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Daniel lança CD de raiz e fala sobre medo e arrependimento

Daniel: projeto paralelo de modas de
viola. (Foto: Reinaldo Marques/Terra)

Quinta, 15 de maio de 2003, 07h02

Daniel fez um belo disco de sertanejo de raiz. Não fez isso com um disco de carreira e sim com um projeto paralelo, Meu Reino Encantado II, segunda edição de sua homenagem aos primórdios do gênero interiorano. O primeiro CD, com o mesmo nome e sem o "II", vendeu 500 mil cópias, impressionando o cantor e gravadora. "Era um CD mais 'chão'. Havia uma cobrança do povo que gostava desse estilo de música", explica Daniel, que ouve essas canções desde os cinco anos de idade. Ele as cantava com o pai, José Camillo, que participou de Meu Reino Encantado II em diversas faixas. No primeiro disco, cantou uma.

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O centro da homenagem na verdade disco é Tião Carreiro & Pardinho, dupla lendária do sertanejo. Daniel e a gravadora começaram a pesquisar faixas para o projeto e perceberam que 80% delas era da dupla - então, acharam melhor concentrar nos criadores do "pagode", quando a palavra ainda não significava "roda de samba". Tudo foi gravado rapidamente, praticamente em semanas, no meio da atual turnê de Daniel, comemorativa de seus 20 anos de carreira e disco Um Homem Apaixonado. Ele não vai levar Meu Reino Encantado II para a estrada, pelo menos não até uma próxima turnê, que deve começar após seu próximo disco de carreira, planejado para setembro ou outubro. Daniel já está preocupado, pois ainda não achou "a" canção, aquela que pode vir a ser o hit do álbum. Fitas e CDs ele recebe muitas e ouve mais de 500 até selecionar as 14 faixas do disco.

"A maior parte das músicas são homenagens ao João Paulo", diz Daniel à reportagem do Terra. Mesmo depois da morte do amigo e parceiro, a lembrança continua forte na mente dos fãs e dos músicos. Uma passada nas capas dos trabalhos da dupla e pode-se ver Daniel quase menino, ao lado de João Paulo, na estréia em disco, em 1985. O pai, José Camillo, bancou a estréia. Virginiano, Daniel arrepende-se somente de uma coisa: não poder ter dito a João o quanto gostava dele. Agora, quer expressar melhor seus sentimentos para além dos gestos e olhares.

Entre os próximos projetos do cantor está um filme com Renato Aragão, em que interpreta o personagem masculino principal na adaptação do clássico Romeu e Julieta. "Tive até de tomar o veneno", brincou Daniel. Além disso, vai continuar com seu time particular, o Daniel Futebol Clube, que vai até as cidades e joga com pelejadores locais com arrecadações beneficentes. Conseguiram bons resultados como uma tonelada de alimentos, 500 bolsas de sangue para um hospital, seis mil cobertores e um milhão em dinheiro. Se o time é bom? Estava invicto até pouco tempo, quando apareceu pela frente o jogador do Brasiliense Edson Dias. "Ele conseguiu um pênalti no final da partida e fez um golaço", lamenta o jogador e cantor.

Confira a entrevista:

Você recebe muito material de compositores. A maior parte é música romântica ou tem músicas de raiz, como as que gravou em Meu Reino Encantado II?
Recebo bastante material, uma quantidade absurda. Chega muita coisa misturada. Homenagens ao João Paulo, por exemplo. Músicas com mensagens, pois sabem que eu sou devoto de Nossa Senhora da Aparecida. Mas no geral são músicas românticas, que falam direto ao coração. Acho até que é uma tentativa de valorizar o romantismo, talvez por ser uma coisa mais rápida, mais "comercial", digamos assim.

Sobre o João Paulo você percebe pelas letras que chegam.
Sim, falam dele, da parceria que existiu. Falam do amor e carinho que sinto por ele. Realmente trazendo o personagem, a pessoa que foi e continua sendo o João Paulo para mim. Todo esse material, é claro, passa antes por produtores, que selecionam as músicas no decorrer de um ano, praticamente. Mas pelo menos umas 500 obras, rapidamente, eu ouço.

Um disco de música sertaneja tradicional como Meu reino Encantado II vende menos que um CD seu de carreira, não?
O primeiro Meu Reino Encantado ultrapassou a marca das 500 mil cópias vendidas. Foi superior ao que eu e a gravadora imaginamos. Fiz por satisfação mesmo, sem a preocupação de vender. Está em catálogo até hoje e continua vendendo, mesmo "pingado". Hoje, se você conseguir vender meio milhão de discos em um ano é uma vitória, pois o mercado está complicadíssimo. Homem Apaixonado está com 600 mil cópias - é um número respeitável. E uma boa parte do meu público tem um poder aquisitivo baixo, é um dinheirinho suado que a pessoa está gastando, algo que se torna caro para ela. E tem ainda o investimento que uma gravadora faz. O primeiro Meu Reino vendeu como um disco de carreira.

