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A
Prática da Sabedoria
Aos
77 anos, Radha Burnier, presidente da Sociedade Teosófica,
ainda hoje percorre o mundo impulsionando a busca espiritual
de pessoas de várias religiões e filosofias. Nesta entrevista
a PLANETA, ela fala, entre outras coisas, da importância da
diversidade de idéias para quem procura a verdade.
Por Carlos Cardoso Aveline
Fotos: André Dusek
Radha
Burnier é a sétima pessoa a ocupar a presidência internacional
da Sociedade Teosófica, desde a sua fundação em 1875. Ela
nasceu em 15 de novembro de 1923, na própria sede internacional
da instituição – uma comunidade de trabalho e um local de
retiro que hoje são também um refúgio ecológico no sul da
Índia.
Do
signo de Escorpião, com ascendente e também a Lua em Aquário,
Radha não parece ter envelhecido mais de uma semana desde
que a vi pela última vez, cinco anos atrás. Continua a percorrer
o mundo, dando palestras e impulsionando a busca espiritual
de pessoas de diversas religiões, filosofias e classes sociais,
nos vários continentes. Aos 77 anos, seu olhar penetrante
transmite uma extraordinária energia interior, que toca o
íntimo das pessoas a quem fala e ajuda a dissolver os conflitos
do mundo psicológico superficial.
Perguntada sobre os pensadores que mais influíram em sua formação,
Radha cita autores antigos e modernos: entre eles estão Lao-tsé,
Platão, Plotino, Ramana Maharshi, Annie Besant, Helena Blavatsky
e Jiddu Krishnamurti. E também seu pai, N. Sri Ram, que foi
um dos grandes teosofistas do século 20. Radha Burnier é presidente
da Sociedade Teosófica desde 1980. Ela esteve no Brasil em
setembro passado, quando foi lançado seu pequeno livro O Caminho
do Autoconhecimento(1).
PLANETA
– Qual a importância da diversidade de idéias
para um grupo de buscadores da verdade?
Radha – Não é possível dar completa expressão à verdade
através de conceitos ou palavras. Alcançar a verdade é ter
uma percepção profunda da natureza essencial de uma parte
da vida, ou da vida como um todo. A mente que olha uma questão
é como uma câmera fotográfica. A câmera tira a foto de um
ângulo; para obter uma perspectiva adequada, nós necessitamos
olhar para ela de diversos pontos de vista. Quando há muitos
pontos de vista diferentes, ainda não temos a verdade, mas
estamos mais próximos dela. Penso que é por isso que devemos
ter diversidade de pensamento. Sem ela, o ponto de vista estreito
de umas poucas pessoas passa a ser visto como verdade.
PLANETA
– Grande parte dos conflitos entre as pessoas ocorre por
causa de opiniões...
Radha – As pessoas só brigam por opiniões quando fecham
as portas da sua mente. Também há uma dificuldade de perceber
a diferença entre uma opinião, que é resultado dos condicionamentos
do cérebro, e uma percepção interior, um insight, que vem
de um contato mais direto e íntimo com as coisas como elas
são. Mas as diferenças de opinião são necessárias, porque
a diversidade é parte do processo de manifestação do universo.
Há uma riqueza enorme no fato de que as pessoas olham para
tudo de várias maneiras e fazendo diferentes interpretações.
A diversidade é uma manifestação da riqueza da existência.
Mas em vez de considerá-la como uma maravilha e como um indício
do conteúdo imensurável do universo, as pessoas estão condicionadas
a ver os elementos diversos da vida como se fossem separados
e estivessem em conflito. Esse condicionamento é um problema
enorme. A diversidade pode ser uma fonte de inspiração. Ela
é bonita – só não reconhecemos isso porque estamos condicionados
a pensar que diferença significa conflito.
PLANETA
– Há uma dualidade, às vezes trágica e às vezes cômica,
na vida humana: de um lado, aquilo que é divino; de outro,
o que é terreno e animal. Como melhorar, na prática, a qualidade
dessa relação entre “eu superior” e “eu inferior”?
Radha – O que é chamado de “lado inferior do ser humano”
é, na verdade, um reflexo, um espelho, do mais elevado. Se
ocorrer um processo de refinamento, haverá uma harmonia natural
entre cada elemento da alma imortal e o seu elemento correspondente
da personalidade inferior. Assim, a purificação das emoções
liberta a intuição espiritual (buddhi); os sentidos
físicos, purificados, se unem ao espírito imortal (atma),
e o que se chama normalmente de “mente inferior”, quando purificada,
se une à mente superior. Quando as emoções são purificadas
e o único desejo é o bem-estar do conjunto dos seres vivos,
a vontade não empurra a mente para os níveis inferiores, mas
facilita a união daquela mente inferior com a mente superior.
Nota
(1) O Caminho do Autoconhecimento, de Radha Burnier
(formato de bolso), Editora Teosófica, Brasília, 2000, 123
pp. Pedidos pelo telefone 0800-61.00.20. Radha Burnier tem
também outros livros traduzidos para o português, inclusive
A Regeneração Humana (Ed. Teosófica, 1992, 172 pp.).
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