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Herbert, Bi e Barone descrevem a estrada
Herbert Vianna chama Longo caminho de "o disco da minha renascença", uma definição precisa para um CD que começou ao longo do processo de recuperação do acidente que ele sofreu em 4 de fevereiro de 2001. Ao mesmo tempo em que é um renascimento, representa também uma continuidade dos planos que Herbert, Bi Ribeiro e João Barone esboçaram no final de 2000, que seriam uma parada de seis meses para reciclagem sonora e a subseqüente gravação de um disco de rock basicamente em trio.
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Os ensaios começaram ano passado no estúdio Tweety, na casa do Herbert, para auxiliar sua recuperação, mas os progressos foram rápidos e logo eles estavam selecionando o repertório. Todas as músicas do novo CD foram compostas antes do acidente. Para a produção, escolheram Carlo Bartolini, o Carlinhos, ex-guitarrista do Ultraje a Rigor, que já trabalhara com o trio na produção de Aonde quer que eu vá , a música inédita que entrou na compilação Arquivo II e na produção de O som do sim, o terceiro CD solo de Herbert Vianna. As gravações das bases foram feitas em 15 dias em março e abril deste ano nos estúdios AR no Rio, com vozes e overdubs em maio e junho no Estúdio Tweety, a mixagem em um mês no estúdio Mega, em São Paulo e a masterização no Marcussen Mastering, em Hollywood, Califórnia. Na entrevista a seguir, os Paralamas explicam como tudo aconteceu e Herbert Vianna fala sobre sua recuperação.
Quando é que os Paralamas retomaram os ensaios E o que vocês tocavam?
João Barone - Quando o Herbert voltou para casa, a gente foi acompanhando e tentando ver em que momento poderíamos começar a tocar juntos novamente. Se a gente parar agora para avaliar foi até bastante rápido o momento que a gente percebeu que o Herbert estava bem.
Bi Ribeiro - Ele começou a tocar bastante cedo, em junho do ano passado, uns quatro meses depois do acidente.
Barone - Quando a gente parou de fazer show, estávamos prevendo uma longuíssima parada de uns seis meses (risos). A banda estava acostumada a um ritmo de trabalho muito intenso nos últimos cinco anos, com muitas turnês e lançamentos de discos. Estávamos fazendo a turnê do Acústico junto com a turnê do elétrico. Fizemos nosso último show acústico em dezembro, nas vésperas do Natal. Quando começou 2001, estávamos numa empolgação muito grande porque o Herbert já tinha mostrado várias composições novas e a gente tinha um material sendo manipulado. No final de 2000, a gente já estava ensaiando e tínhamos uma idéia de fazer alguns shows-surpresas com esse material novo, só em trio, em lugares pequenos...
Bi - E chegamos a fazer alguns.
Barone - A gente ensaiou um repertório de covers de The Police, Elvis Costello, The Jam, The Clash, que eram as nossas origens de rock, principalmente dos anos 80. A gente estava até embutindo no meio desse pequeno repertório algumas músicas novas.
Bi - Os arranjos já eram para trio porque a gente já queria que o disco fosse tocado por nós três.
Barone - Estávamos com uma expectativa grande de começar a trabalhar antes mesmo do que a gente imaginava e quem sabe até lançar o disco. E aí aconteceu isso tudo. Passamos por um período bastante conturbado de não saber o que ia acontecer, mas a gente se agarrava na esperança de que o Herbert ia se recuperar. Nos juntamos a essa corrente incrível com todo mundo que acompanhou o drama do Herbert e a recuperação dele, milagrosa.
No meio do ano, o Herbert já estava tocando violão. Quando vocês começaram a ensaiar na casa dele?
Bi - Logo em seguida começamos a ensaiar só nós três. As primeiras coisas que a gente tocou eram coisas nossas, como Alagados e Meu erro. Todas as que a gente ia puxando o Herbert ia junto. As novas também, que estão no disco, a gente começou a tocar logo.
