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Sabedoria
Arquetípica
A
Simbologia da Serpente
Desde os tempos mais remotos, a serpente desempenha um papel
fundamental em todas as culturas. Associada, antes de tudo,
à fonte original da vida, guarda em si grandes paradoxos,
podendo significar a luz ou as trevas, o bem ou o mal, a sabedoria
ou a paixão cega, a vida ou a morte.
Por
Paulo Urban
Entre
os símbolos primordiais, a serpente é aquele
que mais fortemente encerra toda uma complexidade de arquétipos.
Presente em todas as culturas, sua imagem mitológica
assume sempre um papel fundamental, associada que está,
antes de tudo, à essência primordial da natureza,
à fonte original de vida, ao princípio organizador
do caos, anterior à própria Criação.
A serpente guarda em si intrigantes paradoxos: se por
um lado exprime uma ameaça (já que de seu veneno
pode sobrevir a morte), por outro, resume no processo de renovação
de sua pele todo o intrincado mistério da vida, que
se atualiza em movimento rejuvenescente.
Diferentes
cultos e cerimônias ritualísticas reverenciam
esse réptil sorrateiro, atribuindo-lhe as mais díspares
qualidades. As serpentes podem estar associadas a cultos solares
ou lunares; a sociedades matriarcais ou patriarcais (quando
assumem valores masculinos ou femininos); podem significar
a luz ou as trevas; a vida ou a morte; o bem e o mal; a sabedoria
ou seu oposto, a paixão cega; representar o falo (por
seu corpo assemelhar-se ao bastão) ou mesmo a vulva
(conforme se lhe parecem as escamas que a recobrem, bem como
o formato de sua goela quando esta se abre para devorar sua
presa). Tanto quanto as energias yin e yang expressam no taoísmo
as polaridades negativa e positiva que estão por detrás
de toda manifestação da natureza, os ofídios,
miticamente, ocultam em si a síntese dessa dicotomia
universal.
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Oroboro:
alusão ao processo dinâmico e transformador
da vida.
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Uma
das figuras mais intrigantes do simbolismo alquímico,
presente milenarmente em diversas culturas, é a da
cobra (ou dragão) que morde o próprio rabo e
opera, num movimento circular e contínuo, todo o processo
dinâmico e transformador da vida. Meu fim é
meu começo, diz a cobra nesse ato mágico
de devorar-se e cuspir-se, a representar a unidade indiferenciada
da vida e seu caráter divino implícito na perfeição
do círculo. À serpente devorando a própria
cauda, os alquimistas chamaram oroboro. Tal palavra não
consta da maioria dos dicionários e, em alguns livros
da Grande Obra, aparece grafada como ouroboros, principalmente
na língua inglesa.
Outras fontes, menos comumente, escrevem-na uróboro.
Particularmente, prefiro o termo oroboro, visto não
ter sido nunca tão oportuno em nossa língua
nomearmos um símbolo cuja singularidade é a
de não ter começo nem fim, por meio de palavra
tão especial, que pode ser lida de trás para
a frente sem prejuízo sequer de sua pronúncia,
transmitindo a idéia de algo que se expressa ciclicamente.
Etimologicamente, o termo tem curiosa explicação:
óros, em grego, significa termo, limite,
podendo ser também meta, regra ou definição;
borós se traduz por boca, ou voracidade. Oroboro, então,
representa aquilo que se delimita ou se atinge pela boca,
e também aquilo que se define por sua própria
função. Órobos, em grego, ainda significa
planta, mais especificamente a alfarroba (fruto
da alfarrobeira), uma vagem de polpa doce e nutritiva indicada
no tratamento das doenças inflamatórias digestivas.
O dicionário Aurélio traz para órobo
o significado de cola, palavra que, além
de se referir a outro tipo de árvore (a Cola acuminata),
também pode significar cauda, conforme
certos regionalismos do Brasil. O mesmo termo é igualmente
encontrado na língua espanhola a designar o rabo dos
animais. Para orobó (só muda o acento), o Aurélio
reserva o sinônimo coleira, em nova referência
à aromática árvore acima citada, cujas
sementes guardam extrato lenhoso de propriedades estimulantes,
semelhantes à cafeína. Coincidentemente, coleira
é o nome dado ao colar que cinge o pescoço dos
animais, e o oroboro lembra sua forma. Além disso,
nossas vísceras intestinais assemelham-se à
serpente enrolada, e o aparelho digestivo como um todo (se
tomado da boca ao ânus) bem desenha a serpente aprumada,
prestes a dar seu bote, a devorar sua presa.
Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta e acupunturista.
Deseja manter contato com seus leitores pelo e-mail paulourban@ig.com.br
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