares, percebendo
neles uma individualidade quase humana; admiramos sua elegância
e sua selvageria nos zoológicos e, no entanto, nos
servimos deles como transporte, status, lazer e até
alimento. Que intrincada e complexa relação
é essa?
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Domesticados
para servir o homem, os animais são reconhecidos
como seres desprovidos de vida própria.
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Por
sentir-se o centro do universo, o homem reconhece no animal
e nas outras espécies simples coisas, desprovidas
de vida própria, que existem apenas para lhe servir.
Ao iniciar o processo de civilização, o ser
humano levou consigo o planeta inteiro, desequilibrando todo
o ecossistema. Em sua jornada civilizatória junto ao
animal, tem exacerbado sua relação de poder,
seu autoritarismo, mesmo quando essa relação
mostra-se carregada de afeto, como é o caso de bichos
de nossa convivência. O animal é acarinhado quando
o dono assim deseja; suas funções sexuais são
controladas e pode se chegar até à castração.
O dono tem poder sobre sua liberdade e até sobre sua
vida e morte.
O homem iniciou um trabalho genético muito antes
de suas leis estarem escritas, surgindo daí espécies
diferentes, raças com padrões, comportamentos
e aspecto físico tão distintos que não
se diz serem da mesma espécie. Instituiu carnificinas
que chamou de esportes, tais como touradas, pescarias, caçadas...
Sacrificou os animais em louvor aos deuses ou em prol de sua
ganância (venda de peles, chifres, dentes, etc.). Quantos
experimentos, dissecações e inoculações
em nome do progresso da ciência...
Com a domesticação, o animal deixou de
viver sua própria biologia, isto é, as atividades
de busca, apreensão de alimentos e convívio
com sua espécie. Perdeu, portanto, sua identidade grupal
e adquiriu o que se chama síndrome da domesticação,
através da qual desenvolve uma individualidade, demonstrando
suas vontades, necessidades afetivas, medos e ansiedade. Por
negar suas necessidades biológicas, adoece de estresse,
exatamente como o homem civilizado.
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