Barone - Foi uma emoção muito grande poder constatar que o Herbert estava com a memória musical totalmente intacta. A gente começou a usar os ensaios como um exercício muito importante para o restabelecimento do Herbert e de lá para cá foi num crescendo. No ano passado, a gente conseguiu ensaiar com a banda inteira em várias ocasiões. Foi uma alegria muito grande ver a maneira como o Herbert estava se reerguendo e continua se reerguendo. Quando a gente viu, já estava preparando material para o disco novo.
Herbert, quando começaram os ensaios então, eles que foram te puxando, te trazendo?
Herbert Vianna - Bom, eu não tenho memória, mas presumo que sim, porque sei que em vários momentos eu decolava numa outra língua e tinha uma coisa completamente bizarra mesmo.
Estava lutando pelo controle, né?
Herbert - Eu não veria exatamente uma tentativa de controlar, no mau sentido... Era de tomar algum fôlego, de sentir alguma solidez nas referências, no que estava ali. Uma coisa muito difícil.
Com a progressão dos ensaios, quando é que vocês sentiram que dava para começar a pensar num disco e organizar o repertório?
Barone - Entre setembro e outubro do ano passado, um pouquinho antes daquela primeira aparição do Herbert na TV. Quando ele tocou, em Brasília, para os pacientes do Hospital Sarah, aquilo teve uma repercussão incrível. Toda aquela turma que estava esperando alguma notícia do Herbert, assediando muito a família, pôde finalmente avaliar o quanto ele estava bem, o quanto ele estava se recuperando. Naquele momento, a gente já estava manipulando as músicas inéditas que o Herbert fez antes do acidente. Tínhamos praticamente formatado quatro músicas, que eram O calibre, Seguindo estrelas, Flores no deserto, que foi uma letra que o Herbert fez em homenagem ao Marcelo Yuka [do Rappa] depois daquele acontecimento terrível com ele, e uma que o Herbert tinha dado para o pessoal do Penélope gravar, Junto ao mar, que a gente acabou até deixando de lado. Enfim, a gente tinha essas quatro músicas que já estavam bastante prontas e estavam dando uma direção muito interessante para o que a gente queria realmente fazer, que era voltar ao trio, toda a parte de melodia e de harmonia. Daí a gente começou a dar uma vasculhada no baú de composições do Herbert. Este processo foi até muito curioso porque a gente encontrou várias músicas bacanas que a gente não sabia que o Herbert tinha dado para outras pessoas. Aí, acabou entrando Soldado da paz, que o Cidade Negra gravou. A gente fez uma coisa muito diferente com um arranjo totalmente The Who. Posteriormente, quando a gente já tinha fechado o repertório, soubemos que uma delas, que foi Longo caminho, tinha sido gravada pela Zélia Duncan para o novo disco dela. Ficamos numa situação meio delicada porque a música tinha crescido muito, a gente estava adorando e tinha virado o nome do álbum. Falamos com a Zélia e ela foi muito bacana, supernobre, e abriu mão de lançar a música no disco dela. Enfim, a gente precisa muito agradecer a ela por esse gesto maravilhoso.
Naquela nossa última entrevista, vocês disseram que estavam querendo trabalhar com pessoas novas que dessem um input diferente ao Paralamas. Vocês disseram que sempre foram muito respeitados pelos produtores, que eles interferiam pouco e que agora vocês queriam interferência. Queria que vocês falassem sobre a escolha do Carlo Bartolini que, apesar de ser um veterano dos anos 80 (ele era guitarrista do Ultraje a Rigor), surgiu há pouco tempo como produtor.
Herbert - Minha memória está bastante chamuscada, mas eu tenho uma vibração muito positiva por ele. É um cara muito curioso, experimental com todas as coisas que a tecnologia oferece, principalmente na maneira caseira de você ter um bom resultado musical e da escassez você conseguir ainda assim qualidade muito avançada. Ele é muito empenhado nisso e foi um luxo total ter este estofo positivo num disco que eu chamaria de o disco da minha renascença.
