O ESCRITOR MIGUEL SOUSA TAVARES chama No Teu Deserto (Companhia das Letras, 128 págs., R$ 30) de "quase-romance". A definição talvez nem seja pelo gênero literário, mas pela própria história. O narrador conta dos dias em que atravessou o Saara ao lado de uma mulher 15 anos mais jovem e, inicialmente, desconhecida.
"(No fim, tu morres. (...) Assim mesmo, como se morre nos romances: sem aviso, sem razão, a benefício apenas da história que se quis contar)", avisa, antes de começar a narrar. Autor de romances históricos, como Equador, Tavares disse a publicações portuguesas que seu novo livro é autobiográfico.
No entanto, há passagens em que quem conta é sua companheira, Cláudia. Os dois haviam se conhecido 20 anos antes, quando ela tomou lugar no jipe dele para juntos seguirem um grupo que sairia pelo deserto. As recordações surgem quando ele encontra uma fotografia. "É por isso que não gosto de fotografias antigas: se alguma coisa elas reflectem, não é a felicidade, mas sim a traição - quando mais não seja, a traição do tempo (...)."
Naquele momento, ele já descobrira, por acaso, que ela havia morrido. Com 100 mil exemplares vendidos em 20 dias em Portugal, o livro é de uma simplicidade sóbria e elegante, com momentos lindamente escritos. Há bobagens, como clichês sobre a atração exercida por mulheres jovens ou sobre paisagens desérticas, mas nada que desmereça o texto.
Aina Pinto