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Jano
O
deus dos começos
Cícero
(106-43 a.C.) associa o termo jano ao verbo ire (ir) e
ressalva que os caminhos públicos romanos eram chamados
de jani. Outras fontes associam-no à palavra janua,
portas em forma de arco, ou aquilo que abre
e fecha, até porque a divindade era protetora
de todas as entradas e saídas, guardando não
só as portas das casas e cidades, como também
os portais do céu neste caso, em companhia das
Horas. Em tal condição, Jano sustenta dois símbolos,
a chave e o báculo, com os quais os porteiros fechavam
e defendiam as entradas das cidades.
Jano
preside tudo o que se abre, é deus tutelar de todos
os começos; rege ainda tudo aquilo que regressa ou
que se fecha, sendo patrono de todos os finais. Por sua dupla
função, recebeu dos romanos dois epítetos
principais: Jano Patulcius, ou aquele que abre,
e Jano Clusius, ou aquele que cerra. Nesse aspecto,
estava relacionado às guerras, posto que anunciava
seus começos e seus términos. Consta que seus
templos permaneciam abertos durante os conflitos e fechados
em tempos de paz, numa tradição que perdurou
até o século 4 d.C. O Templo de Jano, erguido
em Roma na região do Fórum, teria permanecido
fechado por longos anos durante o pacífico reinado
de Pompílio; uma vez reaberto, só voltou a ser
cerrado após a segunda guerra púnica, e por
mais três vezes, com distintos intervalos, já
no reinado de Augusto, no século 5 d.C.
Com
a ninfa Camasene, Jano teve um filho, Tiber, de onde se
originou o nome do rio Tibre, cujas águas banham Roma.
Outra esposa foi Venília, de quem nasceu a filha Canente,
do verbo canens, a designar aquele que canta,
cuja voz maviosa tinha o poder de atrair as pedras e acalmar
os animais selvagens que a ouvissem.
A
ligação de Jano com as guerras parece ter
se originado durante o episódio do rapto das sabinas.
Havendo Rômulo recebido por bravura um território
das mãos de seu avô Numitor, e tendo demarcado
aquilo que seria sua cidade, viu-se envolto num problema:
tinha um terreno enorme e despovoado, sem lavoura nem rebanhos.
Consultando o oráculo num santuário que construíra
no monte Capitólio, vislumbrou a solução:
faria de sua cidade um grande asilo, transformaria todos os
marginalizados dos arredores em cidadãos comuns, devolvendo-lhes
seus direitos. Logo encontrou seu povo entre maltrapilhos,
desgraçados, doentes, escravos fugitivos e criminosos,
que rapidamente invadiram de forma pacífica seu território.
Roma teve assim um começo febril; em suas terras
ardia a vontade de fazer crescer e preservar o povoamento,
mas quase não havia mulheres entre sua gente. Rômulo
precisava de outra solução rápida e resolveu
buscar suas fêmeas entre os sabinos, povo ordeiro e
pacato que vivia nas vizinhanças. Convidou-os então
para os festejos de início de ano, as chamadas consuálias,
ou festas da colheita, presididas por Jano Consivius (outra
alcunha a designar aquele que semeia, o que faz
de Jano também uma divindade agrícola, responsável
pela geração, pelo movimento da vida em todas
as suas fases). As consuálias caracterizavam-se por
jogos, especialmente corridas de cavalos, e os romanos ofereceram
seus melhores animais aos visitantes para que pudessem competir.
Impressionados com a bela cidade, os sabinos não desconfiaram
da armadilha e deleitavam-se com suas famílias. A um
gesto combinado de Rômulo, os romanos puxaram suas armas,
raptaram todas as mulheres e expulsaram os visitantes para
fora da cidade. Por dias e noites seviciaram as mulheres,
engravidaram-nas e pregaram para que se acostumassem à
nova morada e aceitassem suas novas famílias.
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