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Transcendendo: Alma

Edição 340 - Janeiro 2001
  Preces Negativas
O medo da prece


Foto: Ana Nogueira
As preces, muitas vezes, mostram-se como uma tentativa de controlar o outro.

Graças a Palavras que Curam, surgiram oportunidades de discutir o tema prece por todo o país. Havia sempre alguém que perguntava: “Se há evidências de que a prece ajuda, há provas de que ela possa causar danos?” A reação do público a essa pergunta era curiosa. Quem a fazia recebia olhares críticos, como se tivesse entrado em território proibido.

Não confiamos totalmente na prece, talvez porque conjure poderes que não podemos compreender e controlar. A ambivalência em relação à prece está entranhada na língua. Em inglês, a palavra deprecate, que significa também depreciar, está ligada à raiz latina de prece: precarius. Em seu livro The Gods of the Greeks, o mitologista Karl Kerényi observa que o nome grego do deus da guerra, Ares, “tinha o mesmo som de ‘ara’ (‘maldição’), palavra que tinha também o sentido de ‘prece’ – e era como que outro nome para guerra”. Assim, parece que a prece sempre esteve associada à violência e ao dano.

O medo da prece surge até mesmo quando ela é usada de maneira caridosa, como aconteceu certa vez num serviço de saúde mental na Nova Inglaterra. Uma psicoterapeuta foi chamada pelo diretor da clínica para explicar por que seus pacientes se recuperavam e tinham alta antes dos pacientes dos outros terapeutas. “Por que seus pacientes melhoram mais depressa? O que você faz de diferente?”, perguntou ele. Ela revelou que rezava por seus pacientes e isso talvez explicasse as diferenças entre os resultados clínicos. Diante disso, foi convocada uma reunião urgente com o pessoal da clínica para discutir a situação. Todos ficaram extremamente nervosos em relação a essa terapia altamente controversa. Assim, a terapeuta recebeu ordens para parar de rezar, porque isso dava a seus pacientes uma “vantagem injusta”.

Florence Nigthingale, a fundadora da moderna enfermagem, era uma mulher profundamente espiritual, preocupada com o potencial de manipulação que a prece tem. A excelência de Deus, dizia ela, é ser inexorável. Se fosse possível influenciá-lo, estaríamos à mercê dos que tentam fazê-lo mudar de idéia através de suas preces. Ela falava do “velho James Martin”, que preferia padronizar todas as preces, porque nada impedia que as pessoas rezassem para “o dinheiro sair do bolso dele e entrar no delas”. Alguns dizem que se ressentem da prece porque ela é uma invasão indesejada de seu “espaço psicológico”. Acho que lá no fundo se esconde o medo primordial de sermos controlados ou prejudicados pelos pensamentos e desejos dos outros – e uma repulsa diante da possibilidade de possuirmos também o poder de prejudicar os outros com nossas mentes.

Os gregos não eram tão suscetíveis assim diante do potencial de prejudicar os outros através da mente. Em suas Leis, Platão abordou o assunto de frente. Recomendou que fossem condenados à morte os que usassem “feitiços, encarnações e outras bruxarias com propósitos malignos...” E se levássemos a sério as evidências a favor dos efeitos negativos da mente? Será que nós, como Platão aconselhou, processaríamos os que fazem preces negativas? E se condenássemos os 5% população que “cometeram” prece negativa? Será que seriam presos? Não é provável. As grades não impedem ninguém de rezar.

Atualmente, nos Estados Unidos, 11 escolas de medicina oferecem cursos que tratam da espiritualidade na clínica médica e 60 – praticamente a metade das escolas de medicina do país – têm interesse em desenvolver tais programas. Essa tendência reflete um reconhecimento crescente da importância que a prática religiosa e a prece têm em relação à saúde. Mas, à medida que as evidências dos efeitos positivos da prece forem se tornando mais conhecidas, a medicina precisará enfrentar o dano potencial que também é associado a essas práticas.

 

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