Barone - O Carlinhos produziu duas faixas no último álbum solo do Herbert, O som do sim. O Herbert ficou muito empolgado com o jeito dele e acabou convencendo a gente de que ele poderia trabalhar em algum momento com os Paralamas. Ele faz tudo sozinho. Ele é o produtor, o técnico de som, o enrolador de cabo no estúdio. Só ele. Foi um processo que veio num crescendo muito bacana. Em 2000, a gente lançou a compilação Arquivo II, com uma música inédita que era Aonde quer que eu vá e foi o primeiro momento em que a gente trabalhou com o Carlinhos. Ele realmente provou ser um cara muito legal. Passou muitos anos, em Los Angeles, trabalhando em estúdio e produzindo bandas, e aqui no Brasil também, com o Herbert, com o Sepultura, com o pessoal do rap de São Paulo, fazendo coisas muito bacanas. Como a gente já tinha essa idéia de fazer um disco sem pressa, o Carlinhos contribuiu muito, porque a gente teve um tempo muito bom de pré-produção na casa do Herbert, conversando como seria a técnica de gravação e tudo mais. Foi muito interessante.
Bi - Ele foi o produtor que mais trabalhou com a gente porque ele pegou desde o começo dos ensaios. Como mora em São Paulo, ele se mudou para o Rio e ficou seis meses com a gente.
Barone - Ele parou a vida dele para ficar com a gente. Foi uma coisa bonita ver a empolgação e o empenho dele. Ele contribuiu muito para o disco ficar do jeito que ficou porque ele tinha muito conhecimento prático. Por exemplo, ele convenceu a gente a fazer uma coisa que estávamos devendo para nós mesmos há muito tempo, que era gravar um disco ao vivo no estúdio, todo mundo tocando ao mesmo tempo.
Bi - Dentro da mesma sala, sem fone, sem nada.
Barone - Ele colocou um PA dentro do estúdio para dar sujeira e peso ao som. Foi muito interessante porque, ao mesmo tempo que foi sem pressa, acabou fluindo de uma maneira muito legal. Na verdade, foi até muito rápido porque a gente passou praticamente uns 20 dias no estúdio AR, no Rio, gravando no estúdio 2, que tem uma sala muito boa. O Carlinhos usou uns conceitos muito legais. Por exemplo, para microfonar a bateria, ele fez uma multimicrofonação. Havia basicamente três microfones para cada tambor e vários microfones de ambiência. O baixo ficou do lado da bateria e a guitarra perto também. A gente sempre tinha aquele pudor sobre vazamento dos microfones na mesma área e acabou funcionando de uma maneira incrível. Quase todas as bases a gente gravou no AR com a guitarra do Herbert ficaram valendo. Num segundo momento, a gente voltou para a casa dele para gravar vozes, overdubs de guitarra e algum outro detalhe, como os naipes de metais. No disco, têm pouquíssimas coisas com naipes e percussão. Os teclados também foram gravados ao vivo porque a gente usou um órgão Hammond. Chamamos a mesma rapaziada que toca com a gente, mas fomos bem mais modestos e eles só complementaram um pouquinho com detalhes. Na casa do Herbert, a gravação também foi bem rápida e o Carlinhos teve tempo também para botar uma lente de aumento em todas as coisinhas que rolaram lá. Havia uma expectativa muito grande no que seria a mixagem do disco porque o Carlinhos estava terminando de fazer um estúdio simplesmente top line, em São Paulo, que é o Mega, possivelmente o primeiro estúdio no Brasil a ter sido feito do chão para cima, com mixagens e gravações em 5.1, que é o novo sistema sensorial principalmente para o áudio dos DVDs.
A filosofia de gravação deste disco foi diferente do que vocês vinham fazendo até então. Vocês entupiam tudo dentro do Pro Tools e depois saíam cortando...
Bi - O Hey Na Na foi assim.
Agora foi tudo feito com a idéia de gravar direto e valendo?