Como é seu pai nas gravações? Ele fica à vontade, fica tenso?
Ele é super dez. Ficou tenso no primeiro disco, que era sua primeira experiência em estúdio. Conheço pessoas que até hoje sofrem para colocar uma voz em uma gravação. Mas ele chegou na maior, parecia um artista (risos). O comentário no estúdio foi que ele se saiu melhor que muito profissional. Levou tudo na esportiva, foi sério, compenetrado, acompanhou o projeto inteiro - e mesmo quando não estava gravando estava assistindo aos outros gravarem. Meu pai não deu trabalho para gravar.

Mas ele deu palpites nos arranjos, no repertório?
Só na hora em que eu ia colocar a voz - aí ele dava os palpites dele. "Por que você não faz assim?" (risos). Ele manda vê, é danado.

É o primeiro disco seu em que aparece com chapéu de cowboy na capa. Fica até a impressão que vamos ouvir um trabalho country. Você gosta de música country americana?
Realmente é o primeiro disco mesmo que apareço de chapéu. Gosto de música country, pra caramba. Meu gosto é eclético, gosto de Garth Brooks, Shania Twain, Shakira, Celine Dion, Elton John, Phil Collins.

Gosta de alguma banda "extravagante"?
Gosto do Metallica, também pra caramba. Gosto desse DVD que fizeram com orquestra. Você viu? E tem umas bandas de pop rock brasileiras que voltaram a fazer sucesso, como o Capital Inicial. Gosto daquilo que me faz bem. Ouço de tudo mesmo, sem brincadeira.

E o Daniel Futebol Clube, como vai? Continua invicto?
Rapaz, perdemos em Morrinhos, Goiás, semanas atrás. Na verdade tá difícil nos últimos tempos. Temos encontrado umas pedreiras pela frente e tivemos até de reestruturar o time para não passar feio. Em Ararás, por exemplo, tinha jogador do União São João jogando no time adversário. O pessoal tá pegando pesado (risos). E é engraçado, a partir do momento em que a bola começa a rolar ninguém quer saber de perder. Quando perdemos em Morrinhos foi por causa do Edson Dias, aquele menino que joga no Brasiliense. Ele é bom pra caramba, aquele moleque.

Ping Pong em cima do tradicional Questionário Proust:

Qual sua concepção de perfeita felicidade?
É estar de bem com a vida, com as pessoas ao seu redor, amar sua família, saber que essa é sua grande estrutura, sua grande base. E estar sempre compenetrado por inteiro em tudo que você faz.

Qual seu maior medo?
Por incrível que pareça, a morte. Quando ouço essa palavra ela me traz um pouco de pavor. Isso apesar de ter consciência que a gente passa dessa para uma melhor - pelo menos penso assim, senão muita coisa que acontece aqui não teria sentido. Acho que esse medo da morte é pelo tanto que gosto de viver.

Com qual figura histórica você mais se identifica?
Pensa, chega a mencionar o pai e enfim acha alguém: Charlie Chaplin! Que era uma figura irreverente. Talvez eu traga um pouco daquela coisa de tristeza misturada com felicidade.

Que pessoa (ainda viva) você mais admira?
Meu pai, com certeza.

O que menos gosta em sua aparência?
Sei lá, viu (risos). Deus me fez assim, né? "Eu sou como meu pai me fez assim", não tem uma música assim? Na aparência acho que minha estatura. Sou um pouquinho baixo, poderia ser um pouquinho mais alto.

Em que tipo de ocasião você mente?
Ah, eu já menti muito em relacionamento (risos). Não nego. Com certeza já tive de mentir para de repente não perder a pessoa que estava ao meu lado (risos). Ah, eu sou realista, né?

Qual seu maior arrependimento?
Acho que por ser do signo de Virgem, e todo virginiano tem isso, muitas vezes não consigo expressar aquilo que sinto de verdade pela pessoa que está ao meu lado. Faço isso através de atos, de um olhar. Sou muito sincero nesse aspecto, muito transparente. Mas de repente me arrependo de não ter chegado e falado para o João Paulo o quanto que eu gostava dele, sabe? O quanto ele significava para mim. Talvez esse tenha sido meu maior arrependimento até hoje.

O quê ou quem é o maior amor de sua vida?
A música.

Se você pudesse mudar alguma coisa em sua família, o que seria?
Eu com certeza gostaria que meu irmão tivesse o privilégio de andar. Ele tem paralisia cerebral. Gostaria que ele pudesse fazer tudo sozinho, e infelizmente não pode. Está com 41 anos, com cabelinho branquinho.

Ricardo Ivanov/Redação Terra

            

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