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Reconectando: Jornadas

Edição 340 - Janeiro 2001
 

Petra
A Globalização do Espírito

Estrategicamente posicionada numa encruzilhada de rotas que ligavam o Oriente ao Ocidente, a próspera cidade de Petra (onde é hoje o sul da Jordânia) pode ser considerada o mais antigo exemplo de globalização econômica, cultural e religiosa da história.

Texto e Fotos de Marco Lopez

Vista parcial de Petra: intercâmbio de bens e idéias com vários povos.

Não é exagero dizer que Petra foi o primeiro entreposto, mais de 2 mil anos atrás, do longo processo mais ou menos organizado de intercâmbio econômico, cultural, tecnológico, religioso, de bens e idéias, que conhecemos hoje como globalização. Instalada estrategicamente numa encruzilhada de rotas das caravanas de camelos que na Antigüidade ligavam o Oriente ao Ocidente, a lendária cidade de pedra rosa-avermelhada, “quase tão antiga quanto o próprio tempo”, é misteriosa como seus construtores, os nabateus. Um povo de origem semita mencionado na Bíblia, beduínos nômades saídos do deserto da atual Arábia Saudita que entre o fim do século 7 e o início do século 6 a.C. migraram para regiões menos agrestes, estabelecendo-se entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, onde hoje fica a parte sul da Jordânia.

Fixaram-se num estreito vale semi-árido e cercado por montanhas, repleto de cavernas e fácil de defender, onde passaram a dedicar-se à agricultura, ao comércio e ao lucrativo negócio de assaltar as caravanas que trafegavam pelas proximidades, levando escravos de todas as raças, sedas da China, peles de animais e marfim da África e da Ásia, especiarias do Sudeste Asiático (Java e outras ilhas indonésias, Indochina), pimenta e ópio da Índia, e também religiões, filosofias, tecnologias, literatura, pintura, escultura, música, arquitetura, tradições místicas...

Hábeis homens de negócios, os nabateus não demoraram a perceber que, pelo menos naquele tempo, seria mais lucrativo ser policial do que assaltante. Passaram a vender proteção aos mercadores contra outros salteadores, forneciam-lhes abrigo em seu vale oculto e ofereciam todo tipo de serviços. Ficaram ricos e transformaram a capital de seus domínios numa cidade cosmopolita, urbanizada, que chegou a rivalizar com Roma em esplendor e poder. Chamavam-na RQM (leia-se Reqemos, segundo o historiador judeu Flávio Josefo) em sua língua de raiz semita, que com o passar do tempo deu origem ao árabe falado hoje. A ela são atribuídas as referências no Velho Testamento (Gênese, Deuteronômio) a respeito de uma certa cidade de Sela.

O significado da palavra Sela, “Pedra” (ou “Rocha”), é o mesmo do nome grego Petra, como a conhecemos desde a Antigüidade, por meio das descrições de autores como Estrabão e Plínio. O alcance de suas atividades pode ser medido por uma crônica chinesa do final do primeiro século antes de Cristo, relatando que a corte de Chang Ch’ien havia recebido presentes (suborno?) de “Li Kan”, identificada por acadêmicos como a cidade escavada na rocha vermelha do outro lado do mundo.

 

Leia mais:

A Globalização do Espírito

Arquitetura, água e rotas comerciais

As crenças dos nabateus

A lenda de Petra

Explorando a cidade

 


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