Bi - Exatamente. Tem um detalhe muito interessante nesse disco também, que a gente não usou o click, um reloginho para ficar todo mundo no trilho e favorecer qualquer outro tipo de edição. Gravamos sem nenhum tipo de click track, o que nos deu uma sensação de "respirar" muito interessante. Uma das idéias que o Herbert teve em Seguindo estrelas foi fazer o refrão dela mais rápido. Era legal ter essa liberdade de poder gravar sem ficar eternamente escravo do tempo.
Poderíamos dizer que a gravação fica mais humana, então, né?
Barone - Acho que a gente conseguiu manipular bem todos esses mundos e dar esse caráter mais humano, como eram os discos dos anos 60 e 70. Ficou muito bacana. Quando a gente ouviu o disco pronto, sentimos muito orgulho de ter apostado no conceito do Carlinhos, que ajudou a dar esse formato às canções.
O disco tem cinco músicas lentas, três rápidas, três em midtempo. Foi essa intenção, ter mais música lenta?
Barone - Engraçado, porque a gente tem uma sensação de que o disco é pesado e rápido. Acho que músicas mais impactantes, como O calibre e Soldado da paz, meio que sugerem que o disco seja realmente um disco de rock e pesado. Tem uma outra coisa muito interessante que é o fato de ser parecido com os discos antigos, onde se tinha o máximo de 17, 18 minutos de cada lado do vinil. Este disco tem quase 37 minutos, talvez menos até, e é legal porque não se torna aquela coisa meio maçante dos CDs atuais em que todo mundo quer aproveitar os 74 minutos.
Não teve nem o trabalho de, por exemplo, acabar alguma letra Estava tudo pronto?
Barone - As músicas já estavam todas bem orientadas. O Herbert tem uma capacidade muito boa de, já numa demo, entregar as coisas para que a gente consiga entrar com o que a ache legal, a coisa da interação e tudo mais. Foi bacana ver que as demos do Herbert já apontavam numa direção muito clara.
Você não quis mudar nada nas músicas, Herbert?
Herbert - Não lembro de ter tido esta vontade porque me parece que elas têm uma naturalidade e uma convicção. Na minha coisa espiritualista, eu tenho uma dúvida bastante substancial: se eu vou conseguir eventualmente produzir alguma idéia que sirva para um disco e que a gente tenha uma concordância sobre isso. Não fico pedindo: "Meu Deus do Céu, me dá mais canções na cabeça", mas pedindo a nossa possibilidade de continuísmo no trabalho, da gente estar muito velho um dia e ainda estar rindo e tocando. Ter ainda assunto para falar, para interessar as pessoas, mesmo que seja de um ponto de vista bizarro mesmo do tipo: "Olha os três velhotes ali tentando agradar". A nossa irmandade é muito sobrenatural mesmo, muito forte.
Barone - O Herbert sempre teve essa aflição, principalmente nesse momento pós-parto quando a gente acaba de gravar um disco. Ele sempre foi um cara que projetou o futuro e tentou ver o que que a gente iria fazer daqui em diante. A gente pode até entender a aflição dele no sentido de ainda não estar totalmente dono dos pensamentos, da gente estar aqui agora emprestando um pouco da nossa memória enquanto ele recupera a dele. A nossa memória também já falha muito, a velhice está chegando, está todo mundo com 40 anos aqui. (risos)
Bi - O Herbert contribuiu bastante nos arranjos, mudou alguns que já estavam mais ou menos bolados, e sugeriu algumas coisas que fizeram a gente mudar a música totalmente. Cada um deu a sua parte.
O calibre tem uma ligação com as duas primeiras músicas do O som do sim, que são O muroe A história de uma bala. Esta música é do mesmo pacote? Eu queria que você falasse um pouco sobre a gravação, quantas guitarras ela tem?
Bi - Ela foi composta bem depois, ela é do fim de 2000.
