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Transcendendo: Alma

Edição 340 - Janeiro 2001
 

Preces Negativas
Orações e maldições

Foto: Sérgio Vieira
Campo de trigo: morte solicitada quando oramos pelo pão nosso de cada dia.

As preces e as maldições são relacionadas? Dion Fortune (1890-1946), estudiosa de psicologia freudiana e uma das espiritualistas mais conhecidas da Inglaterra em sua época, acreditava que as conexões são profundas. Observou: “Não há uma diferença essencial entre espetar alfinetes numa imagem de cera de um inimigo e acender velas diante de uma imagem de cera da Virgem.”
Michael Murphy, co-fundador do Instituto Esalen da Califórnia e autor de The Future of the Body, também está convencido de que é tênue a linha que separa pragas, feitiços e práticas religiosas. Em seu livro, ele observa:

“As tradições mais sagradas afirmam que toda capacidade pode ser comunicada sem sinais sensoriais. Tais capacidades (…) podem ser usadas destrutivamente. As mesmas tradições religiosas que celebram a transmissão metanormal de estados iluminados testemunham também a capacidade de comunicação empregada com propósitos egocêntricos, cruéis e até mesmo monstruosos. Em todas as culturas religiosas há, tradicionalmente, casos de adeptos que usam seus poderes especiais (…) para fins egoístas.”

Incluindo as tradições judaica e cristã. Muitos fiéis afirmam que as maldições são usadas apenas por pessoas diabólicas, mas elas existem na Bíblia e muitas vezes são empregadas pela elite espiritual. O profeta Eliseu, por exemplo, fez com que 42 crianças fossem devoradas por ursas por terem caçoado de sua careca (2 Reis 2:23-24). O apóstolo Paulo fez um feiticeiro ficar cego (Atos 13:11). E até Jesus fulminou uma figueira aparentemente inocente porque ela não tinha frutos (Mateus 21:9, Marcos 11:13-14, 20-22). Esses exemplos desafiam a tendência para fazer nítidas distinções entre prece e maldição. Do ponto de vista das crianças devoradas pelas ursas, do feiticeiro que ficou cego e da figueira mirrada, será que há alguma diferença essencial entre ser alvo de uma praga ou de uma prece? O mais importante é o resultado associado a esses acontecimentos, não o seu nome.

Rejeitamos preces negativas, maldições e feitiços porque queremos “livrar a barra de Deus”, nas palavras do filósofo Alan Watts. Como insistia uma mulher: “Meu Deus é bom. Nele não há espaço para a prece negativa”. Mas negar o lado escuro do Todo-Poderoso é inconsistente com os ensinamentos bíblicos. Veja Isaías 45:7: “Eu formo a luz e crio as trevas, asseguro o bem-estar e crio a desgraça: sim eu, Iahweh, faço tudo isto.” Amós 3:6: “Se acontece uma desgraça na cidade, não foi Iahweh que agiu?” E Eclesiástico 11:14: “Bem e mal, vida e morte, pobreza e riqueza, tudo vem do Senhor.”

Um dos maiores obstáculos para enfrentar a questão da prece negativa é, portanto, o desejo de dar sempre uma boa aparência à prece. “Se a prece está prejudicando alguém”, disse um médico devoto, “a culpa não é da prece, mas de alguma outra coisa.” “Como o quê?”, perguntei. “Não sei direito”, respondeu. “Talvez ‘a mente sobre a matéria’, mas não a prece.” Outros não concordam – como os 5% da população retromencionados, que dizem ter usado a prece para prejudicar os outros.

Como meu amigo médico que rejeita de cara a idéia da prece nociva, nunca paramos para perguntar por que a prece seria capaz de causar o mal. Será que uma prece que negocia a morte pode servir a um propósito válido? Será que pode ser útil?

Até mesmo um exame superficial da prece revela por que ela pode e deve ter conseqüências negativas. Quando rezamos pela recuperação de alguém que está com pneumonia, Aids ou qualquer outra infecção, estamos rezando pela morte dos milhões de microrganismos que provocam a doença, apesar de não pensarmos nisso. Quando rezamos para o câncer desaparecer, estamos pedindo a destruição total das células malignas. Quando pedimos que uma doença cardíaca desapareça, queremos que as lesões nas coronárias sejam totalmente obliteradas. Mesmo quando rezamos pelo pão nosso de cada dia, estamos pedindo a morte de pés de trigo e de seus grãos. Devemos deixar de lado tanto melindre em relação à prece. É melhor esperar que nossas preces tenham efeitos letais – caso contrário ficaremos na mão, com um ritual enfraquecido que nunca realiza o que pedimos.

 

Leia Mais:

O Lado Sombrio das Orações

O medo da prece

O poder do pensamento humano

Orações e maldições

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