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Reconectando: Civilizações e Tribos

Edição 340 - Janeiro 2001
 

Jano
Entre o passado e o futuro

O mês de janeiro recebeu esse nome em homenagem a Jano, divindade de duas faces que teria o poder de ver tanto o passado como o futuro. Neste primeiro janeiro do terceiro milênio, a simbologia do deus romano nos inspira a refletir sobre o que deixamos pra trás e o que nos espera no porvir.

Texto de Paulo Urban
Ilustrações de Christiane S. Messias

Vivemos um janeiro especial, de quádruplo caráter: início de ano, de década, de século e de milênio. A comunidade cristã desperta em seu 1º de janeiro e estranhamente sente estar pisando o amanhã. Foi o futuro quem chegou ou nós que o alcançamos? Mero sofisma – afinal, somos seres efêmeros, presos a um presente interminável que nos acompanha por toda a vida.

Janeiro, cujo nome vem do deus Jano, foi acrescentado ao calendário por Numa Pompílio (715-672 a.C.), sucessor de Rômulo, personagem histórico-mítico que, segundo Plutarco, teria fundado Roma em 21 de março de 753 a.C.

Figura das mais singulares, Jano é exceção no panteão romano, visto não haver seu correlato entre os gregos. Tampouco o encontramos nas mitologias indo-européias, e seu surgimento está envolto em incerteza. Uns dizem que nasceu na Cítia (Ásia Menor), outros que seja proveniente de Perrébia, na Tessália (região da Grécia). Algumas versões o fazem filho de Apolo e de Creusa, filha de Ereteu, um dos reis de Atenas.

Jovem maduro, Jano teria seguido pelo Mar Tirreno até a atual Itália, acompanhado por uma extensa frota. Aportando, seu exército fez várias conquistas e ele construiu sua cidade, Janícula. Daí passaria a reinar no Lácio (Latium Vetus, região de Roma, de onde vem o latim). Saturno, destronado por Júpiter, foi obrigado a viver no exílio e buscou inicialmente abrigo no Lácio, sendo bem recebido por Jano. Profundamente agradecido, ao partir abençoou o anfitrião com o dom da mais alta prudência e o poder de ver o passado e o futuro ao mesmo tempo. Por esse motivo, os romanos cunhavam a efígie de Jano em sua mais antiga moeda, o asse, ora representando-o imberbe, ora barbudo, mas sempre com dois rostos numa mesma cabeça, voltados para direções opostas, de modo que suas faces nunca se olham. Uma delas pode ver somente o passado, enquanto a outra antecipa o porvir. Escavações arqueológicas encontraram moedas com Jano bifronte tendo em seu reverso a proa de um barco, em menção ao domínio que os romanos lhe atribuíam, já que o consideravam introdutor dos barcos e do comércio.



Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta e acupunturista. O e-mail do autor é: paulourban@ig.com.br

 

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