Herbert - Não tem uma efeméride de guitarras. Tem um riff bastante básico, venoso, que é o que ficou da gravação ao vivo, e mais um dobrando, um em cada lado do estéreo, só isso.
Barone - As nuances do trio estão bem claras neste disco novo. Mas a guitarra é um negócio que te proporciona esses artifícios de complementar com uma dobra, fazer um som um pouco mais agressivo na hora do solo. Como o Herbert sempre se esmerou muito e e o Carlinhos também é guitarrista, juntou a fome com a vontade de comer.
Queria falar sobre as letras. Você lembraria de Seguindo estrelas?
Herbert - Se eu tivesse que espremer a minha cabeça, imagino que falaria sobre espiritualidade, essa coisa de "sigo palavras e busco em estrelas, o que é que o mundo fez para você." Enfim, acho que é uma busca espiritual mesmo, uma coisa conectada com espiritualidade, mas não tenho idoneidade suficiente para dizer "foi isso que me ocorreu naquele momento".
Longo caminho, como vocês disseram, se tornou o símbolo da retomada dos Paralamas?
Barone - É uma música com aqueles elementos que a gente manipula muito bem de misturar um pouco de reggae com rock. Ela tem uma parte mais cool, que é o início e ela vai num crescendo até chegar no refrão que é uma parte mais pesada. E aí a gente usa um pouquinho mais da nossa influência de reggae mesmo.
Bi - Essa é uma música, por exemplo, que não tem overdub. O Herbert fez ao vivo e ficou do jeito que foi gravada. Só botou a voz depois.
Soldado da paz é muito oportuna neste momento em que o mundo se encaminha para uma outra guerra. Senti também uma conexão até com o Geraldo Vandré de Para não dizer que não falei das flores.
Herbert - Além do rasgo de alguma idéia ter servido naquela mente brilhante e tenha vindo parar na minha, tem também o fato do qual eu tenho muito orgulho, que é nós dois termos nascido na Paraíba. Já que a gente deu o pontapé inicial nesse estágio onde eu, pretensiosamente, chamo de meu renascimento, eu torceria muito se a gente pudesse fazer nosso primeiro show em João Pessoa. Seria uma coisa muito comovente.
Barone - A gente chamou o Dado Villa-Lobos para participar da música porque sendo um rock mais pesado, que ele gosta, poderia render bem. Já faz algum tempo que a gente considera o Dado um membro honorário da banda e sempre que ele pode, ele chega junto.
Herbert - Espiritualmente, ele é um soldado da paz.
Bi - Como tinha participado dos nossos últimos discos, Hey na na e Acústico, a gente falou: Vamos chamar o Dado. Sou Dado da paz.
Flores do deserto, que você fez para o Marcelo Yuka, tem uma citação Beatle, né? Alguma lembrança em relação a essa música?
Herbert - Bom, o "tolo da colina" é uma tradução literal mesmo de The fool on the hill. Eu sentia que tinha um quê "john lennoniano" no Yuka e não estava pensando ou admitindo botar uma expressão em inglês no meio de uma canção tão direta. Aí, a tradução teve um som bom no meu filtro e chegou lá.
Barone - Essa música, eu ousaria em dizer, tem uma coisa meio do Metallica. Ela começa bem esse arpejozinho, tem a parte pesada e tem uns claros e escuros bacanas. Ela é uma outra tentativa de usar as notas de rock que a gente está carregando na tinta neste disco.
O The Jam é uma velha admiração. Há muitos anos vocês falam nas entrevistas sobre a banda e agora gravaram Running on the spot?.
Herbert - O Paul Weller é um compositor privilegiado, muito inteligente, que tem muita convicção e pesquisa muito. Ele sempre abriu cortinas para as pessoas que começaram a consumir aquela coisa new wave pós-80 se conectarem com outras referências. Running on the spot é uma canção que a gente adoraria ter feito e é uma ótima pedra na nossa estrutura de gosto e amplitude musical, até mesmo de conhecimento lingüístico.
