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Reconectando: Civilizações e Tribos

Edição 340 - Janeiro 2001
 

Jano
O mês de Januarius

Ultrajados, os sabinos prepararam-se para invadir a cidadela do Capitólio. Inúmeras empreitadas foram seguidamente rechaçadas por Rômulo. Coube à perspicácia de Tito Tácio conseguir entrar em Roma. Para tanto, o guerreiro valeu-se de um estratagema: conseguiu pouco a pouco atrair para si a paixão de Tarpéia, filha de Semprônio Tarpeio, um dos guardiães da entrada principal de Roma. A moça, a quem prometera esposar se ela lhe abrisse as portas da cidade, atendeu-lhe; e entregou Roma aos sabinos. Rômulo, vendo-se cercado, faz preces a Júpiter, mas foi Jano quem surgiu para fazer brotar do solo água fervente, que interrompeu a passagem dos invasores. Tempos mais tarde seriam as mulheres sabinas que, cansadas de assistirem à morte de seus ex-maridos e tementes pela vida de seus filhos com os romanos, divididas entre suas dores, exigiram o fim dos embates, quando então os dois povos passaram a se respeitar.

Com a paz, Tito Tácio chegou a governar Roma ao lado de Rômulo por alguns anos. Desde então, os romanos entenderam que quando Jano se manifestava nas guerras, o fazia para anunciar a proximidade de seu fim. Também fundiam muitas vezes sua imagem à de Júpiter e o denominavam Janus Pater, atributo de deus Criador, pai de todas as coisas, ou mesmo Jano Matutinus Pater, ou “pai de todas as manhãs”. O poeta Ovídio (43 a.C.-18 d.C.), em sua obra Os Fastos, associa-o ao Caos, estado anterior à própria Criação, e diz que Jano tem duplo rosto porque “governa o céu, a terra e o mar; e sendo tão antigo quanto o mundo que criou, sabe observar ao mesmo tempo o oriente e o ocidente”.

Tito Tácio logo morreria em combate contra os laurentinos, outro povo da região, e Rômulo encontraria seu fim mítico mais tarde, aos 54 anos, após haver reinado por 38. Numa tormenta, ele desapareceu misteriosamente; diz a tradição que um raio o levou para morar no céu. Há um intervalo durante o qual os cem senadores administraram a cidade, e o sucessor escolhido foi Numa Pompílio, homem culto e piedoso.

O segundo rei de Roma sobretudo prestigiou Jano, construindo-lhe o já citado templo. Por volta de 700 a.C. alterou o calendário de Rômulo, de referencial lunar. O ano até então tinha apenas 304 dias divididos por dez meses; começava no equinócio primaveril, em Martius (março), e os meses seguintes eram Aprilis, Maius e Junius; daí em diante vinham os numéricos: Quintilis, 5º mês, Sextilis, o 6º , September, o 7º... até December, o 10º mês. Pompílio, observando as imprecisões dessa contagem, incluiu dois meses no ano, elevando para 355 seus dias; e batizou os novos meses de Januarius (em homenagem a Jano) e Februarius, em menção às festas com este nome.

Jano desde então teve crescente prestígio, até que Júlio César, encomendando os trabalhos do sábio Sosígenes, astrônomo de Alexandria, em 46 a.C., resolveu corrigir novamente o calendário, passando a adotar o ano solar com período de 365 dias e 1/4, sistema este mais preciso que o anterior, que só seria aprimorado em 1582 pela reforma gregoriana. César rebatizou o mês Quintilis com o nome de Julius, numa homenagem a si mesmo, transferiu o equinócio de primavera para 25 de março e determinou que o ano começasse em 1º de janeiro, fazendo jus à divindade bifronte, capaz de olhar concomitantemente o passado e o futuro.

 

Leia mais:

Entre o passado e o futuro

O deus dos começos

O mês de Januarius

15 bilhões de anos em 365 dias

Brincando de Jano

 


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