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Jano
Entre
o passado e o futuro
O
mês de janeiro recebeu esse nome em homenagem a Jano, divindade
de duas faces que teria o poder de ver tanto o passado como
o futuro. Neste primeiro janeiro do terceiro milênio, a simbologia
do deus romano nos inspira a refletir sobre o que deixamos
pra trás e o que nos espera no porvir.
Texto
de Paulo Urban
Ilustrações de Christiane S. Messias
Vivemos
um janeiro especial, de quádruplo caráter:
início de ano, de década, de século e
de milênio. A comunidade cristã desperta em seu
1º de janeiro e estranhamente sente estar pisando o amanhã.
Foi o futuro quem chegou ou nós que o alcançamos?
Mero sofisma afinal, somos seres efêmeros, presos
a um presente interminável que nos acompanha por toda
a vida.
Janeiro, cujo nome vem do deus Jano, foi acrescentado
ao calendário por Numa Pompílio (715-672 a.C.),
sucessor de Rômulo, personagem histórico-mítico
que, segundo Plutarco, teria fundado Roma em 21 de março
de 753 a.C.
Figura das mais singulares, Jano é exceção
no panteão romano, visto não haver seu correlato
entre os gregos. Tampouco o encontramos nas mitologias indo-européias,
e seu surgimento está envolto em incerteza. Uns dizem
que nasceu na Cítia (Ásia Menor), outros que
seja proveniente de Perrébia, na Tessália (região
da Grécia). Algumas versões o fazem filho de
Apolo e de Creusa, filha de Ereteu, um dos reis de Atenas.
Jovem
maduro, Jano teria seguido pelo Mar Tirreno até
a atual Itália, acompanhado por uma extensa frota.
Aportando, seu exército fez várias conquistas
e ele construiu sua cidade, Janícula. Daí passaria
a reinar no Lácio (Latium Vetus, região de Roma,
de onde vem o latim). Saturno, destronado por Júpiter,
foi obrigado a viver no exílio e buscou inicialmente
abrigo no Lácio, sendo bem recebido por Jano. Profundamente
agradecido, ao partir abençoou o anfitrião com
o dom da mais alta prudência e o poder de ver o passado
e o futuro ao mesmo tempo. Por esse motivo, os romanos cunhavam
a efígie de Jano em sua mais antiga moeda, o asse,
ora representando-o imberbe, ora barbudo, mas sempre com dois
rostos numa mesma cabeça, voltados para direções
opostas, de modo que suas faces nunca se olham. Uma delas
pode ver somente o passado, enquanto a outra antecipa o porvir.
Escavações arqueológicas encontraram
moedas com Jano bifronte tendo em seu reverso a proa de um
barco, em menção ao domínio que os romanos
lhe atribuíam, já que o consideravam introdutor
dos barcos e do comércio.
Paulo
Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta e acupunturista.
O e-mail do autor é: paulourban@ig.com.br
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