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Transcendendo: Religião

 

Borobudur
Uma Escada para o Nirvana

O maior santuário budista do mundo, localizado na ilha de Java, ficou mais de um milênio coberto pela selva. Só a partir do século passado a humanidade pôde redescobri-lo – e apreciar o sofisticado simbolismo que ele contém.

Texto e fotos de Marco Lopez

Mal amanheceu e as ruas da parte central de Yogyakarta, uma das principais cidades da ilha de Java, já estão congestionadas com o tráfego de bemos, as peruas de lotação caindo aos pedaços que respondem pela maior parte do transporte público na Indonésia. Estou à procura de condução e, embora conheça apenas algumas frases em bahasa Indonesia, o idioma nacional, não encontro qualquer dificuldade para descobrir qual bemo devo pegar para chegar ao meu destino. Basta dizer a palavra mágica, “Borobudur”. Afinal, todos aqui sabem onde fica este que é o maior santuário budista do mundo. Mas nem sempre foi assim.

Construído entre os séculos 8 e 9 de nossa era, o Templo de Borobudur antecedeu em 300 anos outra maravilha arquitetônica do sudeste da Ásia, o complexo de Angkor Wat, no Camboja, e em quase 400 anos as grandes catedrais góticas da Europa, como a francesa Chartres. Mas toda a sua grandiosidade não impediu que fosse abandonado cerca de cem anos depois de ter sido concluído, e por mais de um milênio permaneceu esquecido quase que por completo, coberto pela selva. Ironicamente, o local foi redescoberto não por arqueólogos nem por caçadores de tesouros, e sim por um líder rebelde, Ki Mas Dana, que em 1709 ou 1710, segundo uma antiga crônica javanesa, refugiou-se “na montanha Bara-Budur antes de ser capturado e entregue ao rei para ser executado”. Note-se que a crônica fala apenas em montanha e nem menciona o templo, pois àquela altura, para os habitantes da região, Borobudur era apenas um local onde estranhas ruínas e restos de estátuas podiam ser vistos abandonados no meio do mato.

Foi só em 1814 que o então vice-governador colonial de Java, o britânico Thomas Stamford Raffles, ouviu histórias a respeito dessas antigüidades e ordenou o envio do engenheiro holandês H. C. Cornelius para averiguá-las. À frente de um grupo de 200 homens, Cornelius demorou um mês para cortar a vegetação e retirar o entulho, revelando os contornos do edifício. O relatório que ele preparou para informar Raffles a respeito dessa que foi uma das principais descobertas arqueológicas do século 19 jamais foi publicado, mas é considerado hoje um importante documento histórico, por representar o primeiro registro que sobreviveu ao tempo acerca do maior santuário budista já construído. O mais glorioso monumento erguido pelos javaneses acabava de ser resgatado do abandono pela curiosidade dos colonos europeus.

 

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