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A invenção da vaca que come vaca
| Ilustrações:
Christiane S. Messias |
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Vacas
loucas, quem diria? Foi esse o tema que monopolizou as manchetes
da mídia na Europa e em boa parte do mundo, nos meses de
novembro e dezembro, os derradeiros do segundo milênio do
calendário oficial. Na França, imagens de rebanhos
inteiros de inocentes vacas indo para os matadouros e de lá
direto para as fornalhas de incineração sideraram
os telespectadores. Vacas contaminadas pelo tal prion
dessa doença que derrete os cérebros de bovinos, de
humanos e de uma porção de outros bichos.
Só
a vaca?, dá vontade de perguntar. E os donos dessas vacas,
esses boiadeiros do apocalipse que decidiram alimentá-las
com farinha de
vaca, são eles menos loucos? Vaca, bicho
supervegetariano desde que o mundo é mundo, foi feita para
comer capim-gordura ou, no máximo, alguma boa torta de soja
ou de bagaço de cana, ou qualquer outra guloseima vegetal.
E nós, consumidores mais tontos do que desavisados, que,
com santa ingenuidade, continuamos a comer nossos bifes de vaca
alimentada com essa horrenda farofa de ossos, couros e barrigadas
de vaca, não seremos nós as verdadeiras vacas loucas
de toda essa história? Perguntas para se responder neste
início de terceiro milênio.
E
não apenas essas, pois o que não faltam são
perguntas a requerer resposta urgente. Aqui estão, para estimular
nossas reflexões durante as férias de verão,
algumas questões candentes da atualidade:.
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O
efeito estufa
A
Terra está virando um forno, e os cientistas são
praticamente unânimes ao dizer que a mão do homem é
a maior responsável. Fácil imaginar como o aquecimento
global poderá inundar cidades e acabar com colheitas. Lembram-se
das grandes inundações em países europeus nos
já citados novembro e dezembro das vacas loucas? Agora, pesquisadores
como Paul Epstein, da escola de medicina de Harvard, dizem que um
planeta mais quente poderá favorecer a propagação
de doenças infecciosas e fornecer um clima mais favorável
aos germes, além de ampliar o habitat de fatores patogênicos
tropicais. Doenças relacionadas à produção
agrícola combinadas a mudanças climáticas importantes
apontam para uma única direção: a fome. Pior
ainda: por enquanto, os gases atmosféricos conservam suficiente
calor perto da superfície para que a vida seja confortável.
Mas basta aumentar um pouquinho a temperatura média do globo
e os efeitos serão nefastos. Ao se evaporar mais rapidamente,
a água formará mais vapor (poderoso gás de
efeito estufa), conservando mais calor, que, por sua vez, liberará
o gás carbônico das pedras, o que contribuirá
para aumentar mais ainda a temperatura. Nosso belo planeta azul
poderá terminar como Vênus, onde as temperaturas máximas
podem chegar a 500 graus centígrados! Claro, seria preciso
que a temperatura aumentasse consideravelmente para que um tal efeito
estufa acontecesse. Mas os cientistas ignoram totalmente onde se
situa o ponto de não-retorno.
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O
ecossistema vai para o brejo
| Ilustrações:
Christiane S. Messias |
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Imagens
de elefantes e rinocerontes massacrados e de florestas incendiadas
são bem conhecidas do grande público. Mas o fim total
da biodiversidade, cerne verdadeiro das preocupações
ecológicas, é muito menos visível e, no entanto,
muito mais grave. Milhões de anos de evolução
criaram um mundo o nosso no qual o bem-estar de cada
organismo depende do bem-estar de um número incalculável
de outras espé- cies. A fim de responder à demanda
de uma população cada vez maior, desflorestamos para
construir e para abrir espaço às pastagens e às
culturas agrícolas. Substituímos numerosas variedades
de plantas selvagens por algumas poucas espécies (já
notaram a tristeza e a desolação das monoculturas
de soja, de café, de cana-de-açúçar,
de eucaliptos e pinheiros reflorestados?). Tiramos animais e vegetais
dos seus devidos lugares e envenenamos nosso próprio meio
ambiente com produtos químicos. Dizem os biólogos
que as atividades humanas causam o desaparecimento de pelo menos
30 mil espécies por ano, o que significa que estamos vivendo
o mais importante fenômeno de extinção em massa
jamais ocorrido na face da Terra.
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O
desastre biotecnológico
Certo,
nós causamos o desaparecimento de espécies naturais,
mas, em compensação, criamos outras espécies
graças à manipulação genética
respondem com razão os otimistas. As culturas geneticamente
modificadas podem ser mais resistentes, mais nutritivas e ter um
sabor mais pronunciado do que as outras. Micróbios que manipulamos
podem contribuir para solucionar vá- rios dos nossos problemas
de saúde. A terapia genética, por seu lado, promete
nos ajudar na reparação das falhas do DNA. Mas
também essa medalha tem o seu reverso. Mesmo que não
existam provas de que os produtos geneticamente modificados sejam
nocivos para a saúde, tudo leva a crer que os genes das plantas
manipuladas podem escapar e se introduzir em outras
espécies. Essas culturas podem igualmente encorajar a resistência
aos inseticidas. Céticos como o cientista Jeremy Rifkin receiam
que ervas daninhas modificadas e outros mutantes maléficos
possam desestabilizar ainda mais o sofrido ecossistema planetário.
Além disso, os micró- bios manipulados podem se mostrar
difíceis de controlar. Mas o que há de mais assustador
é a perspectiva do mau uso que pode ser feito das novas biotecnologias.
Terroristas podem decidir que o antraz ou a salmonela não
são micró- bios nefastos o bastante, e tentar por
isso criar uma nova versão do mortal vírus ebola,
que se transmite pelo ar.
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