Waters grava CD, mas não pode gravar Pink Floyd
Roger Waters chega à América Latina com a carga de um mito na música. Onde quer que pise, fãs se aglutinam para venerar uma figura que musicalmente alterou vidas, momentos, lembranças de várias gerações. O baixista sabe disso, mas não leva tão à sério a coisa toda: "Eu não tenho a pretensão de ser melhor do que ninguém. Algumas das coisas mais valiosas do mundo estão na noção de compreensão entre as pessoas", disse em entrevista divulgada por sua assessoria.
Com 57 anos, Waters está em um estágio interessante de sua carreira e está trabalhando em um novo disco. Curiosamente, por extravagância de contrato, é a única pessoa no mundo que não pode regravar as músicas do Pink Floyd. "A EMI teve que conversar com os outros componentes do Pink Floyd, e eu não fiz parte dessa conversa. Não quero dizer que a EMI seja a vilã da história, afinal negócios são negócios. Mas isso me deixou muito chateado", conta.
Confira abaixo a entrevista:
Você não fazia shows há 12 anos. Agora, em seu retorno aos palcos, optou por fazer uma entrada dramática: as luzes se ascendem logo no primeiro acorde de In The Flesh e revelam a sua presença no palco. O que você pretende comunicar com isso?
É uma boa abertura, que permite que eu me conecte, logo no começo, com a ironia presente nas músicas. Dessa forma, eu e o público podemos curtir essa ironia. É uma boa maneira de perceber que estamos todos na mesma situação, na mesma piada.
Há fãs de todas as idades nos shows, desde aqueles que estavam na escola na época em que The Wall foi lançado, até os que estão na escola hoje. Todos gostam das músicas da mesma forma. Parece que o legado do Pink Floyd continua tão atual e importante quanto na época que você escreveu as músicas.
Parece que sim, parece que gerações sucessivas descobrem essas músicas à medida que vão entrando na puberdade. E... Isso é legal.
Além de cantor e baixista, você é um dos compositores mais significativos do rock. Embora muitos clássicos do Pink Floyd tenham sido compostos por você, consta que você teve problemas para gravar em disco os shows da turnê In The Flesh... O que aconteceu?
Descobri que havia alguma coisa estranha em relação ao meu contrato solo com a Sony e o contrato do Pink Floyd com a EMI. Devido a certos itens nos contratos, eu passei a ser a única pessoa no mundo que não podia regravar as próprias músicas
Como assim?
A EMI ainda está ligada aos meus ex-colegas, e tinha restrições em relação a regravações das músicas originais do Pink Floyd. Por isso, eu precisava da permissão da EMI para regravar as músicas. A EMI teve que conversar com os outros componentes do Pink Floyd, e eu não fiz parte dessa conversa. Não quero dizer que a EMI seja a vilã da história, afinal negócios são negócios. Mas isso me deixou muito chateado.
A indústria musical melhorou ou piorou desde que você escreveu Welcome to the Machine?
É difícil dizer, porque eu não estou muito envolvido com a indústria musical ultimamente. Tem gente na indústria que realmente gosta e se preocupa com música, mas o principal, o objetivo final de tudo isso é o lucro. Se elas pudessem ter lucro sem música, fariam isso.
Tudo é produto hoje em dia?
Está cada vez mais fácil tratar a expressão pessoal de alguém como produto. É muito simples empacotar e vender qualquer coisa. Atualmente, aqueles que escrevem para se expressar, que têm algo a dizer, enfrentam um duro caminho, a não ser que topem o mercantilismo. É mais difícil abrir caminho hoje e alcançar o grande público, em comparação com o que era há 30 anos. Por outro lado, isso pode se tornar mais fácil, porque praticamente todo mundo pode fazer música em casa, usando o computador. Qualquer um pode fazer um CD que pareça ter sido gravado por músicos de verdade. Mas para compor algo que faça diferença é preciso viver, ir fundo nas emoções, e isso não acontece quando você se senta numa sala fria e pensa apenas em como faturar mais.
Como é a sua relação com Syd Barrett, co-fundador do Pink Floyd?
Bem, nós éramos muito amigos, eu com 17 anos e ele com 15. Fundamos o Pink Floyd e dividimos este sonho. Ele era extraordinariamente criativo e cheio de vida, antes de ficar doente. Depois que ele saiu da banda, nós ficamos sem esta faísca de criatividade. Ele foi muito importante no início do Pink Floyd. Mostrou o que era possível fazer, se a gente tivesse coragem para correr riscos.
Nessa turnê você se juntou a alguns dos melhores músicos da atualidade. E pela primeira vez é uma mulher que canta a parte central da música Mother. Como foi isso?