Bi - Essa música é legal porque a gente já tocava quando começamos em 81, 82.
Na época vocês não tinham repertório para um show inteiro ainda...
Barone - Tocávamos músicas inglesas ou americanas. A gente tocava essa música nessa época e ficou um tempão sem tocar. Quando a gente foi ouvir a versão do The Jam, que não ouvíamos há muito tempo, há uns vinte anos, vimos que era bem diferente. Ela foi andando dentro da nossa cabeça, com nossos arranjos e ficou bem diferente.
.A música do The Jam tem um significado muito forte, ela fala de uma geração alijada e que segue líderes que não prestam. Vocês acham que era um retrato da geração de vocês, pós-punk
A geração dos anos 80?
Herbert - Não lembro de tê-la visto com esse grau de análise porque a gente certamente gostava muito e ainda gosta muito é da coisa da veia levantada mesmo. É muito a cara do Paul Weller. No Style Council, por exemplo, ele teve o lado mais soft, de tentar algumas coisas mais soul. Mas, o Jam era bastante rasgado, aquela coisa que você sentia a veia levantada mesmo..
Sobre Flores e espinhos...
Barone - A gravação desta música tem algumas peculiaridades. A gente já tinha gravado ao vivo, no AR, e estávamos na casa do Herbert botando as vozes quando o Herbert cismou com o arranjo e a gente regravou tudo. E aí o Fito Paez foi lá visitar a gente. Ele veio fazer um show no Rio e, para nossa surpresa, o Herbert foi lá ver o show, a coceira foi grande, ele subiu e deu uma canja. Foi sensacional e, depois desse show, Fito foi na casa do Herbert. Ele acabou participando do disco, tocando órgão nessa música. Foi uma surpresa muito agradável contar com a presença do Fito, um grande comparsa nosso nas nossas idas e vindas para a Argentina e é sempre legal fazer esse intercâmbiozinho com aquela turma bacana lá de Buenos Aires.
O disco deve ser lançado na Argentina e já tem pelo menos uma música em espanhol, La Estacion. Vocês vão fazer versões em espanhol como nos outros discos?
Barone - Não, a gente não programou isso ainda não. Acho que vai sair desse jeito na Argentina.
Herbert - É, acho que ela tem uma mordida bastante peculiar porque os argentinos falam espanhol de maneira bastante específica, bastante clara. Quando você ouve alguém falando espanhol você sabe dizer quase que imediatamente se é argentino ou não. E essa composição tem uma mordida bem argentina. Vamos torcer e, de repente, levar o nosso carnavalzinho para lá e sacudir.
E a bucólica Hinchley Pond, que está linda?
Herbert - Hinchley é o nome da fazenda dos pais da Lucy, aonde ela nasceu, e lá tem um lago. É uma fazenda muito antiga, que fica em Worcester, perto de Birmingham. Esta é uma tentativa de expressar alguma coisa em inglês e é uma coisa da qual eu me orgulho muito, mas do ponto de vista emocional. Ela tem uma viagem musical muito bonita, é como uma bela aquarela, muito rebuscada, muito fina mesmo.
Bi - Nesta música, o Carlinhos queria gravar com todas as guitarras do Herbert e só no Pro Tools isso é possível porque tem uma infinidade de canais, mas ele não gravou com todas. Só tem 28 guitarras.
Barone - A gente utilizou um recurso para gravar a bateria com a fita no dobro da velocidade e depois quando botamos na velocidade normal ficou essa bateria meio grave, um som meio estranho, que parece alterado. Ficou uma vinhetinha superbacana no final do disco, parecendo um final de filme do Chaplin...
Vamos falar de Cuide bem do seu amor, que vai estar na trilha da novela Sabor da Paixão.?
Herbert - Eu não vejo como uma canção romântica, mas espiritualista. Eu diria que é uma convicção que eu tenho e que transcende muitas vezes o meu falar. Volta e meia vem com muita força um pensamento espiritualista na minha cabeça e essa música também vejo como um jorro desse canal.
