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| O cineasta usa o Rio da Prata, que separa Argentina e Uruguai, como metáfora da proximidade e do distanciamento |
★★★ COMÉDIA
O OSCAR DE FILME ESTRANGEIRO que Juan José Campanella ganhou este ano por O Segredo dos Seus Olhos pode não ter sido unanimidade, mas comprova que o cinema argentino anda na contramão da economia do país e está em fase de resplendor. Além do autor de O Filho da Noiva, outros realizadores têm contribuído com obras admiráveis, como Pablo Trapero e seu Família Rodante e Lucrecia Martel, com A Menina Santa. O caçula dessa nata é Daniel Burman, que hoje tem 37 anos, mas aos 25 já surpreendia pela sensível abordagem das relações humanas, principalmente as familiares. Não à toa, ganhou o apelido de “Woody Allen portenho”, embora diga que a geladeira do pequeno-burguês que costuma retratar nunca está tão cheia quanta a dos protagonistas do mestre nova-iorquino.
Burman explorou os vínculos entre pais e filhos em As Leis de Família e O Abraço Partido (vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim), e narrou a crise de um casal em Ninho Vazio. Agora, se debruça sobre as idiossincrasias e fragilidades de uma dupla na terceira idade na comédia Dois Irmãos. Graciela Borges e Antonio Gasalla, gigantes do teatro e do cinema argentino, vivem Susana e Marcos, e o humor que tiram de situações corriqueiras – como roubar a correspondência do vizinho – atenua seus dramas pessoais. Susana faz rolos na compra e venda de imóveis. A casa da mãe recém-falecida entra no bolo e obriga Marcos, que vivia em função da mama, a se mudar para o Uruguai. Burman é engenhoso e usa a geografia dos países, separados pelo Rio da Prata, como metáfora da proximidade e do distanciamento que se alternam na convivência dos personagens. Esse é um cinema de sutilezas, com boa dose de ironia e sem grandes reviravoltas, mas abundante na emoção.
(Classificação indicativa: a conferir)