Katie é uma grande cantora, e sua participação em Mother ficou muito boa. É interessante ouvir essa parte da música cantada por uma mulher. Eu relutei um pouco em fazer isso. Sabe, depois de um tempo, a gente fica muito ligado à maneira antiga de fazer as coisas. Mas depois que eu fui convencido, gostei muito do resultado, acho que ela fez um ótimo trabalho
Uma das músicas de In the Flesh é Set the Controls for the Heart of the Sun, uma grande escolha do começo da carreira do Pink Floyd. O que significa esta letra hoje? Por que você resolveu voltar a tocá-la?
Porque é uma das primeiras músicas do Pink Floyd, e uma das minhas primeiras composições. Na verdade, foi a minha primeira composição a ser gravada. É um pedaço de uma poesia chinesa. Na verdade, a única frase minha é o título. Praticamente todo o resto foi retirado dessa poesia chinesa. A música mexe muito com as pessoas, desde que foi gravada pela primeira vez, em A Saucerful of Secrets, e eu gosto disso.
Para muitos o solo de guitarra de Andy Fairweather-Low em Money é o ponto alto de todo o show...
Eu sempre gostei dessa música, e no show ela está diferente da gravação original, com a guitarra de Andy Fairweather-Low. Acho que a letra diz tudo, não é preciso falar muito a respeito. Eu não tenho a pretensão de ser melhor do que ninguém. Algumas das coisas mais valiosas do mundo estão na noção de compreensão entre as pessoas. Todo mundo precisa de amor. A maneira que eu tenho de ser amado é ficar no palco e fazer meu show, tocando e dizendo o que penso e sinto.
Muita gente ficou feliz por você ter incluído no show quatro músicas de Amused to Death, porque não houve turnê de lançamento dele.
Eu gostaria de ter feito uma turnê, mas não houve muita reação na época do lançamento de Amused to Death. O disco passou quase despercebido.
It's a Miracle fala da relação entre os países ocidentais com o consumo, e isso é um assunto que realmente preocupa você.
É importante que todo mundo proteja aquilo que nos une, e que nos liga à Terra e aos nossos ancestrais. E a maneira que nós temos de fazer isso é mantendo nossa herança cultural. O que eu vejo é essa herança cultural sendo destruída, erodida pelas multinacionais, que precisam espalhar o desejo de lucro pelo mundo. Eu não acredito no valor das franquias de fast food. E muita gente gosta desse lixo. Nós precisamos descobrir algo melhor do que as leis do mercado para reger nossas vidas.
E o que seria?
Essa é a grande questão... Temos que descobrir. Temos que descobrir algo melhor para colocar no lugar do mercado livre, que se tornou o nosso Deus. Se continuarmos a acreditar que o mercado livre é a panacéia para todos os males que existem, vamos transformar o mundo em um grande shopping, com lojas de fast food a cada esquina. O mundo vai se tornar caótico.
Você está trabalhando em algum projeto atualmente?
Estou trabalhando em um novo álbum. Uma das músicas dele será Each Small Candle, que encerra o show In the Flesh.
Conte a história de Each Small Candle...
Há alguns anos, fui abordado por um jornalista italiano, que estava tentando levantar fundos para uma organização chamada "Iniciativa Contra a Tortura". Nós conversamos pelo telefone, e ele me mandou um poema que tinha sido escrito por uma vítima de tortura na Argentina. Eu traduzi este poema para o inglês, adicionei versos e o transformei na letra dessa música. Algum tempo depois, li no jornal uma história sobre um soldado sérvio que descumpriu ordens superiores e ajudou uma mulher albanesa. Esse ato tão humano, passando por cima de diferenças culturais, étnicas e nacionais, me deu um pouco de esperança. Então escrevi mais alguns versos sobre esse incidente e juntei ao poema sobre tortura. E foi assim que Each Small Candle nasceu.
As duas últimas faixas de Dark Side of the Moon estão entre as que despertam mais entusiasmo no público durante o show. Você ainda se sente ligado a elas, escritas há quase 30 anos?
A frase "I see you on the dark side of the moon", do coro de Brain Damage, acabou se tornando uma das frases mais famosas da história do rock, e eu acho que isso acontece porque todos nós nos sentimos desconectados da realidade, de vez em quando. As pessoas se identificam com a música, e por isso ela se tornou não popular. Cada vez que canto essa música, me sinto mais ligado a ela do que em 1972 ou 73, quando a escrevi. Nesse momento me sinto perto de velhos amigos, que morreram ou foram embora. Eu penso neles. Essa música me leva de volta no tempo.