Herbert, você se lembra do acidente Se não lembra, qual a última lembrança e qual a primeira depois dele Você lembra do hospital?
Herbert - Eu não tenho nenhuma lembrança desses episódios. A minha mãe, principalmente, que está lá em casa cuidando da vida prática da garotada, de vez em quando me conta alguma história. Eu não tenho, por exemplo, nenhuma lembrança de ter assumido nenhum vôo e eu sei que eu voei ultraleves e helicópteros. Lembro que o meu pai voava de helicópteros e ele sempre falava para a gente na infância que a coisa mais difícil que ele já tinha visto na aviação era um bom pouso de helicóptero. E ele me falou que um dia eu reboquei ele para voar e fiz alguns pousos com ele, com um sorriso nos olhos e dizendo: "Tá vendo, pai? Beleza? Tá bom?".
Essa memória foi apagada, né?
Herbert - Foi. Eu não lembro de nenhum estágio, de nenhum vôo, de nada.
Queria saber como está a sua condição física nesse momento, se você ainda sente dores, se toma muitos medicamentos?
Herbert - Eu tomo um bocado, mas eu sei que está começando a reduzir os números.
Você continua amando a Fórmula 1?
Herbert - Tenho interesse, mas agora não tenho uma coisa tão específica porque ter um herói do calibre do Schumacher, um herói nesse estado tão perfeito que não seja brasileiro, dá uma pequena reticência na tua obsessão. Mas o meu grande herói é o Ayrton Senna e eu vejo ainda borbulhando coisas da vida dele, das idéias, do senso de valores, humanitário mesmo, mas a obsessão por máquinas está bastante nublada pela questão tecnológica e mais do que tudo, pela superioridade tão rigorosa e absoluta do Schumacher.
Nosso Rubinho fica lá na sombra, né?
Herbert - Ele batalha o que pode, mas qualquer ser humano que estivesse no sovaco do Schumacher faria bem menos do que o Barrichello faz.
Você tem problemas de dores, toma muito medicamento, como está também o operacional e mental?
Herbert - As dores extremas que eu sentia algumas vezes nas pernas durante o dia estão sendo controladas. Mesmo com o controle medicinal, estou começando a receber quantidades menores de remédios e vejo uma possibilidade de que ainda nesta existência vá ter algum momento completamente livre dos remédios, com a saúde restaurada. Eu quero muito me integrar com o mundo das crianças, com a brincadeira deles. Poder aparecer numa festa de escola, tocar um violão, buscá-los e trazê-los. Isso é algo que está muito alto na minha lista de desejos, de sonhos de existência.
Na questão mental você então ainda tem problemas de memória de curto prazo e perdeu uns três, quatro anos, é isso?
Herbert - Isso. Agora, em termos de letras, por exemplo, eu eventualmente tenho uma imprecisão do tipo "como é que começa mesmo?" Agora, se começou, vem tudo bastante claro à cabeça. Estou feliz, com muito orgulho e agradecendo muito a Deus de ter tido uma veia poética em termos temáticos bastante específica, no sentido de reconstrução humanitária, de bem-estar e de sonhos.
Você está fazendo tratamentos agora e com quem? Talvez pudesse falar na sua neuropsicóloga, a dra. Lúcia Braga.
Herbert - Ela vem ao Rio durante alguns dias e viaja muito para congressos no exterior e outras cidades, aonde ela atende também. É um plano bastante surreal a coisa do Projeto Sarah de atendimento à deficiência. É quase surreal vindo de um país terceiro-mundista, mas é uma coisa que está ali e que deixa todo mundo com os cabelos em pé. As pessoas dizem: "Meu Deus! Eu nunca imaginei isso!". Eu completo dizendo: "Cara, você não sabe como é estar aqui e ver essa batalha pela recobrança de pessoas que perderam coisas tão fundamentais de movimento e de sensibilidade". É uma coisa muito bonita, muito do bem mesmo. Coisa de que me faz orgulho de que seja no Brasil e um orgulho muito particular, muito intenso de que eu esteja lá batalhando, aprendendo e vendo o valor que aquilo tem.
