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Reconectando: Civilizações e Tribos

Edição 340 - Janeiro 2001
 

Jano
Brincando de Jano

Recapitulemos: nossa galáxia dá uma volta completa sobre si mesma a cada 200 milhões de anos; a vida rudimentar protozoária começou há uns 3 bilhões de anos, e nós, seres humanos, só inventamos a agricultura há 12 mil, a roda há uns 6 mil e a palavra escrita há pouco menos do que isso. Surpreende lembrar que passamos os últimos 1.500 anos acreditando que a Terra fosse plana e centro do universo, de forma que além do horizonte cairíamos num abismo habitado por criaturas monstruosas.

Pensemos então: e se acrescentarmos um décimo de segundo a este ano resumido por André Carneiro? Poderemos então imaginar o ser humano prestes a interferir em sua própria mutação, fabricando ovelhas tipo Dolly e modificando cereais transgênicos com a mesma facilidade com que hoje as crianças operam seus computadores. As mães logo poderão escolher as qualidades genéticas de seus filhos e a sociedade poderá clonar tudo aquilo que julgar belo e necessário. E o homem futuro, herdeiro de nossa geração, saberá ler pensamentos? Moverá objetos sem tocá-los, valendo-se de suas faculdades psicocinéticas? Nosso cérebro, o sabemos, faz uso apenas de algumas de suas capacidades; quais outras restam adormecidas? Qual espécie sucederá o Homo sapiens em seu desenvolvimento evolucionista? Há espaço para o advento de um Homo psíquicus?

Brinco de Jano a cada dia, e na incerteza do porvir me pergunto o que poderemos estar deixando às crianças, representantes do milênio que temos escancarado às nossas portas. Angustia-me a sensação de que possa não existir planeta Terra habitável daqui a umas duas, no máximo três gerações, a ver pelo rumo inconseqüente desta humanidade. Observemos realisticamente o meio à nossa volta. A Terra tem sofrido a fúria imediatista do homem que, pensando ser dono do mundo, fabrica cada vez mais instrumentos e tecnologia capazes de operar radicais transformações. Se não prestarmos atenção entraremos logo, de modo irremediável, em fase terminal. Passemos a limpo alguns pontos:

• Vivemos num mundo cuja população cresce vertiginosamente; haverá 800 milhões de pessoas a mais nos próximos dez anos.
• A água, riqueza escassa, vem sendo estrategicamente disputada pela maioria dos países.
• As espécies desaparecem hoje 5 mil vezes mais rapidamente que seus ritmos naturais de extinção.
• As matas tropicais vêm sendo igualmente dizimadas numa velocidade estonteante: 11 milhões de hectares destruídos a cada ano.
• 350 milhões de toneladas de dejetos potencialmente perigosos, incluindo o lixo radioativo, são expelidos anualmente.
• O efeito estufa tem aumentado a cada década a temperatura média do planeta.
E seguimos abusando do ambiente sem nos darmos conta de que é seu estado harmônico que nos garante a sobrevivência. Também houve incremento da miséria pelo mundo afora:
• Na Indonésia a pobreza cresceu 20% em 1998; são mais 20 milhões de miseráveis. Na Índia são mais 340 milhões os que passam fome.

• Em vários países da África, bem como no leste europeu, houve crescimento da miséria, e no Oriente Médio há dados assustadores de mortalidade infantil.
Por outro lado, os contrastes sociais são tantos que a medicina prevê aumento na expectativa de vida para a próxima década (73 anos para os homens e 80 para as mulheres). Isto, bem entendido, se a humanidade não pulverizar o planeta com uma guerra atômica e encontrar meios de garantir seu futuro ecológico.
O Projeto Genoma Humano tem pretensões de eliminar grande parte das doenças mediante a troca de genes falhos por saudáveis. Espera-se curar males congênitos antes mesmo do nascimento das crianças, e a ciência poderá fazer coisas próprias da alquimia...

Enfim, vivemos a oportuna época das transições, propícia à meditação e à reflexão quanto ao sentido de nossas vidas, quanto ao nosso papel neste planeta. É hora de desconfiarmos do futuro, para que ele, podendo ser bom, não nos surpreenda de forma tão amarga. Em verdade, reside dentro de nós a possibilidade de um terceiro milênio equilibrado. Que tal nos aconselharmos com Jano e pedirmos a ele que nos oriente pelo caminho?

 

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O deus dos começos

O mês de Januarius

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