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Entrevista
Como
trabalhar no que se gosta
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Alex
Soletto
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| Apego
excessivo a bens materiais: caminho anestesiante. |
PLANETA
– Gostar do que se faz é uma condição fundamental para
alguém ser um bom profissional. Num país em crise, como é
o caso do Brasil, quais são as chances de uma pessoa considerar
isso na hora de escolher um emprego?
Flávio – Espero que ao terminar esta entrevista fique
claro que é impossível ser bom naquilo que nossa natureza
quer evitar! Não se esqueça de que o prazer existe como forma
de a natureza nos indicar que estamos no caminho certo. Portanto,
ele existe para nos ensinar como sobreviver; e sobreviver,
em si, já é uma fonte enorme de prazer. Agora, não levar em
consideração as ordens da nossa natureza é estar transgredindo
uma das leis básicas da ordem implícita das coisas. No aperto,
alguém constrói um barraco num morro condenado por possíveis
deslizamentos. Existe uma alta probabilidade de vir a se dar
mal, se ele de lá não se mudar. A situação é perfeitamente
análoga.
PLANETA
– Munidos das melhores intenções, muitos pais acabam dirigindo
a escolha profissional dos filhos, que, por vezes, chegam
até a trilhar uma carreira de sucesso. Nesse caso, você diria
que tais pessoas aprenderam a ter prazer com aquela profissão?
Flávio – Se houve sucesso, significa que existe o prazer
genuíno ou aprendido. Sucesso sem prazer não pode existir.
Como é que você pode ter sucesso lutando contra o vento o
tempo inteiro? Não se esqueça de que, ao mesmo tempo, há outra
pessoa que vai de vento em popa. E como é que elas se comparam?
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Frieder
Blickle
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| Aeromoça
da Lufthansa em ação: bom desempenho garantido pela
satisfação. |
PLANETA
– De modo geral, acredita-se, no mundo ocidental, que todo
processo de aprendizado envolve, em maior ou menor grau, certa
dose de sofrimento. De onde vem essa crença?
Flávio – Vivemos de fato numa sociedade sofredora.
Nossa herança cultural, em algum momento, cometeu a imbecilidade
de banir a bússola mais perfeita disponível para o ser humano.
Aí se inclui também o Oriente, onde isso pode chegar a ser
mais brando, mas, mesmo assim, ali também se condena o prazer,
que tem de ser deliciado às escondidas. No processo de aprendizado,
é importante se conhecer os limites; e, quando lá chegamos,
o desprazer é a forma como a natureza nos comunica que o caminho
não é por ali e deve ser evitado. Acredito que essa crença
generalizada advém da ignorância total do homem primitivo
diante das terríveis e incompreensíveis catástrofes que volta
e meia o assolavam; isso indicava a fúria dos deuses impondo-lhe
constantes penalidades. É claro que, para o ser primitivo,
isso demonstrava que os deuses desejavam que ele sofresse,
e o prazer entrou numa gelada até os dias de hoje. E note
que ele só vai ser redimido por uma coisa chamada globalização,
que exige eficiência máxima. Isso somente ficou evidente quando
se constatou que é impossível atingi-la sem que haja prazer.
Foi quando se fez a simples constatação inicial de que quem
faz com prazer, faz melhor. Portanto, para se ser melhor é
imprescindível que se tenha prazer.
PLANETA
– Segundo você, a atividade prazerosa sintoniza-se com
o ra-ciocínio intuitivo, muito mais desenvolvido nas mulheres.
Você acredita que o mundo dos negócios seria mais saboroso,
digamos assim, se tivéssemos mais mulheres em cargos de direção?
Flávio – Sem a menor dúvida. Mas se e quando tivermos
mais mulheres agindo como mulheres, onde elas são insuperáveis.
PLANETA
– O trabalho voluntário (voltado para a comunidade) é um
dos itens desejáveis em uma empresa considerada boa para se
trabalhar. Que tipo de prazer buscam as pessoas que optam
por esse tipo de atividade?
Flávio – Uma das sabedorias fundamentais do I Ching
é que não existe maior crescimento a partir de um dado momento
se não houver um compartilhamento daquilo que cresceu. Como
essa é também uma das leis da ordem implícita das coisas,
o seu atendimento resulta em prazer. Consciente ou inconscientemente,
essas pessoas reconheceram tal lei e, assim procedendo, dão
continuidade ao seu crescimento, que, como todo crescimento,
resulta em prazer.
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