Você acha que você vai recuperar a locomoção um dia?
Herbert - Eu não tenho certeza, mas espero que sim e rezo bastante. Agora, estou batalhando para desenvolver um maneirismo no palco de trocar os efeitos da guitarra com as mãos, mas isso também está me levando, num sentido artístico específico, para uma guitarra com mais presença, mais peso, menos delicadeza, com amplificador rasgando, com as válvulas cheias. É um belo passo e possivelmente vai ser um novo caminho na coisa artística mesmo, na direção das composições.
E o velho amor pela estrada, como é que você acha que vai ser a turnê agora?
Herbert - É uma coisa que agora está borbulhante no meu sangue.
Nas últimas conversas que a gente teve, você falou que estava querendo até dar mais atenção à vida familiar.
Herbert - Isso é uma coisa que está bastante forte e eu vejo o naco largo que a Lucy ocupava com grandeza, com beleza, de usar isso num país estrangeiro, de rasgar o peito e dizer: "Vamos nessa!". Isso é uma coisa que fala um bocado a respeito da personalidade dela, da nobreza.
Como é que foi a sua retomada na convivência com as crianças?
Herbert - Bom, eu tento abrir portas nos mundinhos que eu sei que representam algum prazer para eles e me integrar.
Quer dizer então que a dor da perda já esta num nível suportável...
Herbert - Começa a chegar, mas em vários momentos eu acabo perguntando espiritualmente aos guias, aos espíritos mais elevados, a Deus: "Me mostra claramente se isso foi uma punição...". E, muito especialmente, em que campo porque não só a minha memória está chamuscada, como eu não tenho nenhuma lembrança específica de coisas que justificassem. Tenho erros normais, erros humanos ou por ignorância, mas não tenho uma coisa específica que, do meu ponto de vista, justificasse uma punição. Mas, ao mesmo tempo isso me dá uma conexão bastante frutífera com os meus pais, deles fecharem a porta e conversarem: "Imagina, já viu quantas pessoas...". A minha visão de mundo começa a tomar uma outra ótica mesmo, uma coisa bem realista.
Você me falou que seguia muito o Taoísmo e o Budismo. Você tem desenvolvido isso muito mais agora?
Herbert - Continuo bastante convicto com estas questões. Procuro pela casa, pelo meu universo de materiais para leitura, coisas que tenham contexto taoísta ou budista que falem da sobrevivência, da alma, do caminhar humano, do aprendizado. É uma coisa que está bastante viva na minha alma, que eu procuro em cada relação humana, em cada pequena frase ou ato. Hoje vejo um progresso na minha vida, no que ela se transformou desde quando eu não tinha um contato espiritualista, principalmente a convicção e as respostas tão abençoadas que eu passei a sentir e receber. Uma coisa que está sacudindo bastante as minhas têmporas agora é uma questão de valores porque um acidente dá uma sacudida geral, nas visões que você tem a respeito da vida das pessoas e do mundo.. Estou bastante voltado para as figuras que evidentemente têm menos posses. Você tentar imaginar aonde e como aquela pessoa vive e quais são os seus valores... Com um cunho existencial mesmo. Eu seguro a comoção que volta e meia me vem quase sem freio. Eu seguro, batalho, respiro fundo e, graças a Deus, tenho nesse retorno as melhores companhias, meus irmãos aqui, que têm um astral bastante positivo, bem-humorado. Acho que a gente sacudiria a poeira e arrastaria as asas de novo em qualquer plano que fosse necessário ou no único plano que a gente pudesse estar, mas a gente reconstruiria a nossa vida. A alegria da musicalidade, do prazer, do rasgo de emoção da comunicação, tudo isso a gente faria de novo em vários planos.
Por Jamari França - autor da futura biografia dos Paralamas, Vamo Batê Lata
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