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Reconectando: Jornadas

Edição 340 - Janeiro 2001
 

Petra
As crenças dos nabateus

Ed Deir ou “Monastério”: tumba reaproveitada como igreja cristã.

Quando a situação tornou-se insustentável, o rei Rabbel II parece ter negociado um acordo com os romanos que o assediavam. Enquanto estivesse vivo, Petra teria sua soberania assegurada, mas, depois disso, poderiam assumir o controle. Em 106 a.C., com o rei morto, Trajano anexou-a ao Império Romano, permitindo à cidade manter seus deuses e costumes, além da maior parte dos lucros com o comércio. Os negócios prosperaram ainda mais. Petra atingiu seu ápice, transformando-se numa metrópole (título conferido pelo Senado romano) com mais de 30 mil habitantes.

Pouco é conhecido a respeito das crenças dos nabateus. Sua religião incorporou influências ocidentais, orientais e africanas. O nome de sua principal divindade, Dushares (ou Dus Sara) significa “deus do es-Sara”, a região de montanhas onde fica Petra, entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, área citada no Velho Testamento como “Seir”. Em seu clássico estudo sobre as antigüidades da Jordânia, G. Lankester Harding observa: “Jeová é mencionado como sendo ‘Deus de Seir’, em outras palavras, o mesmo que Dushares, e Jeová também habitava um bloco de pedra, chamado às vezes de Beth El, a Casa de Deus, e era cultuado principalmente em locais elevados (no topo de montanhas), como Dushares.” Conforme lembrou Harding, a imagem mais sagrada do deus nabateu era abstrata – uma simples pedra negra adorada em Petra (origem também da Caaba muçulmana em Meca?). No período helenístico foi equiparado ao deus grego Dioniso (equivalente ao romano Baco), sendo representado com uma videira.

Nessa forma, Dushares-Dioniso era um deus da fertilidade, do vinho, das bacanais e da bebedeira, e, segundo especialistas, seu culto era uma verdadeira orgia em busca do êxtase místico: “Mulheres sob efeito de sua influência dançavam nuas agitando tochas e ramos de tirso. Podia personificar-se num bode ou num touro, ambos símbolos da fertilidade animal, e nas procissões dionisíacas um gigantesco falo costumava ser carregado pelos celebrantes. Era visto como um deus que morre e ressuscita – as cerimônias dedicadas a ele eram encaradas como uma jornada ao mundo subterrâneo, onde se encontram os mortos, seguida pelo retorno ao plano dos vivos, com o iniciado ‘renascido’ para uma nova vida.”

Outra associação interessante de Dushares é com Hermes, um dos deuses mais populares do panteão grego, entidade central do hermetismo e da alquimia, também associado ao egípcio Thot e ao Exu da mitologia iorubá. Mensageiro do Olimpo, Dushares-Hermes era o protetor dos viajantes e dos comerciantes, mas também dos ladrões. As casas gregas antigas costumavam ter à sua frente uma pilha de pedras ou um pilar de formato fálico em homenagem ao filho de Zeus que, além de ser chamado “o bom pastor dos rebanhos”, também conduzia os espíritos dos mortos para o além. Entre os romanos, era conhecido como Mercúrio, o deus do comércio e da indústria, originariamente uma das antigas divindades do lucro, riqueza e prosperidade (dei lucri) que, ao ser associada a Hermes, tornou-se o deus dos comerciantes e mercadores. Embora se admita hoje a hipótese de que o nome Mercúrio tenha raiz etrusca, atribuiu-se durante muito tempo sua origem ao latim mercari, “fazer negócios”, mesma fonte de nossa palavra “mercado”. Em Petra, Dushares-Hermes-Mercúrio era adorado ao lado de sua companheira Atagartis, a deusa-mãe síria, protetora da fertilidade.

 

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