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LIVRO: Cultivando a Mente de Amor
Thich Nhat Hanh
Editora Palas Athena
Tradução: Odete Lara
Chuva dármica
Há
três anos, dei uma série de palestras falando sobre
meu primeiro amor. Em Plum Village, comunidade da França
onde vivo e pratico, todos ficaram muito concentrados. Eles ouviam
com a totalidade de seu ser, não apenas com seu intelecto.
Sementes de amor e compreensão, profundamente enterradas
em suas consciências, eram remexidas e eu podia ver que eles
ouviam não apenas minha palavra, mas a deles também.
Quando um assunto é interessante, você não precisa
se esforçar para ouvir. A concentração se dá
sem nenhum esforço, e é da concentração
que nasce a compreensão.
Ao
ouvir uma palestra sobre o darma, simplesmente deixe que a chuva
dármica penetre no solo da sua consciência. Não
pense muito; não argumente nem compare. Jogar com palavras
e idéias é como tentar prender água num balde.
Simplesmente deixe que sua consciência receba a chuva, e as
sementes profundamente enterradas dentro dela terão chance
de serem aguadas.
Diz-se
no budismo que a consciência é composta de duas partes
- "depósito da consciência" (alayavijñana)
e "mente da consciência" (manovijñana).
No nosso depósito da consciência encontra-se enterrado
todo tipo de semente, representando tudo que já tenhamos
feito, experimentado ou percebido. Quando uma semente é aguada,
ela se manifesta em nossa mente da consciência. A função
da meditação é cultivar o jardim do nosso depósito
da consciência. Como jardineiros, temos de confiar na terra,
sabendo que todas as sementes de amor e de compreensão, de
felicidade e iluminação, já estão ali.
Por isso não é necessário que pensemos muito
ou tomemos notas durante uma palestra sobre o darma. Precisamos
apenas estar ali e permitir que as sementes da compreensão,
profundamente enterradas dentro de nós, sejam aguadas. O
bambu violeta, o crisântemo amarelo e o crepúsculo
dourado estão todos falando ao mesmo tempo. Qualquer coisa
que ágüe essas sementes enterradas em nosso depósito
da consciência é darma verdadeiro.
Quando
uma mulher fica grávida, algo acontece em seu corpo e também
em seu espírito. A presença do bebê transforma
sua vida, e surge uma nova energia que lhe permite fazer coisas
que previamente não conseguia. Ela sorri, confia mais na
humanidade e passa a ser uma fonte profunda de alegria para os outros.
Mesmo quando não se sente bem, há nela uma paz genuína
que os outros podem sentir.
Nós
que praticamos meditação podemos aprender com isto.
Há um bebê Buda em nosso depósito da consciência,
e devemos dar a ele ou a ela uma oportunidade de nascer. Quando
entramos em contato com nosso bebê Buda - as sementes da compreensão
e amor que estão enterradas em nós - nos tornamos
plenos de bodhicitta, a mente de iluminação,
a mente de amor. Desse momento em diante, tudo que fazemos ou dizemos
nutre o bebê Buda dentro de nós, e ficamos cheios de
alegria, confiança e energia. De acordo com o budismo Mahayana,
quando despertamos nosso bodhicitta, tocando nossa mente
de iluminação, nossa mente de amor, é o momento
em que a prática se inicia.
Nossa
mente de amor pode estar profundamente enterrada em nosso depósito
da consciência, sob muitas camadas de esquecimento e sofrimento.
O papel do mestre é ajudar-nos a aguá-la, e ajudar
sua manifestação. No budismo Zen, o mestre pode propor
um kung na (koan em japonês), e se ele e o estudante
têm a sorte de ser suficientemente hábeis, a mente
de iluminação do estudante será tocada. O estudante
enterra profundamente o Koan em seu depósito de consciência,
e sua prática é nutrir o Koan, concentrar-se
somente nele enquanto varre o chão, lava pratos, ou ouve
os sinos tocarem. Ele confia em seu Koan e em seu depósito
da consciência, da mesma forma que uma mulher grávida
confia em seu corpo para nutrir o bebê.
O
entendimento profundo do darma se processa lentamente. Se você
me diz que já o entende, fico um pouco pessimista. Você
pode estar pensando que entendeu, mas na verdade não entendeu.
Se você me diz que não entende, fico mais otimista.
Ouça com o todo de seu ser. Permita-se estar totalmente presente,
e a chuva do darma aguará as sementes profundas no seu depósito
da consciência. Se a semente da compreensão for aguada,
amanhã, enquanto você estiver lavando pratos ou olhando
o azul do céu, ela poderá brotar e, do seu depósito
da consciência, os frutos do amor e do entendimento crescerão
lindamente.
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