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Reconectando: A Grande Teia

 

Apocalipse
Os três apocalipses


Há três apocalipses bíblicos. Os dois primeiros encontram-se no Antigo Testamento: são os livros de Ezequiel e Daniel, que datam, respectivamente, de 6 e 2 a.C. Historicamente, isso os situa em época de dominação dos judeus por povos inimigos, razão que fundamenta o sentido libertário desses textos, a prometer às almas dos subjugados o advento do messias, portador da paz e da justiça, que em toda vida nunca puderam experimentar. A passagem em Ezequiel aceita como uma antevisão do Armagedon (a batalha final entre Deus e o demônio, a luta derradeira entre o bem e o mal) possivelmente referia-se à tomada de Israel pelas hordas dos cifemos, considerados ímpios e cruéis, violadores dos mandamentos de Deus, que nunca souberam honrar seus pais nem seus casamentos.

Similarmente, o Apocalipse de João, no Novo Testamento, datado do 1.º século depois de Cristo, foi compilado durante o período em que os cristãos da Ásia Menor sofriam torturas impostas pelos romanos. Em nossos dias, praticamente é consenso que o anticristo descrito por João seja uma alusão a Nero, imperador romano que incendiou Roma aos 35 anos e terminou por suicidar-se, enlouquecido, atirando-se sobre a lâmina de sua própria espada. Vários mitos narram a volta de Nero, ressurgido do mundo dos mortos com a missão de perseguir seus inimigos.

Cumpre dizer aqui que os primeiros discípulos de Jesus estavam seguros de que o Mestre voltaria após a ressurreição para a redenção final. Tal expectativa tanto garantiu a sobrevivência dos cristãos em tempos adversos de perseguição romana, como fez gerar toda uma teologia a alimentar a crença na salvação final das almas. Embora o próprio Cristo houvesse dito que ninguém saberia nem o dia nem a hora de seu retorno, nada impediu que a Igreja interpretasse os sinais para prever quando o advento se daria. Com base nisso, em 172 d.C. Montanus, profeta da Frígia, (Ásia Menor) dizendo-se o Espírito Santo encarnado, anunciou que o Dia do Juízo estava próximo. Hipólito, teólogo romano, na passagem para o terceiro século previu, com base nas medidas da arca de Noé, que Jesus voltaria no ano 500 de nossa era!

Já no século 4, com a conversão de Constantino, a Igreja ficou melhor assentada sobre o Império Romano, e as profecias apocalípticas perderam um pouco sua função. O monge cristão Augustino, dessa época, ainda que esperasse pela volta do Cristo, advertia contra a fé cega em profecias que vulgarizavam a idéia do fim do mundo. Suas teses foram aceitas pela Igreja no Concílio de Éfeso, em 431, a partir do que as crenças apocalípticas arrefeceram-se um pouco.

No ano de 960, porém, Bernardo da Turíngia, antigo Estado germânico, afirmou que, no ano em que o dia da Anunciação da Virgem coincidisse com a Sexta-feira da Paixão, o mundo acabaria. A profecia perturbou de modo crescente a Europa até o ano de 992, quando ocorreu sem qualquer prejuízo o tal cruzamento. Já a passagem para o ano 1000 não causou maiores temores. Embora livros apócrifos tivessem espalhado a crença de que o Juízo ocorreria mil anos após o nascimento do Cristo, a passagem de milênio se deu despercebidamente.

 

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