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Reconectando: Civilizações e Tribos

Edição 340 - Janeiro 2001
 

Jano
O deus dos começos

Cícero (106-43 a.C.) associa o termo jano ao verbo ire (ir) e ressalva que os caminhos públicos romanos eram chamados de jani. Outras fontes associam-no à palavra janua, “portas em forma de arco”, ou “aquilo que abre e fecha”, até porque a divindade era protetora de todas as entradas e saídas, guardando não só as portas das casas e cidades, como também os portais do céu – neste caso, em companhia das Horas. Em tal condição, Jano sustenta dois símbolos, a chave e o báculo, com os quais os porteiros fechavam e defendiam as entradas das cidades.

Jano preside tudo o que se abre, é deus tutelar de todos os começos; rege ainda tudo aquilo que regressa ou que se fecha, sendo patrono de todos os finais. Por sua dupla função, recebeu dos romanos dois epítetos principais: Jano Patulcius, ou “aquele que abre”, e Jano Clusius, ou “aquele que cerra”. Nesse aspecto, estava relacionado às guerras, posto que anunciava seus começos e seus términos. Consta que seus templos permaneciam abertos durante os conflitos e fechados em tempos de paz, numa tradição que perdurou até o século 4 d.C. O Templo de Jano, erguido em Roma na região do Fórum, teria permanecido fechado por longos anos durante o pacífico reinado de Pompílio; uma vez reaberto, só voltou a ser cerrado após a segunda guerra púnica, e por mais três vezes, com distintos intervalos, já no reinado de Augusto, no século 5 d.C.

Com a ninfa Camasene, Jano teve um filho, Tiber, de onde se originou o nome do rio Tibre, cujas águas banham Roma. Outra esposa foi Venília, de quem nasceu a filha Canente, do verbo canens, a designar “aquele que canta”, cuja voz maviosa tinha o poder de atrair as pedras e acalmar os animais selvagens que a ouvissem.

A ligação de Jano com as guerras parece ter se originado durante o episódio do rapto das sabinas. Havendo Rômulo recebido por bravura um território das mãos de seu avô Numitor, e tendo demarcado aquilo que seria sua cidade, viu-se envolto num problema: tinha um terreno enorme e despovoado, sem lavoura nem rebanhos. Consultando o oráculo num santuário que construíra no monte Capitólio, vislumbrou a solução: faria de sua cidade um grande asilo, transformaria todos os marginalizados dos arredores em cidadãos comuns, devolvendo-lhes seus direitos. Logo encontrou seu povo entre maltrapilhos, desgraçados, doentes, escravos fugitivos e criminosos, que rapidamente invadiram de forma pacífica seu território.

Roma teve assim um começo febril; em suas terras ardia a vontade de fazer crescer e preservar o povoamento, mas quase não havia mulheres entre sua gente. Rômulo precisava de outra solução rápida e resolveu buscar suas fêmeas entre os sabinos, povo ordeiro e pacato que vivia nas vizinhanças. Convidou-os então para os festejos de início de ano, as chamadas consuálias, ou festas da colheita, presididas por Jano Consivius (outra alcunha a designar “aquele que semeia”, o que faz de Jano também uma divindade agrícola, responsável pela geração, pelo movimento da vida em todas as suas fases). As consuálias caracterizavam-se por jogos, especialmente corridas de cavalos, e os romanos ofereceram seus melhores animais aos visitantes para que pudessem competir. Impressionados com a bela cidade, os sabinos não desconfiaram da armadilha e deleitavam-se com suas famílias. A um gesto combinado de Rômulo, os romanos puxaram suas armas, raptaram todas as mulheres e expulsaram os visitantes para fora da cidade. Por dias e noites seviciaram as mulheres, engravidaram-nas e pregaram para que se acostumassem à nova morada e aceitassem suas novas famílias.

 

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