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Jano
Brincando
de Jano
Recapitulemos:
nossa galáxia dá uma volta completa sobre si
mesma a cada 200 milhões de anos; a vida rudimentar
protozoária começou há uns 3 bilhões
de anos, e nós, seres humanos, só inventamos
a agricultura há 12 mil, a roda há uns 6 mil
e a palavra escrita há pouco menos do que isso. Surpreende
lembrar que passamos os últimos 1.500 anos acreditando
que a Terra fosse plana e centro do universo, de forma que
além do horizonte cairíamos num abismo habitado
por criaturas monstruosas.
Pensemos então: e se acrescentarmos um décimo
de segundo a este ano resumido por André Carneiro?
Poderemos então imaginar o ser humano prestes a interferir
em sua própria mutação, fabricando ovelhas
tipo Dolly e modificando cereais transgênicos com a
mesma facilidade com que hoje as crianças operam seus
computadores. As mães logo poderão escolher
as qualidades genéticas de seus filhos e a sociedade
poderá clonar tudo aquilo que julgar belo e necessário.
E o homem futuro, herdeiro de nossa geração,
saberá ler pensamentos? Moverá objetos sem tocá-los,
valendo-se de suas faculdades psicocinéticas? Nosso
cérebro, o sabemos, faz uso apenas de algumas de suas
capacidades; quais outras restam adormecidas? Qual espécie
sucederá o Homo sapiens em seu desenvolvimento evolucionista?
Há espaço para o advento de um Homo psíquicus?
Brinco
de Jano a cada dia, e na incerteza do porvir me pergunto
o que poderemos estar deixando às crianças,
representantes do milênio que temos escancarado às
nossas portas. Angustia-me a sensação de que
possa não existir planeta Terra habitável daqui
a umas duas, no máximo três gerações,
a ver pelo rumo inconseqüente desta humanidade. Observemos
realisticamente o meio à nossa volta. A Terra tem sofrido
a fúria imediatista do homem que, pensando ser dono
do mundo, fabrica cada vez mais instrumentos e tecnologia
capazes de operar radicais transformações. Se
não prestarmos atenção entraremos logo,
de modo irremediável, em fase terminal. Passemos a
limpo alguns pontos:
Vivemos num mundo cuja população cresce vertiginosamente;
haverá 800 milhões de pessoas a mais nos próximos
dez anos.
A água, riqueza escassa, vem sendo estrategicamente
disputada pela maioria dos países.
As espécies desaparecem hoje 5 mil vezes mais
rapidamente que seus ritmos naturais de extinção.
As matas tropicais vêm sendo igualmente dizimadas
numa velocidade estonteante: 11 milhões de hectares
destruídos a cada ano.
350 milhões de toneladas de dejetos potencialmente
perigosos, incluindo o lixo radioativo, são expelidos
anualmente.
O efeito estufa tem aumentado a cada década
a temperatura média do planeta.
E seguimos abusando do ambiente sem nos darmos conta de que
é seu estado harmônico que nos garante a sobrevivência.
Também houve incremento da miséria pelo mundo
afora:
Na Indonésia a pobreza cresceu 20% em 1998;
são mais 20 milhões de miseráveis. Na
Índia são mais 340 milhões os que passam
fome.
Em vários países da África, bem como
no leste europeu, houve crescimento da miséria, e no
Oriente Médio há dados assustadores de mortalidade
infantil.
Por outro lado, os contrastes sociais são tantos que
a medicina prevê aumento na expectativa de vida para
a próxima década (73 anos para os homens e 80
para as mulheres). Isto, bem entendido, se a humanidade não
pulverizar o planeta com uma guerra atômica e encontrar
meios de garantir seu futuro ecológico.
O Projeto Genoma Humano tem pretensões de eliminar
grande parte das doenças mediante a troca de genes
falhos por saudáveis. Espera-se curar males congênitos
antes mesmo do nascimento das crianças, e a ciência
poderá fazer coisas próprias da alquimia...
Enfim, vivemos a oportuna época das transições,
propícia à meditação e à
reflexão quanto ao sentido de nossas vidas, quanto
ao nosso papel neste planeta. É hora de desconfiarmos
do futuro, para que ele, podendo ser bom, não nos surpreenda
de forma tão amarga. Em verdade, reside dentro de nós
a possibilidade de um terceiro milênio equilibrado.
Que tal nos aconselharmos com Jano e pedirmos a ele que nos
oriente pelo caminho?
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